Apnéia para as crianças e jovens
As crianças e jovens podem praticar apnéia ?
É perigoso ? Como fazer ?
Esta é uma dúvida frequente para pais e instrutores de apnéia, por isto decidi pesquisar durante meus cursos e junto à AIDA França – Associação Internacional para o Desenvolvimento da Apnéia.
A paixão das crianças pelo mar é algo indescritível, o seu primeiro encontro com o mar é algo que levará para sempre em sua memória....
Lembro-me de um estágio que fiz na França, onde eu e Loic Leferme (recordista mundial de No Limits) fizemos um curso de apnéia beneficente para mais de cem (100) crianças sem condições financeiras que vinham do norte da França e que nunca haviam visto o mar, foi um dia muito emocionante...
A Prefeitura dos Alpes Marítimos conseguiu a condução e a alimentação para as crianças e nós fizemos a parte da instrução, uma espécie de
"iniciação para o mar".
Ver cada olhinho brilhando ao ver mar, colocar a roupa, a máscara, a nadadeira, entrar naquele novo mundo, ver os peixes, as plantas... foi algo que até hoje não tenho palavras para descrever.
Gostaria de dar alguns conselhos para que se evitar erros e fazer com que este primeiro contato, assim como as férias desses "pequenos peixinhos" seja cheia de divertimento e de belos momentos debaixo d’água, sem riscos.
A apnéia de 8 a 14 anos
Principalmente quando o verão chega, um elevado número de jovens busca pelo mar... e pelo desejo de tentar mergulhar em apnéia. Com isto, os pais começam a se preocupar em buscar por mais informação.
Os materiais didáticos sobre apnéia para crianças são raros, o que fazer
?
Educar deste pequeno sobre a segurança neste esporte, incitando à prudência é primordial.
Precisamos destacar dois tipos de apnéia:
- Apnéia Esportiva ou competitiva: é a do campeão, geralmente do adulto.
As referências são apenas o tempo, a profundidade ou a distância.
São destacadas as performances máximas, que chamamos frequentemente de
"personal best", ou simplesmente "PB". Sob este ângulo, a apnéia é um fim em si.
- Apnée das crianças: é a do jogo, a da exploração, a do imaginário, a do lazer.
A apnéia representa somente algum momentos fortuitos, rápidos, ela é procurada como um meio para se atingir outros objetivos, como brincar de buscar um objeto no fundo da piscina.
As crianças não podem ser confundidas como pequenos adultos !
Como dizia Claparède em 1937:
"A criança não é um adulto em miniatura e a sua mentalidade não é somente quantitativamente, mas também qualitativamente diferente da mentalidade do adulto, de modo que a criança não é somente menor, mas também diferente".
Gostaria de contar a anedota de Thomas, jovem de 13 anos que foi a Saint Jean de Cap Ferrat,
onde Loic ministrava seus cursos de apnéia. Ele era do norte, da região de Grenoble. Thomas olhava orgulhoso para Loic e falava: demais o teu recorde ! você recuperou a marca que estava com os italianos !!!
Os instrutores franceses ficaram assustados ao saber que Thomas conhecia o nome de todos os campeões, datas e marcas feitas. E a coisa não parou por ai, ele contou que ajudou na organização do primeiro campeonato do mundo de apnéia feito pela AIDA em 1996, falou sobre os riscos da hiperventilação... Durante quatro dias os intrutores viram uma verdadeira enciclopédia viva da apnéia mergulhar com eles.
Thomas dividia a lembrança de ter mergulhado com os seus ídolos mas, igualmente, mantinha uma outra idéia da apnéia:
a de uma prática onde pudesse passar o seu tempo brincando na água, vendo os peixes, o fundo do mar, sem pensar em marcas, sem ficar olhando para seu relógio ou profundímetro.
Quem são estes jovens ?
A cada dia vemos mais matérias sobre apnéia na mídia, os campeões falam sobre suas marcas geralmente com imagens belas de fundo, com mar azul, golfinhos,
baleias.... As revistas são magníficas e mostram os sucessores do pai da apnéia Jacques Mayol.
É natural então que estas crianças e jovens tenham o desejo de tentar, eles também querem se tornar homens peixes, ou homens golfinhos.
Meus sobrinhos Marisa (na foto abaixo), Mariana e Carlinhos, na faixa dos 3 aos 7 anos, vivem me chamando de tia Karol
"Peixe", quando ganharam seus materiais de mergulho pela primeira vez, foi surpreendete ! Parecia que já sabiam mergulhar ! Por impulso próprio e pelas imagens em vídeos, fotos de revistas, matéria na televisão eles tinham já um total naturalidade para vestir o material e cair na água.
Nosso mundo moderno ajuda a divulgar e motivar os jovens a se iniciarem cada vez mais cedo em todos os esportes, mas há também aqueles “empurrados” pelos pais...
Todo cuidado é pouco... como já expliquei acima, as crianças não são adultos em miniatura.
(Karol Meyer e sobrinha Marisa Meyer Macedo – 6 anos).
Precisamos destacar dois tipos de público dentro desta faixa dos 8 aos 14
anos:
6 aos 11 anos: É o fim da grande infância e o período pré-puberdade. Os jovens têm intensa atividade, exploram os ambientes muito mais do que aprendem. É um período de abertura para um mundo externo, aonde os jogos são o maior atrativo.
A atenção é dificilmente sustentada, há a curiosidade e uma necessidade de competição, contudo, os meios físicos continuam a ser fracos e cansam-se rapidamente.
No plano pedagógico, é necessário propor atividades e situações variadas, ter uma abordagem global sobre a apnéia e propor sequências curtas de prática.
12 aos 18 anos: é o período da puberdade. Há uma diminuição da hiper-atividade devido aos problemas de crescimento, inicia-se uma modificação do corpo e é, também, um período de instabilidade no plano afetivo, sofrem de um certo conflito de idealismo juvenil, uma necessidade de auto-afirmação surge com a possibilidade de um
"novo corpo".
No plano pedagógico, devemos prestar atenção ao cansaço muscular e nervoso (mental), é necessário transformar a
"agressividade" e ajudá-lo a retomar a confiança em si próprio. A paixão pelo esporte pode ajudar a acentuar o processo de socialização nesta faixa de idade.
Porquê fazer apnéia com crianças e jovens ?
Alguns exemplos objetivos que justificam a prática da apnéia entre crianças e jovens seriam:
- fazer apnéia é antes de mais nada, fazer uma educação respiratória !
- a mobilização e o desenvolvimento das capacidades físicas com relação a fisiologia respiratória, terão uma melhoria no controle da ventilação;
- o desenvolvimento da capacidade vital pulmonar;
- apresentarão uma melhoria no plano biomecânico com os exercícios de apnéia dinâmica, ou seja com as nadadeiras;
- apresentarão flexibilidade nas articulações dos ombros pelo trabalho na posição hidrodinâmica dos braços para frente enquanto pratica a apnéia dinâmica (com nadadeiras);
- terão evolução na coordenação pelos exercícios de dissociação de ações entre braços e pernas como perfilar-se com os braços e impulsionarem-se com as pernas na apnéia dinâmica ou até mesmo impulsionando alternadamente os braços e as pernas (como no caso da dinâmica sem nadadeiras);
- a alternância entre a contração e relaxamento muscular durante a prática da apnéia dinâmica contribui para o aprendizado do controle do tônus corporal e coordenação;
- irão aguçar as suas capacidades perceptivas como: sentir o empurrão de “Archimedes” ou o seu peso aparente na água, terá noção da amplitude da batida de pernas com as nadadeiras observando a força propulsora do movimento;
- irão melhorar as qualidades relacionadas ao convívio à dois ou em grupo;
- e um dos mais importantes, o controle progressivo de suas emoções ao perceberem que podem permanecer na água por um determinado tempo (1O - 2O segundos) sem se afogar ou ainda tentar novas formas de evolução sob a água dominando o ambiente progressivamente.
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O pânico ligado ao medo de afogar-se é sem dúvida um elemento determinante dos acidentes em meio aquático. Ajudar o aluno à vencer este medo, através de uma prática de apnéia, que permite desenvolver a sua capacidade de permanecer sob a água, representa um potente meio para contribuir para a prevenção dos acidentes
(salvar-se , e poder salvar os outros) !
E não paramos por ai...
- O conhecimento do seu corpo é muito importante;
- O conhecimento de novas sensações que a água proporciona;
- O desenvolvimento de uma higiene de vida e o respeito da natureza, através do conhecimento sobre o meio aquático, sua fauna e flora.
A apnéia por si só não é perigosa, mas as condições nas quais é praticada poderá tornar a atividade perigosa ! Para isto nunca é demais ressaltar:
- Uma educação respiratória é obrigatória para prevenir o risco de uma hiperventilação.
Uma ventilação de amplitude normal (só o volume corrente é mobilizado) e uma
frequência ventilatória lenta são suficientes.
A instrução dada aos jovens pode ser do tipo: "respira-se normalmente, devagar, sem fazer barulho".
Em linguagem simples, as crianças e jovens compreenderão e poderão visualizar o instrutor durante a explicação facilitando a prática de forma correta, sem riscos.
- Uma educação da razão: passarão a compreender seus limites, nesta idade vale a quantidade e não o desempenho máximo em termos de performance.
Isto evitará, inclusive, acidentes por excesso nas práticas seja de estática, dinâmica ou profundidade, ficando o jovem longe de um trauma.
Por exemplo, uma dinâmica de 25 m com uma pausa de 5 " entre o meio e o fim antes de completar os 4O m propostos, podemos ainda focar nos diferentes percursos, quadrado, circular , retangular, sem, repito, dar ênfase à performance máxima.
A apnéia se mantém como um meio e não um fim em si.A sua representação na criança será diferente do adulto.
Temos que ter cuidado especial com os jovens adolescentes, na maioria do sexo masculino, onde, na busca por afirmação, alguns acabam por desenvolver, de maneira excessiva, o espírito de competição.
Outra atenção deve ser dada aos pais, para que não "cobrem" demais das crianças e dos jovens, discutindo, perguntando sobre a evolução.
Já presenciei alguns que esperavam que o filho se tornasse um golfinho !
Outros mostram a intenção desde o nome que colocam na criança... e isto não é salutar.
Todo o cuidado é pouco, duplas são formadas para isto, já estimulando o cuidado com o parceiro dentro o ambiente aquático.
A profundidade será limitada para se evitar otites, fragilização dos tímpanos e barotraumas em nossos futuros mergulhadores apneístas.
A prática da apnéia de forma correta não se torna perigosa, digo que a prática da apnéia é tão vantajosa para os jovens como qualquer outra modalidade esportiva.
Algumas limitações são sugeridas pela AIDA, que norteiam os instrutores de apnéia:
- ventilação adequada, sempre inferior à 1 minuto;
- profundidade razoável: idade / 2;
- distância razoável: 2 x Idade;
- duração razoável: 2 x Idade.
Por exemplo, um jovem de 8 anos, teria como limite pedagógico: 4 m de profundidade, 16 m distância e 16 segundos em estática.
Por fim, as regras de ensino da AIDA Internacional deverão sempre ser respeitadas pelos instrutores de apnéia.
Sugestões de prática de apnéia para crianças e jovens.
A Aida propõe uma prática para o grupo de idade entre 6 e 18 anos, onde a
"performance" é considerada: percurso de distância na apnéia dinâmica, jogos de duração (permanência) na apnéia estática e percurso de profundidade no lastro constante e disciplinas de profundidade.
"Performances"
Níveis AIDA
percurso de distância
jogos de duração
percurso de profundidade
| 1 de 6 à 8 anos |
14
14"
4m |
| 2 de 8 à 10 anos |
18
18"
5m |
| 3 de 10 à 12 anos |
22
22"
6m |
| 4 de 12 à 14 anos |
26
26"
7m |
| 5 de 14 à 16 anos |
30
30"
8m |
| 6 de 16 à 18 anos |
35
35"
9m |
As práticas de percurso podem envolver a passagem por bambolês submersos por exemplo, criando-se um trajeto a ser percorrido, seja ele distância ou profundidade.
Os jogos de duração (apnéia estática) podem ser feitos de várias formas, através de jogos submersos como poses de baixo d’água, aquela brincadeira de estátua , mas debaixo da água, ou a criança brinca de falar de baixo da água e depois sobem e tentam decifrar o que o amigo falou, jogos de mímica também valem aqui.
E como avaliar a evolução dessa turminha ? Notamos a maneira como realizam os percursos, o domínio da situação, a técnica na batida de pernas, a sua propulsão e o seu hidrodinamismo, a gestão do esforço e do consumo de energia durante a prática, a gestão da velocidadade, a qualidade de sua preparação e ventilação antes da apnéia, a execução do exercício em apnéia de forma correta, todos estes elementos permitirão ao instrutor avaliar o nível real do aluno permitindo então a sua evolução.
A prática da apnéia se completa com as informações sobre o mar, sua fauna, flora e a necessidade de preservação.
As crianças podem ser levadas para ambientes naturais, locais calmos, aonde possam fazer suas observações através de mergulhos curtos avistando peixinhos, estrelas, ouriços, conchas, moluscos diversos, formações de corais e esponjas, ou simplesmente para sentir o
"azul".
A busca pelas performances deve ser uma escolha pessoal dos jovens ao se tornarem adultos e não deve ser feita jamais através de imposição dos pais, treinadores ou instrutores.
A apnéia para as crianças e jovens deve ser a apnéia das brincadeiras, dos jogos, da descoberta, do respeito pela natureza !
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