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Diabete e Mergulho
AS ORIENTAÇÕES DA Australian Diabetes Society (ADS)
A Australian Diabetes Society adota as seguintes
recomendações estabelecidas em 1994:
- Diabete melito tipo 1 é uma contra-indicação absoluta para o
mergulho autônomo recreativo básico.
- O diabete melito tipo 2 é uma contra indicação relativa ao
mergulho autônomo recreativo básico e a possibilidade de
participar deste nível de certificação deve ser determinada
através de consulta com um médico especialista no cuidado de
pacientes portadores de diabete em conjunto com um especialista de
medicina subaquática.
AS ORIENTAÇÕES DO Comitê Médico da Fédération Française
dÉstudes et de Sports Sous Marins (FFESSM)
A Federação Francesa de Atividades Subaquáticas proibia totalmente
o mergulho para diabéticos. O fato de muitos mergulhadores diabéticos
franceses estarem mergulhando, apesar da proibição, sem revelar sua
condição, faz com que eles mergulhem sem condições satisfatórias de
segurança. Esse fato desencadeou a necessidade de repensar a questão,
como ocorreu em outros países.
Em março de 2004, em Nice, houve um encontro do Comitê Médico da
FFESSM para discutir melhor o assunto mergulho e diabete. Dessa
discussão se encaminhou uma proposta de procedimentos para se mergulhar
com esta condição que posteriormente foi validada num estudo com 15
diabéticos que realizaram 100 mergulhos. O resultado do estudo foi
discutido no comitê nacional da FFESSM e, em outubro de 2004, foi
aceita a proposta com algumas ressalvas.
O estudo original está sob revisão para ser publicado no periódico
Diabetes and Metabolism. Um novo estudo deverá ser encaminhado
para validar um protocolo final. Foi proposto um seguimento a longo
prazo de, pelo menos, cinco anos para melhor documentar este protocolo e
os resultados de adequações que se fizerem necessárias.
Protocolo de Tabah, Lorneau, Bresson, Dufaitre e Thurninger
Os protocolos originais, realizados por esses autores e validados sob
supervisão médica, foram adaptados de modo que diabéticos
tipo 1 possam mergulhar sem monitorização médica e sem prejudicar
o curso de uma operação normal de mergulho embarcado.
Critérios de seleção para que diabéticos tipo 1 sejam
considerados com condições médicas para mergulhar seguindo um
protocolo:
- Ser diabético tipo 1 com, pelo menos, 18 anos de idade.
- Seguimento endocrinológico consistente, mais de três vezes ao
ano, pelo mesmo diabetologista. A educação sobre o diabete deve
ser feita com especial atenção à redução de dose de insulina e
à alimentação durante práticas desportivas.
- Apresentar hemoglobina glicada (HbA1c) menor de 8,5%.
- Automonitorização regular da glicemia mais que quatro vezes ao
dia.
- Não apresentar hipoglicemia ou cetoacidose durante o último ano.
- Boa percepção de hipoglicemia.
- Não presentar macroangiopatia, microangiopatia ou qualquer
alteração degenerativa do diabete.
A avaliação quanto à apresentação dos critérios de seleção é
realizada por um médico especialista no diagnóstico e tratamento do
diabete melito. Esse mesmo profissional que deve ser quem trata o
candidato a mergulhador, vai fornecer um certificado de aptidão ao
mergulho autônomo recreativo. Com a qualificação de aprovado, ele é
referenciado a um médico especializado em medicina do mergulho aprovado
pela FFESSM. O mergulhador, a partir daí, será reavaliado a cada seis
meses por esses profissionais.
O mergulhador portador de diabete tipo 1 somente poderá realizar
mergulhos sob condições restritas. Ele poderá realizar mergulhos:
- Não descompressivos.
- Com profundidade máxima de 20 metros.
- Com duração limitada a 30 minutos.
- Com acompanhamento de instrutor de mergulho.
São proibidos mergulhos em condições ruins como corrente, mar
agitado e temperatura abaixo de 14ºC. Também não se pode mergulhar em
qualquer condição que impossibilite o seguimento do protocolo de
mergulho. Pressupõe-se que mergulhos a partir de barco inflável
impossibilitam o seguimento dos protocolos preestabelecidos nesta
condição.
O protocolo de manejo se baseia em três medidas de glicemias
capilares com glicosímetros portáteis aos 60, 30 e 15 minutos antes do
mergulho.
A medida aos 60 minutos é realizada, preparando-se para embarcar.
Havendo glicemia entre 160 e 200 mg/dl, se devem comer 15 g de
glicídeos. Glicemia maior que 200 mg/dl deve-se medir novamente em 30
minutos. Com glicemias maiores do que 300 mg/dl, deve-se checar a
cetonemia ou cetonúria. Se positiva, o mergulho é cancelado.
A medida aos 30 minutos é realizada quando está preparando o
equipamento. Havendo uma glicemia menor que 160 mg/dl, devem-se comer 30
g de glicídeos. Se a glicemia está entre 160 e 200 mg/dl, devem-se
comer 15 g de glicídeos. Com glicemias maiores que 200 mg/dl, deve-se
medir novamente a glicemia em 15 minutos.
A medida dos 15 aos 5 minutos ocorre imediatamente quando está
entrando na água. Se é menor que 160 mg/dl, deve-se cancelar o
mergulho. Em caso de glicemias entre 160 e 200 mg/dl, devem-se comer 15
g de glicídeos para poder mergulhar. Glicemia maior que 200 mg/dl
proíbe o mergulhador de mergulhar.
Nova medida deve ser realizada após chegar à superfície e embarcar
novamente.
Os tempos são aproximados, pois se sabe que procedimentos rígidos
em relação aos horários de mergulho são difíceis de cumprir. As
glicemias devem ser maiores que 160 mg/dl, estáveis ou aumentando.
Os pesquisadores recomendam uma redução de 30% da dose usual de
insulina um dia antes do mergulho. No dia do mergulho, deve ser
administrada 30 % da dose diária habitual em única tomada. As doses
devem ser ajustadas individualmente em acordo entre diabetologista e
paciente.
Na percepção de um episódio de hipoglicemia, o mergulhador
diabético deve avisar o instrutor através de um sinal específico.
Instrutor e mergulhador cancelam o mergulho e iniciam uma manobra de
subida controlada na velocidade habitualmente indicada por computadores
ou tabelas de mergulho. Não deve ser realizada a parada extra de
segurança aos três metros. A pasta de glicose deve ser administrada
somente na superfície.
OUTRAS CONSIDERAÇÕES
Exigências de um Curso para Certificação de Mergulhadores com
Diabete
Diabéticos que mergulham ou mergulhadores que descobrem ser
diabéticos, antes de tudo, devem demonstrar maturidade para poder
mergulhar de modo seguro. O mergulhador diabético deve entender bem a
sua doença e ser intensamente preparado para o autocuidado,
apresentando glicemias bem controladas. Não somente a operação de
mergulho de mergulhadores diabéticos deve ser diferente, mas também a
sua certificação.
Na realidade, o curso para certificação de mergulho para
diabéticos acaba sendo um programa de ensino, de treinamento
específico sobre o manejo da doença, seu tratamento medicamentoso e
dietético, de desenvolvimento de aptidões de mergulho, de segurança
em mergulho, de exercícios físicos controlados e de aptidão física.
Instrutores e supervisores de mergulho também devem ser orientados
sobre a doença e treinados para reconhecer e tratar sinais e sintomas
de hipo e hiperglicemia. A dupla também deve ser treinada no mesmo
ambiente para que a linguagem e a comunicação sejam a mesma e
igualmente efetivas entre o mergulhadores. Treinamento também deve ser
realizado no sentido de diferenciar os problemas relacionados ao diabete
dos da doença descompressiva.
Um problema comum que o mergulhador diabético poderá acabar
apresentando, é a transferência e aplicação das orientações feitas
a um diabético comum para a condição de mergulho. Sabemos que muito
provavelmente seu médico endocrinologista poderá ter conhecimentos
limitados da fisiologia do mergulho. A medicina do mergulho é um
assunto bastante específico e não faz parte da formação curricular
habitual. Diabete e mergulho ainda mais.
Como a doença tem um controle que pode variar muito e depende da
manutenção do peso ideal, da prática de exercícios, do estresse e do
uso de medicações, o mergulhador diabético deve ser frequentemente
reavaliado. A modificação de esquemas de tratamento por um mergulhador
diabético requer combinação com aquele que o trata.
O mergulhador diabético que opta por mergulhar, deve saber sobre os
efeitos dos exercícios extremos e a necessidade de individualizar o
manejo da sua doença. Além disso, deve ter um adequado preparo
físico, realizar exercícios regularmente, encontrar-se no peso ideal e
seguir dietas saudáveis bem individualizadas. Nesta condição, deve
conhecer também a importância do autocontrole glicêmico e do teste de
cetona.
Pessoas com diabete que pretendem mergulhar e precisam de
medicações para o controle da sua doença, devem receber treinamento
no ajuste da dose de insulina em relação ao exercício. É
fundamental, no processo de formação do mergulhador, a orientação de
um endocrinologista acostumado com a questão do exercício para
diabéticos.
Diabéticos tipo 2 podem apresentar alterações na sensibilidade à
ação da insulina. Nesses, a resistência à ação da insulina pode
ser revertida parcialmente com o exercício. Um programa de exercícios,
alterações qualitativas na dieta e na dose de insulina, mesmo que
temporárias, requerem orientação adequada fornecida por profissional
médico especializado.
Eles também devem receber orientação relacionada à ingestão de
calorias. Para isso é muito importante, no processo de formação do
mergulhador, a orientação de um nutricionista também acostumado com a
questão do exercício para diabéticos.
Essa orientação é fundamental pelo fato de que a quantidade de
energia gasta das fontes energéticas habituais durante o mergulho
ocorre rapidamente e requer mais calorias que o habitual. O mergulhador
necessita de meios rápidos e lentos de liberação de energia que são
encontrados em determinados tipos de alimentos. As formas rápidas
dependem de fontes relacionadas a carboidratos, enquanto as lentas
dependem das relacionadas às proteínas. Nesses casos, a orientação
nutricional específica é fundamental.
Certificação
Habitualmente, em todo o mundo, uma certificação de mergulho é
para sempre. Em relação à do mergulhador com diabete, no mínimo, ela
deve ser constantemente avaliada em função da história natural da sua
doença e das mudanças possíveis do seu estado de saúde. Isso é
importante, pois o diabete pode levar a complicações progressivamente
mais graves em função da história natural desta doença e do seu
tratamento ao longo do tempo. Essas alterações são capazes de mudar
as condições de saúde do mergulhador e o seu desempenho físico pode
ficar incompatível com o mergulho.
Os mergulhadores diabéticos constituem um grupo à parte que requer
atenção especializada, que requer treinamento especializado em bases
individuais. O instrutor, por sua vez, também deve ser treinado
especificamente. Essa certificação envolve um processo educacional
diferente, que deve incluir o conhecimento de detalhes da sua doença e
da necessidade de ter uma disciplina quanto a procedimentos antes,
durante e depois do mergulho.
Sabemos que Indivíduos com deficiências podem ser submetidos ao
mergulho desde que seja minimizado o risco da atividade. Baixo risco
relativo na atividade é obtido através de condições controladas de
mergulho, supervisão e adoção de medidas de segurança adequadas e
inclusão de procedimentos especializados de salvamento e resgate. Uma
postura nesse sentido é muito diferente de uma operação padrão de
mergulho.
Hoje, parece que a posição mais prudente é encarar o mergulhador
diabético como capaz de receber uma certificação seguindo o modelo handicapped
ou do mergulho adaptado e não uma tradicional de mergulho de águas
abertas. Portanto, a certificação deve ter tempo limitado e ser
constantemente reavaliada. Nas reavaliações, deve exigir uma
documentação clínica laboratorial mínima para documentar o estado de
saúde necessário para a atividade. Ressalvamos que muitos
mergulhadores diabéticos, ou portadores de outras doenças, acabam
sendo certificados sem nunca mencionar o problema.
Formação de Instrutores com Diabete Melito
Pode um mergulhador com diabete melito ser instrutor de mergulho ?
A questão deve ser avaliada de dois modos. Um deles é relativo a
mergulhadores diabéticos que quererem se tornar instrutores. Outro é o
de instrutores já formados que acabam descobrindo que são diabéticos.
Parece inevitável que alguns mergulhadores diabéticos queiram
desenvolver habilidades do ensino no mergulho. A posição da maioria
das certificadoras é seguir o Recreational Scuba Training Council
(RSTC). De acordo com os critérios do RSTC, mergulhadores
diabéticos não podem mergulhar e, a partir daí, se conclui que nenhum
mergulhador diabético pode ser instrutor. Nessa situação, o
tratamento é igual ao do mergulho comercial ou militar, nos quais não
há espaço para tratamentos individualizados e condutas condicionais.
Alguns aspectos devem ser considerados para ter claro o tratamento do
assunto. Por exemplo, instrução de mergulho envolve cuidados e
responsabilidades com aquele que está recebendo o aprendizado. Um aluno
em treinamento não apresenta as condições e habilidades necessárias
para resgatar outra pessoa. Além disso, o instrutor apresenta mais
possibilidades de apresentar um episódio hipoglicêmico em função das
exigências da atividade que envolve o considerável grau de
inexperiência do aluno, o número de alunos, de imersões e o aumento
do tempo de mergulho por questões didáticas. Com essas demandas e com
base numa ética de proteção, a liberação para a instrução não
seria uma conduta prudente.
No entanto, no Reino Unido há um tratamento diferente para o
assunto. O United Kingdom Sport Diving Committee
(UKSDC) orienta que os instrutores de mergulho que são diabéticos,
demonstrem que têm condições de evitar hipoglicemias graves e
incapacitantes tanto dentro como fora da água por um período de, pelo
menos, dois anos. Esse comitê também acredita que, se o mergulhador
demonstrou que pode mergulhar com segurança no período de treinamento,
ele pode continuar sua formação até o nível de instrutor. Com essa
posição, o comitê mantém firme o propósito de não permitir que
qualquer mergulhador diabético possa mergulhar, tendo um risco
aumentado de perda de consciência dentro da água por ser diabético.
Ao mesmo tempo, permite a possibilidade de ele vir a ser um instrutor.
Em países desenvolvidos, se discute a questão dos direitos de
pessoas com incapacidades terem acesso a determinadas tarefas inclusive
as relacionadas ao trabalho. Para se realizar alguma proibição, é
necessária uma justificativa consistente. No estado atual das
informações sobre mergulho e diabete, não há condições de
sustentar qualquer posição definitiva em relação ao assunto.
Simplesmente não há evidências de que um mergulhador diabético bem
controlado, sem lesões em órgãos alvo da doença, que não tenha
outra contra-indicação além do simples fato de ser diabético, não
possa ser empregado como instrutor. Por outro lado, a ausência de
evidências não é evidência da solução do problema.
Atualmente há um pequeno número de instrutores de mergulho
diabéticos para gerar qualquer informação consistente sobre este
assunto específico. Entretanto, verifica-se que, mesmo havendo poucos
instrutores diabéticos existentes no Reino Unido, eles apresentam
desempenhos tão bons quanto seus colegas não diabéticos, chegando aos
mais altos padrões dentro do ensino do BSAC. Podemos, então, concluir
que o assunto requer um amadurecimento quanto à análise do problema.
Preparo da Operação de Mergulho
Durante uma operação de mergulho, todos devem estar informados
sobre a condição de realizar uma operação de mergulho de que também
participa um mergulhador diabético. Deve-se informar essa condição
específica de mergulho desde o comandante da embarcação até o
mergulhador iniciante que estiver na embarcação.
A operação de mergulho deve estar organizada para a eventualidade
de ter de tratar algumas complicações decorrentes da alteração da
glicemia. Longe da costa, a embarcação e sua equipe devem ter recursos
materiais e treinamento específico para lidar com uma possível
variedade de complicações no manejo do diabete, que pode ser desde a
hiper ou hipoglicemia até mesmo seus diagnósticos diferenciais em
relação ao mal descompressivo.
Como as hipoglicemias devem ser tratadas prontamente, peculiaridades
devem ser consideradas tanto em relação às causas como em relação
às necessidades relacionadas ao tratamento. É o caso do mareio. Um
mergulhador mareado pode apresentar alguma dificuldade de receber
glicose pela boca. Mareio no início da navegação pode postergar a
ingestão de alimentos e desencadear uma hipoglicemia. Fontes
alternativas de alimentos ricos em glicose devem ser consideradas pelas
equipes. A possibilidade de outras formas de tratamento como o uso de
glucagon também deve ser programada em relação à logística
necessária a sua aplicação.
Para se providenciar insulina numa embarcação, deve ser considerada
a necessidade de refrigeração adequada e de material apropriado para a
sua administração. Além disso, cuidados na administração também
devem ser tomados, como, por exemplo, o de aquecer um mergulhador que
deve receber uma dose no subcutâneo. Injeções subcutâneas apresentam
uma absorção mais lenta em função da vasoconstrição provocada pelo
frio.
A operação de mergulho também deve estar preparada para outras
complicações além da hipoglicemia. Muitas alterações podem ter
ocorrido desde a última avaliação médica em relação ao estado de
saúde do mergulhador, principalmente daqueles com mais idade. Por outro
lado, algumas alterações prévias podem não ter sido diagnosticadas
em função das limitações de métodos diagnósticos no momento da
avaliação.
Entre as complicações, ao longo prazo, do diabete melito,
encontramos a cardiopatia isquêmica. A doença isquêmica cardíaca
está envolvida em aproximadamente 25% das fatalidades do mergulho em
geral e não foi analisada especificamente no grupo de diabéticos.
Portanto, as necessidades de recursos humanos e materiais para se
realizar um atendimento pré-hospitalar que inclua reanimação
cardiopulmonar numa operação de mergulho envolvendo este tipo de
mergulhador, devem ser consideradas.
Além disso, não podemos esquecer que estes mergulhadores têm a sua
possibilidade própria de desenvolver doença descompressiva e
necessitar receber o tratamento pré-hospitalar que se fizer
necessário.
Mergulho com Diabete e Doença Descompressiva
Atualmente não está definido se mergulhadores diabéticos
apresentam um risco maior de apresentar doença descompressiva quando
mergulham. Sendo assim, não sabemos se há a necessidade ou não de
diminuir o tempo de fundo e a profundidade máxima permitida durante
qualquer mergulho. As reduções propostas nos protocolos são
realizadas no sentido de diminuir o gasto energético.
Outro fato não esclarecido é se nesta população os episódios de
doença descompressiva são mais graves. Parece que o diabete não só
predisporia à ocorrência de doença descompressiva, mas também
dificultaria a remoção de bolhas através da recompressão.
Pelo menos em tese, poderia haver alterações microvasculares
precoces nos vasos dos diabéticos que interfeririam na perfusão
tecidual normal e no fluxo de distribuição de gás nos vários
tecidos. Isso seria capaz de favorecer a formação de bolhas
intravasculares.
Outras causas podem também estar envolvidas na possibilidade de uma
maior ocorrência de doença descompressiva no diabético.
Desidratação associada ao próprio diabete decorrente do aumento do
volume urinário, hiperosmolaridade por hiperglicemia, aumento da
viscosidade sanguínea e aumento da tendência trombótica e da
velocidade de agregação plaquetária observada nestes pacientes, pelo
menos em tese, podem aumentar a frequência e a gravidade dessa doença
nos mergulhadores diabéticos.
O Dr. Edmonds sugere, como forma de evitar doença descompressiva no
diabético, a adoção de um plano de mergulho com uma redução de 50%
do tempo de fundo permitido, limitação da profundidade máxima em 15
metros e a adoção de um intervalo de superfície de, no mínimo, 6
horas entre os mergulhos. Teoricamente essas medidas poderiam reduzir
significativamente o risco de doença descompressiva nesta população.
Mergulho com Diabete e Diagnósticos Diferenciais
O mergulhador diabético com complicações agudas pode apresentar
situações de difícil diagnóstico diferencial entre as complicações
relacionadas a sua doença e aquelas relacionadas ao mergulho. Alguns
sintomas de hipo ou hiperglicemia podem ser confundidos com algumas
doenças do mergulho. Mergulhadores diabéticos têm, pelo menos, a
mesma probabilidade de apresentar doenças relacionadas ao mergulho que
os não diabéticos. No caso da doença descompressiva, como foi
colocado anteriormente, acredita-se que o risco possa até mesmo ser
maior.
Um mergulhador diabético inconsciente pode gerar uma confusão no
diagnóstico entre uma complicação como hipo ou hiperglicemia com ceto
acidose e um mal descompressivo que incluiria a doença descompressiva,
a embolia gasosa arterial ou mesmo a síndrome de hiperdistensão
pulmonar.
Os tremores em volta dos lábios e da boca, observados na
hipoglicemia, podem ser confundidos com hiperóxia. Isso seria mais
importante nos mergulhos que utilizam misturas enriquecidas com
oxigênio. A hipoglicemia também aumenta o risco de desenvolver pânico
e mesmo barotrauma pulmonar.
Todas as ocorrências citadas são acompanhadas de risco de vida e
demora em diagnosticá-las aumenta esse risco. A confusão diagnóstica
em relação ao mal descompressivo pode resultar em demora em
recompressão.
É importante definir, antes da liberação para poder realizar um
curso de mergulho ou poder continuar mergulhando, se há ou não
neuropatia periférica. Como a neuropatia pode apresentar sinais e
sintomas relacionados à doença descompressiva, a sua não
identificação prévia pode provocar dificuldades em termos de
diagnóstico diferencial. Sua exclusão antes do mergulho facilita o
diagnóstico de doença descompressiva grave. A constatação
contra-indica o mergulho. Cabe salientar que a neuropatia pode tornar-se
manifesta no período entre duas avaliações médicas. Isso poderia
dificultar um diagnóstico diferencial, caso ocorra uma doença
descompressiva. Isso reforça a necessidade de avaliar estes
mergulhadores periodicamente para poder manter sua certificação de
mergulhadores autônomos.
Diabete Agravando Intercorrências Relacionadas ao Mergulho
Existe uma série de alterações relacionadas com o mergulho que
apresentam uma evolução ou comportamento diferente quando o
mergulhador é diabético. Parece que o diabete melito agrava a
hipotermia, a narcose, a toxicidade pelo oxigênio e favorece a
ansiedade e o pânico.
Alterações associadas ao diabete predispõe ao mareio e dificultam
o seu tratamento. A ansiedade e o enjôo, que ocorrem no mareio, reduzem
a eficiência da absorção no tubo digestivo dos carboidratos
ingeridos. Medicações administradas pela boca para o tratamento do
mareio podem não ser absorvidas devido aos vômitos, tornando-se
ineficazes.
Hiperbarismo e Glicemia
Como vimos anteriormente, dentro dos limites de pressão ambiente do
mergulho recreativo, a pressão sobre o mergulhador normal, sem diabete,
não altera o nível de glicose sanguínea.
De um ponto de vista genérico, não nos podemos esquecer de analisar
o problema relativo à oxigenioterapia hiperbárica e diabete.
Diabéticos poderão ser tratados por oxigenioterapia hiperbárica por
várias indicações. Entre elas, há o tratamento de feridas crônicas
que não cicatrizam, infecções de partes moles e osteomielite
crônica. As variações dos níveis de glicemia que ocorrem, são
importantes durante os tratamentos em câmaras hiperbáricas.
Durante as sessões de tratamento de pacientes diabéticos em câmara
hiperbárica, a glicemia pode ficar instável e episódios de
hiperglicemia são registrados com frequência. Os episódios de
hipoglicemia são de rápida instalação e podem estar relacionados a
um aumento de sensibilidade à insulina ou a uma redução dos níveis
de glucagon plasmáticos. Isso é frequentemente observado mesmo em
pacientes previamente bem controlados.
Glicosímetros utilizados dentro de câmaras hiperbáricas fornecem
uma leitura falsamente elevada em relação à glicemia real. A pressão
parcial de oxigênio aumentada pela pressão ambiente interferiria no
funcionamento dos glicosímetros. Esses aparelhos operam com leituras
através de reações da glicose oxidase da tira reagente. O oxigênio
hiperbárico interfere na reação dessa enzima durante o procedimento
de leitura do aparelho, gerando valores maiores de glicemia durante a
sua leitura. Nesses casos, o paciente pode estar hipoglicêmico e o
equipamento evidenciar uma glicemia normal ou elevada.
A questão do efeito do mergulho sobre a glicemia do mergulhador
diabético é um assunto diferente. No mergulho, não há somente o
efeito da pressão sobre a glicemia, mas também os efeitos térmicos e
do esforço físico com o exercício realizado durante o mergulho. Isso
tudo ocorre em relação a uma dose fixa de insulina. Essas questões
geram a necessidade de estudos específicos em relação ao controle
glicêmico durante o mergulho.
Mergulho e Insulina
Um dos questionamentos fundamentais relacionados à discussão do
tema é se o aumento da pressão ambiente ou se o aumento da pressão
parcial do oxigênio afeta a absorção e a biodisponibilidade das
drogas utilizadas no tratamento do diabete melito.
Há também a preocupação em relação aos efeitos da pressão
sobre as injeções de depósitos de insulina de longa duração.
Estudos realizados em câmara hiperbárica e mesmo fora dela não
evidenciam alterações em relação à biodisponibilidade da insulina
injetada.
Mergulho e Antidiabéticos Orais
As sulfanilureias (glipizida, glibenclamida, clorpropramina e
tolbutamida) estimulam a secreção de insulina. Elas podem interagir
com muitas medicações que baixam a glicemia. Mergulhadores que
utilizam essas medicações, devem ser avaliados cuidadosamente para
poderem ser liberados ao mergulho.
Mergulhadores que tomam hipoglicemiantes orais como as sulfonamidas e
meglitinidas apresentam risco significativo para desenvolver
hipoglicemia embaixo da água. Nesses casos, há a necessidade de uma
avaliação cuidadosa relacionada principalmente em função das
habilidades de mergulhador e de outros aspectos de sua saúde para que
ele não seja proibido de mergulhar.
Aqueles mergulhadores diabéticos tipo 2 bem compensados que utilizam
drogas hipoglicemiantes como biguanidas, tiazolidinedionas e inibidores
da alfa glucosidase ou mesmo somente dieta, são considerados como
capazes de mergulhar com segurança.
As meglitinidas (repaglinida e nateglinida) são drogas que estimulam
a secreção de insulina e apresentam um tempo de ação curta e são
tomadas antes das refeições. Essas medicações também parecem
apresentar uma relativa segurança de uso no mergulho.
Inibidores da alfa-glucosidase (ascarbose e miglitol) são usados
para diminuir a velocidade de absorção em conjunto com outras
medicações. Essas medicações, se não usadas juntamente com outros
hipoglicemiantes, raramente causam hipoglicemia.
As biguanidas (metformim) diminuem o débito de glicose no fígado e
agem como um sensibilizador à ação da insulina. Elas podem causar
problemas gastrintestinais autolimitados em indivíduos com doença
renal, hepática e cardíaca. Nos que usam metformin e que apresentam
fatores associados que diminuem a eliminação da droga, como, por
exemplo, a insuficiência renal, existe um risco pequeno de o
mergulhador apresentar acidose lática. Essas complicações, ao longo
prazo, do estado de saúde do mergulhador já são suficientes para que
o mergulho seja proibido.
As tiazolidinedionas (pioglitazona e rosiglitazona) promovem síntese
de insulina e raramente produzem hipoglicemia, a menos que usadas com
insulina e outros agentes de ação hipoglicemiante. No caso do uso
dessas medicações associadas, a liberação deve ser muito bem
estudada e a tendência é não liberar ao mergulho.
Mergulho e Bombas de Infusão de Insulina
Ainda não há uma experiência consolidada em relação ao uso de
bombas de liberação de insulina no subcutâneo durante o mergulho.
Cuidados devem ser estabelecidos em relação à possibilidade de
infecção no cateter implantado em função da contaminação na água.
Cabe lembrar que esse equipamento não foi projetado para operar embaixo
da água. Isso nos remete para outro problema que é a possibilidade de
erros de infusão em função do funcionamento em ambiente pressurizado.
Outra possibilidade de problema é o deslocamento do cateter em função
de movimentação ou mesmo uso de roupa de mergulho apertada.
Sinalização Embaixo da Água e Diabete
A hipoglicemia é sinalizada sob a água através da mão e L,
ficando o polegar perpendicular ao indicador.
Questões Éticas
O tratamento da questão de o mergulhador diabético poder mergulhar
ou não nos leva a refletir sobre questões éticas que envolvem estados
de saúde e o mergulho recreativo. Generalização é difícil quando se
trata de um tema tão específico.
O maior motivo para proibir o mergulho para o diabético é o risco
de uma hipoglicemia ocorrer numa situação na qual o tratamento pode
acabar sendo postergado, levando a outro risco que é a sequência:
perda da consciência, afogamento e morte do mergulhador. Outra
consideração a ser feita é sobre as condições de saúde do portador
de uma doença que pode acarretar dano aos órgãos alvo.
Muitas doenças são incompatíveis com o mergulho de modo que o
risco é tanto que as consequências da exposição são claras em
termos de desfecho. Os conhecimentos dos efeitos do mergulho em
relação ao diabete e da capacidade do mergulhador com diabete
mergulhar com segurança são limitados. Talvez o maior dilema na
questão do diabete e mergulho seja o fato de que as complicações
agudas podem ser controladas, enquanto as crônicas são avaliáveis do
ponto de vista do impacto sobre alguns órgãos alvo cujo desempenho é
fundamental durante o mergulho.
Na última década, ocorreram muitos avanços no tratamento do
diabete melito. Atualmente dispomos de medidores portáteis da glicemia
que permitem a medida rápida e acurada da glicose sanguínea,
possibilitando ajustes terapêuticos. Por outro lado, também temos
disponível insulina de ação rápida em apresentações farmacêuticas
de fácil uso. Além disso, já estão disponíveis para uso
apresentações de glicose oral que facilitam a sua administração.
São tubos deformáveis com bico para se colocar na boca, que podem ser
utilizados até mesmo embaixo da água com o uso concomitante do segundo
estágio do regulador de mergulho.
De outro modo, as melhorias técnicas do esporte, a redução de
custos da operação de mergulho, o processo de certificação e a
formação de grupos de mergulhadores com identidades próprias
expandiram a prática da atividade para um grande número de pessoas.
Atualmente vivemos numa época em que está bem reconhecido o mergulho
como atividade recreativa. Avanços como a adoção do colete
equilibrador e de computadores de mergulho melhoraram as condições de
segurança do mergulho. Além disso, a análise dos perfis de mergulho
da grande maioria de mergulhadores recreativos revelou que a maioria dos
mergulhos ocorre em profundidades menores do que trinta metros e com boa
margem de segurança.
É indiscutível que existe um risco aumentado em mergulhar, sendo
diabético. O diabético que opta por mergulhar, deve reconhecer todos
os problemas envolvidos com sua decisão e a sua capacidade de aceitar
os riscos. Ele deve também ter consciência de que o controle da sua
doença muda ao longo do dia e as complicações dela também mudam ao
longo dos meses ou anos. Por tudo isso, ele deve mergulhar com um grau
de cautela bem maior que um mergulhador não diabético. Esses fatores
também têm repercussão no tipo de certificação que receberá.
Além disso, este mergulhador deve ser consciente de que está
realizando uma atividade de lazer que é socializante e que envolve
outras pessoas que exercem seus papéis sociais e têm suas
responsabilidades específicas. Por ser uma atividade social de lazer,
deve-se refletir sobre os limites de responsabilidade do praticante, os
direitos de quem mergulha com ele e as responsabilidades dos outros
durante uma operação de mergulho que envolve um grupo de
mergulhadores.
Para podermos refletir sobre o aspecto moral de o mergulhador
diabético poder mergulhar e que a comunidade de mergulhadores aceite o
fato de ele querer mergulhar, devemos primeiramente posicionar-nos em
relação a qual ética adotaremos.
Baseando-se numa ética de proteção, contrária à defesa de
paradigmas comerciais, empresariais e técnico-científicos, devemos
considerar alguns fatos. O primeiro é que muitos diabéticos têm
mergulhado sem problemas e gostariam de continuar mergulhando, porém
com o apoio das entidades organizadas relacionadas ao mergulho. Não
podemos simplesmente ignorar esta subpopulação de mergulhadores. Em
segundo lugar, parece que eles não apresentam mais acidentes que a
população de mergulhadores em geral. Mergulhadores são treinados
justamente para não se acidentarem. No entanto, devemos ter muito
cuidado, pois os dados de uma população não necessariamente
representam a realidade de um indivíduo.
Analisando o problema, baseando-nos numa ética principialista,
garantindo o princípio da autonomia, muito importante em certas
culturas, o diabético deveria ter o direito de mergulhar, podendo ser
treinado para isso, caso ele quisesse.
Por outro lado, perguntamo-nos: Seria adequado expor todos os
envolvidos numa operação de mergulho, incluindo seu dupla, aos riscos?
O benefício da inclusão do diabético sob o ponto de vista da
socialização, da melhora da auto-estima e da interação saudável com
o meio ambiente superaria os riscos inerentes à atividade ? Por uma
questão de justiça, talvez não.
Aqueles que defendem o mergulho recreativo para ser realizado por
diabéticos, são pessoas entusiastas, que têm uma atitude contra
preconceitos, que defendem o direito de não proibição da prática de
uma atividade de lazer. Essa atitude não se baseia num conjunto
definitivo de dados baseados em evidências que sustentem a posição.
Por outro lado, riscos teóricos devem ser considerados verdadeiros
sem uma análise de campo? Seria ético encaminhar uma pesquisa aberta
reproduzindo o modo habitual que estes mergulhadores vêm praticando sem
a possível intervenção de agentes de saúde durante a observação? A
questão simplesmente parece ir além das evidências médicas atuais.
Cada vez mais, na sociedade ocidental, presenciamos ações tentando
garantir o direito ao acesso a certas atividades por pessoas que
apresentam certas incapacidades. Leis frequentemente são criadas no
sentido de remover barreiras e garantir o acesso de todos a certas
atividades. Cada vez mais se fazem necessárias evidências claras e
consistentes para justificar uma medida proibitiva dirigida a essas
pessoas. Há quem coloque que o problema é rico em dogmas, porém sem
dados objetivos para responder a algumas questões.
Também devemos ser questionadores e perguntar se outros interesses
existem. Vivemos uma cultura em que, muitas vezes, alguns
posicionamentos não são claros e, numa primeira visão, parecem ricos
em sentimentos filantrópicos protegendo o interesse do mergulhador
diabético, do mergulho e da pesquisa em mergulho. Isso diz respeito,
principalmente, à proteção de mercados que envolvem paradigmas
técnico-científicos ou mesmo comerciais, empresariais e que têm
relação com o consumo de produtos e serviços.
Não podemos negar que mergulho envolve mercados e produtos. Parece
claro que, nessa questão, ainda não há um posicionamento definitivo
de entidades governamentais envolvidas com a segurança do mergulho. A
liberação para o mergulho na forma de implementação de programas
específicos por certificadoras também não é uma unanimidade. Apenas
alguns grupos de mergulhadores afetados pela doença se envolvem com a
questão.
Havendo um risco de vida, mesmo que mínimo, deveríamos proteger o
diabético, respeitando o princípio de não produzirmos danos ? Havendo
acidentes graves, seria justo a comunidade do mergulho e a sociedade em
geral dividirem o ônus global que eles acarretariam ?
Mergulhadores com diabete têm o risco de apresentar hipoglicemia e
esta levar ao afogamento e à morte. Devemos aceitar que as atitudes
preventivas não são 100% efetivas e que o tratamento daqueles que
apresentam complicações, requer conhecimento e habilidades de quem
trata. A hipoglicemia pode incluir perda de consciência e convulsões e
pode ser fatal embaixo da água e não há como predizer o risco
absoluto ou valores de início de glicemia para a sua ocorrência num
indivíduo ou num determinado mergulho.
Devemos relevar com cautela a afirmativa de que o mergulhador
diabético não apresenta mais risco que o mergulhador normal. As
análises estatísticas de risco abordam a população global de
mergulhadores e não a agrupa por doenças, nem separa normais de não
normais. Se fosse indubitável a afirmativa, perguntaríamos por que,
então, precauções importantes devem ser tomadas quando mergulhadores
com diabete mergulham ?
Além disso, o sistema de duplas é baseado na confiança mútua. Os
mergulhadores devem ser capazes de dar pronto e adequado suporte ao
companheiro de mergulho, se for necessário. Não é isso que se
estabelece quando um dos mergulhadores está potencialmente incapacitado
por uma condição médica prévia. Entretanto, atualmente já não
haveria um outro problema prévio que antecede essa questão? Hoje o que
se observa, é que, na prática, quando participamos de uma operação
de mergulho, existe uma grande quantidade de mergulhadores, que pode ser
uma maioria que ainda está em processo de formação e apresenta
limitada experiência de mergulho. Numa operação de mergulho, esses
mergulhadores apresentariam impossibilidade técnica para ser dupla de
alguém.
Outro aspecto a considerar é a dificuldade de diagnosticar alguma
alteração e realizar o devido diagnóstico diferencial, caso o
mergulhador acidentado se encontre inconsciente. Uma operação de
mergulho com este tipo de mergulhador nunca é uma operação habitual.
Nem o são as medidas de segurança que são necessárias, que incluem
recursos materiais, treinamento, habilidades e acertos prévios com
serviços de resgate e tratamento avançado para o mergulhador
acidentado.
Todas essas posições acabam se refletindo no tipo de certificação
do mergulhador. Se o mergulho realizado pelo mergulhador diabético é
tido como normal e que tem ocorrido sem maiores problemas, então ele
também pode receber uma certificação normal. No entanto, o
mergulhador diabético deve perceber que somente indivíduos
selecionados podem ser permitidos a mergulhar sob condições
específicas e que a certificação deve ser diferente, do tipo mergulho
adaptado, com prazo de validade e com a necessidade de reavaliações
frequentes.
Se o mergulhador diabético não corre mais riscos que o esperado de
acordo com as últimas análises da população diabética que mergulha,
então não há por que seguir qualquer precaução. Ou isso acontece
por que seguem precauções? Se devem seguir precauções para poderem
realizar a mesma tarefa, então não são semelhantes as tarefas. Logo,
isso tudo justificaria uma certificação do tipo mergulho adaptado.
Da sociedade podemos retirar alguns exemplos para o mesmo problema.
Muitos usam a aprovação da capacidade de dirigir automóveis liberada
aos diabéticos como um argumento para que eles possam mergulhar. No
entanto, alguns estudos demonstram que motoristas diabéticos apresentam
um desempenho alterado para dirigir veículos quando suas glicemias se
encontram entre 70 e 60 mg/dl, podendo acarretar graves acidentes. Eles
não param de dirigir e somente começam a se tratar quando suas
glicemias chegam a níveis tão baixos quanto 50 mg/dl. As capacidades
de mergulhar e de dirigir englobam diferentes demandas em relação aos
dois ambientes. Independentemente disso, há registros de fatalidades
envolvendo motoristas diabéticos, passageiros no mesmo veículo e
transeuntes nas vias públicas.
A ética acaba sendo a reflexão da moral e torna-se plural à medida
que cada sociedade tem seu conjunto de valores. Isso faz com que muitas
questões sejam analisadas de maneira diferente e as opções tomadas
por cultura acabam sendo orientadas por suas visões peculiares em
relação ao problema. Por isso encontramos posicionamentos diferentes
de cultura para cultura.
Atualmente na comunidade britânica de mergulhadores e entidades
afins envolvidas com segurança do mergulho, acabamos percebendo uma
orientação no sentido de quebra de preconceitos em relação ao
portador de diabete e de oportunizar as atividades para todos. A
constatação de que os diabéticos já estão mergulhando e que não se
pode negar o acesso a este grupo de indivíduos à estrutura de apoio ao
mergulhador, acabou gerando um posicionamento claro, mesmo sendo criados
critérios restritivos. É uma posição socialmente orientada, que
oportuniza a possibilidade de se mergulhar ao mesmo tempo em que se
tornou antidogmática.
Já na cultura norte-americana, observamos um posicionamento
relacionado ao respeito à opção de o mergulhador individualmente
querer mergulhar. Nessa abordagem, primeiro se avaliou se este tipo de
mergulhador poderia mergulhar e em quais condições. A partir daí, a
sociedade se organiza para criar as condições para o mergulhador
diabético poder mergulhar através de grupos de trabalho específicos.
Identifica a diferença e se oportuniza a possibilidade de mergulhar, em
bases individuais, numa estrutura de grupo específica com identidade na
doença para esse fim e, de certa forma, afastado do mergulhador comum.
Os casos são analisados em bases individuais e encaminhados a grupos de
ensino específicos. Há notícias de que estão sendo encaminhados
protocolos oficiais de mergulho nessa condição pelo Diabetes and
Diving Committee of the Council on Exercise of the American Diabetes
Association.
A cultura australiana e suas áreas de influência têm uma posição
contrária à liberação irrestrita. Nada justificaria a exposição,
havendo o mínimo risco de fatalidade. Seria o respeito ao princípio de
justiça em proteger todos os envolvidos numa operação de mergulho
além do diabético. Além disso, preconiza a proteção específica do
próprio mergulhador, em que o risco não justificaria o benefício de
mergulhar. Provavelmente essa posição decorra do enorme fluxo de
mergulhadores para uma região privilegiada do globo. A posição é
coerente com um local onde há uma grande população de mergulhadores e
limitados recursos de mergulho relacionados à estrutura necessária à
operação de mergulho, aos tratamentos dos acidentes e da capacidade
ambiental de receber tantos mergulhadores.
Em relação ao mergulhador brasileiro, não podemos dizer que existe
um posicionamento da comunidade médica. O Brasil está construindo a
sua cultura de mergulho. É uma cultura que habitualmente importa
modelos e que é suscetível a paradigmas comerciais, empresariais e
técnico-científicos. Acreditamos que, à medida que houver uma demanda
em relação a este problema, a comunidade de mergulhadores se
organizará para construir o próprio modelo de assistência a este tipo
de mergulhador.
CONCLUSÕES
Analisando o tema, percebemos que a revisão do assunto pode ser
muito reveladora em relação aos problemas relacionados à saúde do
mergulhador em geral e aos aspectos éticos envolvidos com o mergulho. O
assunto é complexo e justifica uma revisão detalhada.
Atualmente não é recomendado o mergulho para mergulhadores com esta
doença, entretanto há muitos mergulhadores diabéticos mergulhando.
Não há uma unanimidade em relação à proibição. Avanços na
medicina e na própria técnica do mergulho têm permitido que
diabéticos evitem muitos riscos ao mergulhar que antes não podiam ser
resolvidos.
Novas técnicas de controle da glicemia, métodos diagnósticos
precoces para avaliar lesões importantes em órgãos alvo de interesse
ao mergulho e uma boa avaliação medica têm fornecido a base para que
muitos diabéticos possam mergulhar. A partir da informação
disponível, podemos concluir que alguns mergulhadores que apresentam
diabete, podem mergulhar.
As ressalvas envolvem a necessidade de uma seleção prévia daquele
que pode mergulhar, reavaliação periódica clínico laboratorial,
instrução e treinamento específico. A certificação deverá ser
especial e com limite de tempo de validade. A operação de mergulho
deve ser uma operação específica que exige medidas de segurança e o
uso de um sistema de mergulho em duplas onde o dupla deve estar motivado
e tão bem treinado quanto o mergulhador diabético a respeito da
doença, do seu tratamento e complicações. Ou seja, protocolos
específicos devem ser seguidos.
O mergulho não é recomendado àqueles que usam qualquer medicação
capaz de produzir hipoglicemia. Os mergulhadores diabéticos bem
motivados, com bom entendimento e controle adequado e sem complicações
em órgãos alvo da doença, ou seja, aqueles que não apresentam
comprometimento secundário da doença nos olhos, nos rins, no aparelho
cardiovascular e sobre o sistema nervoso central, além de outras
condições, podem mergulhar.
O mergulhador diabético não pode ter história recente de
hipoglicemia em repouso, durante o exercício, noturna ou aquela que se
apresenta sem sintomas associados. Ele também deve conhecer os efeitos
do exercício sobre a glicemia antes de iniciar a mergulhar.
Cuidados devem ser tomados para evitar não somente a hipoglicemia
antes e depois do mergulho, mas também a hiperglicemia. A necessidade
de insulina pode variar muito com as demandas do exercício durante o
mergulho. Redução do uso de insulina deve ser realizada conforme
indicação em função da resposta individual ao exercício. Mudanças
do esquema de tratamento somente devem ser realizadas em condições
controladas de treinamento e sob supervisão técnico-científica
especializada.
Estes mergulhadores, adotando um protocolo específico, fácil de
seguir, podem realizar mergulhos não complicados por fatores
ambientais, ou seja, sem extremos de temperatura, correnteza e efeitos
de ondas. Eles também devem seguir condições controladas de mergulho
com baixo risco descompressivo. O mergulhador diabético deve estar
consciente dos riscos que corre, mergulhando com esta condição.
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Renúncia
Nenhuma representação neste texto é feita no sentido de oferecer
um diagnóstico, tratamento ou cura para qualquer condição ou doença
relatada. O caráter do texto é somente informativo e deve ser usado em
conjunto com o aconselhamento específico do médico de medicina do
mergulho. O autor não é responsável por qualquer consequência
concebível relacionada à leitura deste texto.
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