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Princípios de Didática que otimizam o aprendizado e utilizam o mergulho na reeducação emocional

Vive-se uma era em que não mais se pode relegar a educação a um processo seletivo no qual se separam aptos de inaptos. É importante compreender o indivíduo e a necessidade de qualificá-lo, mais que rotular seu esforço com testes dúbios. O mergulho "SCUBA" oferece uma poderosa ferramenta de reeducação emocional por ser uma atividade protocolar que permite vivenciar emoções controladamente. A atividade cumpre, assim, a missão de aperfeiçoar o ser humano, ajudando-o a desenvolver melhor sua atitude em grupo, seu relacionamento consigo próprio e sua emotividade. Do mesmo modo que a mente desenvolve de forma semi-independente diferentes centros de memória e aprendizado, seja ele intelectivo, emocional, imunológico, etc..., é necessário desenvolver diferentes métodos de educação que atinjam cada um destes centros. Uma didática especial foi elaborada; os princípios apresentados a seguir demonstram como se consegue criar impressões nos cérebros receptores da informação, estimulando a fixação do conhecimento, quer emocional, quer intelectivo. Os cinco princípios da didática são: conhecimento, empatia, canalização, individualização e múltipla exposição. O ensinamento do mergulho adiciona informação real, auxilia a superar limites e transforma definitivamente o indivíduo, oferecendo uma nova opção e um estilo de vida que o irmana mais ao grupo, agora sabendo se comunicar com a mente emocional e o intelecto. A civilização salta da "Era da Seleção" - na qual o ensino se apresenta prioritariamente como uma forma de separar quem é provido de habilidade de assimilar determinado assunto de determinada forma de quem não é - para a "Era da Qualificação", caracterizada por um ensino pelo qual se consegue, através de um especial esforço, levar a mesma informação a diferentes pessoas, com distintos interesses e habilidades, utilizando práticas didáticas específicas. Desta forma, elevando a própria humanidade, missão nobre e eterna do educador.

 

Introdução

Vive-se uma era em que não mais se pode relegar a educação a um processo seletivo onde se separa aptos de inaptos, em um novo espírito, deve-se cada vez mais compreender o indivíduo e a necessidade de qualificá-lo especialmente e não apenas rotular seu esforço com testes dúbios. Nos dias de hoje a realidade que se observa é a de professores que apresentam informações e apenas selecionam quem absorveu ou não as mesmas, por métodos falhos e duvidosos como provas de múltipla escolha. O professor necessita um maior comprometimento com a qualificação do aluno, sendo o catalizador do processo do aprendizado e não coadjuvante, assumindo seu real papel de educador e guia do saber. O compromisso é claro e inclusive moral, ético e financeiro, onde o professor recebe do aluno não apenas para informar e sim para educar.

O mergulho autônomo é uma atividade apaixonante, para quem já experimentou, a impressão que fica é de algo realmente especial. Uma profusão de cores um explodir de vidas e belezas que nunca antes foram apreciadas. Atividade própria para pessoas de espírito elevado e gosto apurado, o mergulho proporciona emoções que em nenhuma outra atividade se poderia despertar. Este despertar de emoções que é desenvolvido de forma protocolar seguindo uma rígida metodologia imposta pelos orgãos mundiais de controle do mergulho se transforma em um rico campo de trabalho para um professor mais atento e comprometido.

Esta atividade tem se subdividido de várias formas, o mergulho recreativo turístico de lazer com S.C.U.B.A. (Self Contained Underwater Breathing Apparatus); conta com 400.000 credenciados no Brasil (censo Confederation Mondial des Activites Subaquatique, 1998); 5.000.000 de mergulhadores credenciados no mundo (censo PDIC, 1999); ordenado pelo R.S.T.C. – Recreational Scuba Training Council atuante em 286 países, contempla os setores de eco-turismo e da pesquisa científica; o mergulho comercial é assim chamado quando é feito com o intuito de desenvolver atividades industriais; contempla normalmente os setores navais, petrolíferos, hidroelétricos e de construção civil; opera equipamentos de oxi-corte submarino, de inspeção subaquática, etc; já o mergulho esportivo é regulamentado pelas federações esportivas e departamentos governamentais de meio ambiente; divide-se em pesca sub-aquática e apnéia.

 

Objetivo

Especialmente o que se encontra no mergulho é a possibilidade de se deparar constantemente com fortes emoções que afloram de cada momento. Estas emoções, parecem àqueles que ainda se encontram de fora da atividade, algo que tange ao ameaçador, que por vezes nos desperta receio, aliás, como todas as atividades que nos evocam as mais deliciosas emoções quando dominadas, o mergulho tem esta característica de no início nos despertar o temor.

O que às vezes a princípio nos afasta do mergulho é justamente o que exalta tão fortemente a atividade, procura-se os problemas por que se precisa das dádivas por eles oferecidas. Será que este frisson que permeia o ser, não é tão somente um anseio pelo que o mergulho tem a oferecer ?   Na verdade o que o mergulho autônomo oferece então é uma poderosa ferramenta de reeducação emocional por ser uma atividade altamente protocolar e permitir vivenciar estas emoções controladamente, uma ferramenta que pode vir a ensinar lições para todos os aspectos da vida. Destarte, a atividade cumprirá sua mais sagrada missão, a de aperfeiçoar o ser humano, ajudando-o a desenvolver melhor sua atitude em grupo, seu relacionamento consigo próprio e sua emotividade.

Para tanto, houve a necessidade de desenvolver, uma didática especial que possa levar o indivíduo a praticar a atividade de forma mais comprometida com a formação pessoal. Fontoura (2004), desenvolveu então o método dos cinco Princípios da Didática, utilizados na Tridente Centro de Mergulho que em um momento entre o tédio e a ansiedade, no qual a mente entra em um estado de excelência se anexam estes princípios, que permitem a otimização de todo e qualquer aprendizado.

 

Embasamento do Método

Ao longo de milhões de anos de evolução o cérebro cresceu de baixo para cima, o cérebro dos mamíferos acrescentou novas camadas cerebrais a sua camada mais basal o córtex. Estas camadas foram denominadas de neocórtex, uma área cerebral periférica que abriga tudo que é tipicamente humano. Com estas camadas foram aperfeiçoadas as ferramentas de aprendizagem e memória, o que nos gerou um diferencial determinante. Esta região límbica se tornou critica, severa de nossas reações mais primárias (GOLEMAN, 2001).

Até cerca de 20 anos se acreditava que apenas um centro de comando no cérebro humano orquestrava instruções para nossas ações, este comando era residente no neocórtex, isto foi sustentado até que alguns cientistas entre eles o Dr. Joseph LeDoux, Neurocientista do Centro de Ciência Neural da Universidade de NY iniciou estudos sobre o que segundo o próprio Dr. LeDoux seria nossa sentinela emocional, esta sentinela se localiza em nossas amídalas corticais sendo responsável por nossa memória emocional. O impressionante destes estudos é a comprovação definitiva de que, quando olhos e ouvidos geram uma informação para o tálamo, ele envia esta informação para o neocórtex, que trata a informação por uma intrincada rede neural, partícipes de nossa memória intelectiva. Porém, quando esta informação, é determinada como emocional, por uma única sinapse, ele, tálamo, envia esta informação para a amídala cortical que inicia um intrincado processo de domínio do corpo suplantando todos os demais fios de pensamento. Isto faz o indivíduo responder a estes chamados sequestros neurais de forma totalmente emotiva, não mais levando em conta o apelo crítico do sistema límbico (LEDOUX, 1994, apud GOLEMAN, 2001).

Grande parte de nossa vida emocional é inconsciente, como querer então, saber lidar com estas emoções se não as aflorar. Através das fortes emoções despertadas na atividade do mergulho e da forma como se reage às mesmas, pode-se educar ou reeducar as respostas que a memória emocional cria para os estímulos que a atingem.

Estas descobertas assim como a de que sistema imunológico era passivo de aprender, (ADER, 1974, apud GOLEMAN, 2001), vem a somar força na Teoria das Inteligências Múltiplas (GARDNER, 1994) e leva a concluir que do mesmo modo que a mente desenvolve de forma semi independente diferentes centros de memória e aprendizado, seja ele intelectivo, emocional, imunológico etc, assim também teríamos que desenvolver diferentes métodos de educação que atinjam cada uma destas memórias.

Fisiologicamente, aprender, além da compreensão do fato, é o ato de transportar informações de sua memória temporária, onde a informação se sustentará por no máximo algumas horas, em ligações neurais, para a memória definitiva onde o cérebro registrará as informações bioquimicamente em sua base de dados. Isto ocorrerá ao se determinar que esta informação tem relevância para tal, caso o cérebro não identifique esta informação como relevante a descartará. A relevância desta informação pode ser determinada pela insistência com que ela aparece, como também pela ligação da mesma a algum assunto determinado anteriormente como de relevante importância. Nos estudos sobre o Estado de Fluxo da Mente, (CSIKSZENTMIHALYI, 1999), que relata acerca do momento ótimo de performance da mente, entre os instantes de tédio onde a mente desenvolve tarefas bem abaixo da capacidade do indivíduo e os momentos de ansiedade onde o indivíduo intenta desenvolver tarefas que não se acha capaz encontra-se o momento ótimo onde a mente vai conseguir melhor concentração e atenção na informação e na determinação de sua importância.

 

Metodologia

Com a atividade diária de conduzir pessoas a prática do mergulho, através da metodologia descrita no manual de procedimentos da PDIC - Professional Divers Instructor Corporation, comumente esbarra-se em pessoas com respostas emocionais diferentes a estes mesmos procedimentos. Através de 220 entrevistas realizadas ao longo dos anos de 2000 a 2003 percebeu-se que pessoas levam para suas atividades lúdicas os medos e anseios de suas vidas regulares.

O relato de uma mulher de 45 anos que procurou o Centro de Mergulho, para aprender a mergulhar, pois queria muito vencer o medo da água que a limitava em acompanhar o marido em seus mergulhos e saídas de barco. Após ter afirmado nunca ter entrado na água, contraditóriamente revelou, ter sofrido um afogamento em uma piscina aos cinco anos. O impressionante foi o detalhamento como a mesma relatou seu evento, quase perdido em um passado tão presente. Lembrava das pessoas, se lembrava do local, se lembrava inclusive de seu biquíni amarelo. Ao passar por esta experiência traumática a mesma anexou na experiência do afogamento todos os outros dados agregados a mesma, transformando-os em sinais de um momento a ser evitado. Nada do que fosse conversado com esta senhora traria a mesma a idéia de que era absurdo o fato dela não assentir em utilizar roupas amarelas, que a mesma não utilizava. Afinal as vozes não falavam a memória emocional que resistente guardava intocado e sem as devidas sanções todas as informações do evento. Somente através de uma nova experiência com a água, onde os elementos daquela memória foram separados e devidamente catalogados, é que a mesma pôde se livrar daquele pesado fardo.

Posteriormente, a mesma declarou que esta experiência de se libertar de seu medo de água a auxiliou a ser uma pessoa melhor em lidar com outras facetas de sua emoção. Após vivenciar de forma segura e bem estruturada a atividade do mergulho, revivendo ordenadamente as emoções e encontrando respostas pessoais mais bem estruturadas para estas emoções, ela pode sentir-se mais forte para administrar melhor todas as suas emoções mesmo em outros campos. Esta é uma situação típica que se encontra nos relatos.

 

Princípios Didáticos

Os princípios passados a seguir, se referem a como se consegue criar impressões nos cérebros receptores da informação para estimular a fixação do conhecimento quer emocional ou intelectivo.

O primeiro princípio da didática é o do Conhecimento, se baseia na idéia de que é necessário ter profundo conhecimento da matéria que se vai transmitir. Ao expor uma matéria qualquer que seja, você expõe sua percepção sobre o fato e a teoria do mesmo, neste momento seu bem mais precioso, o cérebro, está exposto, se não houver consistência no conhecimento não haverá respeitabilidade na informação, o cérebro receptor não definirá aquela informação como "importante" e por isto será um motivo a menos para que ele a registre definitivamente.

O segundo princípio da didática é a Empatia, sem contato real com "o outro" não se pode aventurar a dizer que houve comunicação, a palavra empatia vem do grego e é interpretada como "entrar no sentimento", neste momento em que ocorre um contato real com "o outro" e é o momento certo de começar a trocar informação, afinal não existe entre os cérebros que se comunicam uma via de mão única. Como frisar a importância de um determinado enfoque da informação, se não percebemos o que é importante para o cérebro receptor.

O terceiro princípio da didática é o da Canalização, através do conhecimento e ao perceber que sentimento desperta mais interesse "no outro" inicia o momento que incentiva o indivíduo a dedicar especial atenção ao fato, sempre intermeando o pico de seu esforço com momentos de relaxante tédio, nunca de brutal ansiedade, na busca de prender a atenção do cérebro receptor ao assunto em questão.

O quarto princípio da didática é o da Individualização, não se pode querer que mentes tão distintas tenham caminhos tão simploriamente parecidos de acesso e prioridades de importância únicas, diferentes indivíduos, diferentes habilidades, diferentes prioridades. São os pequenos momentos de fluxo da mente que farão as pessoas se "apaixonarem" pela matéria a que estão se dedicando, por isto devemos movimentar o processo de aprendizagem para fazer crer ao receptor que ele é individual e uno com a informação.

O quinto princípio da didática é o da Múltipla Exposição, aqui se envolve "o eterno macaco saltitante" que é a mente humana, sempre dando um novo local onde sua atenção se fixe, sem sair do assunto em questão. Quantos mais centros de memória do cérebro forem impressionados com informações, mais haverá a possibilidade do cérebro classificar aquela informação como prioritária. A correta escolha do material didático e sua disposição, a sequência em que será apresentado, os momentos de sua inserção, são determinantes na aprendizagem.

 

Conclusão

Assim, o conhecimento transita por um caminho bem pautado, propiciando o máximo de apreensão do conhecimento. O ensinamento do mergulho adiciona informação real, auxilia a superar limites e transforma definitivamente o indivíduo, dando uma opção nova e um estilo de vida mais livre, mais forte, que irmana mais o grupo de indivíduos, agora ele aprendeu a se comunicar com sua mente emocional e com seu intelecto.

A civilização salta da Era da Seleção, onde o ensino se apresenta mais como uma forma de dividir quem é provido de habilidade em assimilar aquele assunto daquela forma e quem não é, para a Era da Qualificação através de um ensino, onde por um especial esforço, leva-se a mesma informação a diferentes pessoas, com diferentes interesses e habilidades, elevando assim a própria humanidade, missão nobre e eterna do educador.

 

Referência bibliográfica

CSIKSZENTMIHALYI, Mihaly. A Descoberta do Fluxo: a psicologia do envolvimento com a vida cotidiana. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

Escola Politécnica de Saúde (Org.). Textos de Apoio em Saúde Mental. Rio de Janeiro: Editora FIOCRUZ, 2003.

FONTOURA Frederico. Da Emoção à Didática: a chave na mente. Cabo Frio. Jornal de Sábado, Ano VIII, números 17/18, Maio de 2004.

GARDNER, Howard. Estruturas da Mente: a teoria das inteligências múltiplas. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 1994.

GOLEMAN, Daniel. Inteligência Emocional: a teoria revolucionária que define o que é ser inteligente. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.

 

Frederico Fontoura, é Master Instrutor PDIC (#94.444), Instrutor NAUI (#33.249), Instrutor CMAS (M2-00057), proprietário da escola e operadora de mergulho Tridente Centro de Mergulho em Cabo Frio-RJ e Presidente do Instituto Tridente de Educação e Preservação da Vida.














 
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