|
Mergulho: Implicações (Antropológicas e Psicológicas) na escolha da
modalidade
Introdução
A maioria dos mergulhadores com quem convivo afirma que o que procuramos
nessa atividade que envolve riscos controlados (perigos imaginários e reais),
é a auto superação, a auto realização.
Outros correlacionam o desejo do mergulho com o mesmo motivo que levam
praticantes de outras modalidades a entrarem em carros de corrida, saltarem de
pára-quedas, ou praticarem qualquer outro esporte de aventura.
Poucos acreditam que mergulhamos em busca de nós mesmos...
Segundo Le Breton: "Através da busca dos limites, o indivíduo procura
suas marcas, testa aquilo que ele é, aprende a se conhecer, a se diferenciar
dos outros, a dar novamente algum valor a sua existência".
Segundo Lucena (2005) é "... a natureza do ser humano que explica esse
comportamento. No fundo, apesar de todo o processo de civilização, o homem é
um animal e precisa dar vazão a sensações e atitudes instintivas de alegria e
violência que na sociedade de hoje só costumam ser bem-vistas no
esporte."
Para este autor," passamos grande parte do tempo reprimindo reações
instintivas, sublimando desafios ou simplesmente sendo submetidos a situações
de tédio, quando não de medo na nossa sociedade contemporânea".
Uma visão Antropológica
A antropologia tem boas explicações para essa espécie de atração pelo
abismo que anima tanto mergulhador a ir buscar mergulhos cada vez mais profundos
ou mais complexos.
A sensação de risco, quando combinada com a tecnologia da segurança,
ressuscita, sem o mesmo perigo, rituais de passagem que milênios atrás
simbolizavam a aproximação do homem com o sagrado, com a imortalidade dos
deuses.
Esse é o princípio que rege qualquer esporte de aventura.
"Desde Ulisses, o herói da Odisséia, de Homero, escrita no século VI
antes de Cristo, o homem se encanta com a figura do herói que passa por
provações e desafios para se tornar uma pessoa melhor.
Na lenda do rei Artur por exemplo, um grupo de cavaleiros procurava um
cálice sagrado que poderia ser o significado da existência humana".
Melhor do que ser espectador e ficar lendo histórias ou vendo filmes de
ação é a possibilidade de agir, participando de aventuras de verdade e
terminá - las com a sensação de ter vencido o medo.
Segundo Souza, "O homem precisa desde sempre sentir que pode vencer os
limites que o mundo impõe".
O mecanismo dessas sensações é bioquímico. Em situações de stress, o
corpo produz catecolaminas. São diversos hormônios disparados a partir de uma
situação que exige mecanismos de adaptação.
A hipófise uma vez estimulada, dispara o ACTH e a partir dele as supra
renais são estimuladas. Delas parte a adrenalina que acelera a frequência
respiratória e cardíaca, aguça os sentidos e melhora o rendimento muscular.
Para Mercadante "Nas sociedades primitivas, o corpo passava por momentos
de alta produção dessas substâncias com frequência".
Jeolás (1999) afirma que "os rituais de passagem eram celebrados com
maior intensidade até o primeiro quarto do século passado, demarcando com
maior nitidez a passagem entre a infância e a vida adulta".
Segundo o autor, "diversos rituais significavam simbolicamente a
passagem de uma fase do desenvolvimento da vida para a seguinte, capacitavam os
jovens para assimilarem demandas, habilidades e responsabilidades distintas
daquelas que caracterizavam a sua vida até então".
Jeolás afirma que "estes rituais preparavam melhor os indivíduos para
enfrentar as mudanças, os medos e ansiedades diante de uma nova etapa da
vida."
No entanto, "ao voltar-se para as sociedades atuais, observa-se que
estes ritos de passagem estão menos visíveis, mais empobrecidos e raros em
nosso meio cultural, o que acaba por produzir incertezas e inseguranças nos
jovens quando deparam-se com momentos de importantes mudanças diante da
passagem de um momento da vida a outro".
"Na sociedade contemporânea, os rituais que se fazem presentes não se
embasam na tradição; as gerações atuais vêm perdendo cada vez mais o
contato com as de seus antecedentes e, com isto, importantes valores de
formação, informação e autoridade deixam de ser transmitidos às gerações
futuras".
Hoje nenhum rito "proporciona referenciais e valores estáveis e
unívocos" (Jeolás, 1999: 193).
Assim, diante do enfraquecimento dos ritos tradicionais capazes de amenizar
conflitos, medos e ansiedades que se fazem presentes no momento de transição,
observa-se, segundo Jeolás apud Douglas (1999), uma "potencialização dos
riscos vivenciados".
Partindo de uma construção sócio histórica, Yunes & Szymanski (2001)
afirmam que "riscos sempre fizeram parte da nossa sociedade em qualquer
tempo e lugar". No entanto, o termo assume diferentes significados de
acordo com a construção social que lhe é feita.
Em muitas situações, "os riscos aparecem de modo mais planejado, mais
calculado". Estas atividades de riscos voluntários podem ser observadas
através dos esportes de aventura.
Ao cotejar Le Breton, Paulilo (1998) afirma ainda que "estes riscos
fazem ressurgir os antigos rituais ordálicos, em que a morte seria a busca
extrema do limite humano, deixando, no entanto, uma possibilidade de escape.
Neste sentido, a aproximação ao risco presente coloca-os diante de um contato
mais próximo com a morte."
Assim, as pessoas modernas que entram em situações de risco por vontade
própria estão manifestando certa saudade bioquímica e psicológica do passado
remoto.
Mergulhando, estamos de certa forma, conversando com nossos ancestrais no
inconsciente.
"Depois de cada mergulho, a pessoa se senta e fica calada, observando o
obstáculo, com a sensação de que vencê-lo tornou sua vida mais
valiosa".
Praticamente todas as culturas têm rituais que simulam o enfrentamento da
morte, num processo para valorizar a vida.
Ao vencer o medo de mergulhar, a pessoa aprende a lidar de uma certa forma
também com angústias da vida contemporânea – como o medo da violência
urbana.
Concordamos com Figueiredo que diz que "No esporte, o praticante vence
diretamente esse medo, enquanto no dia-a-dia ele jamais vai se sentir triunfante
só porque conseguiu chegar em casa, mais uma vez, sem ter sido assaltado ou
sequestrado".
Podemos dizer que nos séculos passados existia um significado maior em
vivenciar mais desafios e correr mais riscos.
Viajar era sinônimo de quilômetros à cavalo ou navegações por
imensidões oceânicas desconhecidas. Para alimentar-se o homem precisava
caçar.
Terras distantes eram desbravadas por pioneiros e exploradores.
Hoje praticamente não há o que desbravar. Hoje os novos aventureiros
praticam os esportes de aventura.
A tecnologia esportiva possibilitou a qualquer um com uma saúde adequada
viver uma experiência submarina.
Temos à disposição, por um lado um nível altíssimo de segurança e de
outro, facilidades para chegar a regiões anteriormente isoladas, lindas e
parasidíacas.
Os dois aspectos citados combinaram - se para ajudar na popularização do
mergulho recreativo.
Não é à toa que o mergulho se tornou aposta promissora do turismo em nosso
planeta.
Uma visão Psicológica
A psicanálise freudiana diz que a atração pelos esportes de aventura, e
entre eles o mergulho, tem relação estreita com o complexo de Édipo: ou seja,
o desejo inconsciente de seduzir e conquistar a própria mãe. Correr mais
rápido e mais longe, mergulhar mais fundo, voar mais alto: toda essa gana de
bater recordes nada mais representaria do que o desejo inconsciente de tornar-se
"o filho predileto".
O psicanalista austríaco Heinz Kohut avança dentro do enfoque edipiano ao
dizer que, extirpado do ventre fofo de sua mãe, "o futuro praticante de
esporte de aventura desenvolve, para superar seus sentimentos de abandono e de
impotência, uma hipertrofia do ego que o leva a confirmar sem cessar que ele é
um ser excepcional e maravilhoso".
A prática do esporte de aventura seria, para Kohut, uma forma de
"exprimir corporalmente uma carência afetiva que vem desde a infância,
uma ferida no sentimento de seu valor pessoal".
O praticante de aventuras procura agradar a qualquer preço, para preencher o
vazio que o habita. Terapeutas buscam explicações para essa atitude
continuamente.
Marc Mouly, especialista em psicologia das condições extremas, reafirma, em
primeiro lugar, o caráter edipiano dos praticantes de esportes de aventura:
"Como crianças em pleno complexo de Édipo, eles não renunciam a
conquistar a mãe e, para além dela, a conquistar o mundo".
Confrontados a abordagens desse tipo, os mergulhadores reagem aos
psicanalistas que ousam denegrir o brilho da atividade.
Eu particularmente penso que a experiência objetiva e corporal do mergulho
corresponde a uma outra, subjetiva e anímica, que ocorre inteiramente no
espaço e no tempo interiores do mergulhador. Uma experiência espiritual,
portanto. Como vivência - limite, a experiência do esporte de aventura
interessa a quase todas as áreas das ciências humanas. A neurobiologia, por
exemplo, desenvolve posições interessantes a respeito dela. Para esse ramo das
ciências biológicas, o prazer seria o verdadeiro objeto da busca dos
mergulhadores.
A questão que deve ser levada em consideração, no entanto, quando se fala
de prazer, é que em nosso cérebro essa sensação está indissoluvelmente
ligada às estruturas nervosas, responsáveis também pelo processo interno da
dor e do sofrimento.
Como explica o neurobiologista Jean-Didier Vincent, um corredor de maratona,
por exemplo, começará por experimentar um estado de dor que, pouco a pouco,
poderá se transformar num nirvana prazeroso graças à grande produção de
endorfinas que ocorre devido ao esforço da corrida.
No mergulho por sua vez, passamos por um estado inicial de medo, que será
conjurado para que reencontremos o prazer intenso voltar, renascer. O risco
desse processo é o surgimento de um verdadeiro estado de dependência: a
relação infernal prazer- aversão instala-se no corpo e na psique daquele que
busca o prazer. E passamos a ter dificuldade de viver sem ela. Costumamos
inclusive dizer, falta de nitrogênio.
Todos nós sabemos que no código genético do ser humano está escrito que,
em situações de stress, as opções são reagir fugindo ou lutando.
Em contrapartida, o nosso código de conduta social, nosso superego, acaba
sobrepondo - se às reações instintivas fazendo vigorar o famoso e cotidiano
engolimento de sapos.
Assim sendo, a maioria das pessoas vai acumulando um sem número de
frustrações durante a vida e tentando combater esse distress (stress negativo)
com horas de treinamento nas academias, assistindo (e xingando) uma partida de
futebol ou na pior das hipóteses, sentado vendo uma novela.
Para quem não tem como fugir ou está impossibilitado em partir para
porrada, existem outras possibilidades e entre elas, os esportes de aventura, a
tradução mais efetiva da necessidade que muitos têm de vivenciar o eustress (
stress positivo).
Os esportes de aventura servem como uma válvula de escape para essas
tensões em atividades que, mesmo quando envolvendo fatores de risco, são
feitas sob alto nível de controle.
Com isso, chega-se a uma combinação quase sempre perfeita: um certo risco
com baixa incidência de acidentes, permitindo assim doses homeopáticas de
eustress num patamar estatisticamente seguro.
"Segundo Bracht (2005) "Compra-se muita emoção e sensação de
perigo, com a promessa do prazer imediato, mas no fundo acredita - se que nada
pode dar errado."
Tanto para profissionais como para mergulhadores esporádicos, mais perigoso
que o mergulho em si ( que estatisticamente é altamente seguro) é o erro na
dose de temeridade.
Um conjunto de sinais e sintomas, conhecido como Síndrome de Ícaro,
manifesta-se através daquela sensação de grande capacidade que ilude
indivíduos com uma vontade enorme de se exibir para o grupo.
Tal atitude, bem sabemos, pode resultar em acidentes graves, conforme a
modalidade de mergulho praticada.
Superação de limites
A busca por emoções fortes vem do berço. Há pouco, pesquisadores da
Universidade da Pensilvânia, Estados Unidos, identificaram características de
personalidade aventureira em crianças de até 2 anos de idade. Segundo os
estudiosos, essas crianças tendem a ser mais felizes, com um profundo interesse
e alegria em viver, tornando-se adultos menos tímidos e desinibidos
socialmente.
Os especialistas, no entanto, aconselham os pais a não castrarem ou
reprimirem os ímpetos aventureiros dessas crianças. Mas recomendam que fiquem
atentos e providenciem ambientes seguros para seus pequenos desbravadores, já
que a propensão pode colocar a criança em situações delicadas e perigosas.
Quem nasce com o ímpeto da aventura no sangue vai querer viver uma vida
aventurosa, custe o que custar, sem se importar muito com os riscos. Para Makis
Chamalidis, autor de Esplendor e Miséria dos Campeões, psicoterapeuta que
trabalha com desportistas de alto nível, vivenciar a aventura significa
exatamente isso:" flertar com a morte, aproximar-se e tentar conquistá-la
e aprisioná-la.
Para ele, nem todos são obcecados pelo desejo de triunfar sobre a morte. A
estes últimos, reflexos de auto preservação os impedirão de mergulhar ou de
praticar qualquer esporte de aventura como saltar com elástico do alto de uma
ponte, pois têm consciência clara da vulnerabilidade de nossos corpos".
Mas os apaixonados pelo risco, para sentir medo - e o prazer que se obtém ao
superar o medo -, precisam se expor ao perigo. "Como reação", diz
Chamalidis, "eles nos fascinam, nos remetendo às fantasias de
onipotência, de ausência de limites que cada um de nós, corajosos ou menos,
abriga em seu psiquismo."
Livres para voar (ou será mergulhar ?)
Todas essas considerações, no entanto, têm pouca ou nenhuma importância
para o mergulhador.
Como todo aventureiro de outras épocas e lugares, ele é, pode ser
considerado um aventureiro avesso e insubmisso às algemas e mordaças que o
sistema sociocultural contemporâneo impõe aos indivíduos.
Disposto a pagar qualquer preço pelo gosto de liberdade que prova ao vencer
seus desafios, ele vai continuar a buscar meios para demonstrar a todos, e a si
mesmo, que, "se suas asas são maiores do que seu ninho, não lhe resta
outra opção senão voar". Ou melhor, mergulhar...
Na visão de Balandier (1997) "os dias de hoje caracterizam-se pelo
excesso, pelo embaralhamento de imagens, códigos, referências, pelo inédito
dos acontecimentos, pelo efêmero e pelas incertezas. Ao mesmo tempo em que
provoca referências incertas e abundantes, o momento atual desafia o indivíduo
a produzir a sua própria identidade de maneira individualizada". Assim, o
indivíduo é desafiado a "ser o produtor das suas próprias referências e
significações, tornando-se o protagonista das suas práticas e
representações, orientando-se pelos acontecimentos circunstanciais, pelas
influências e pelas necessidades imediatas".
Esforço pela formação do caráter, fidelidade para com o verdadeiro
caminho da razão, manter o intuito de esforço, conter o espírito de agressão
e humildade e respeito acima de tudo. Eis o desafio !
Bibliografia
ARBLASTER, A Violência. In: OUTHWAITE, W; BOTTOMORE, T. Dicionário do
pensamento social do século XX. Rio de Janeiro: Ed.Jorge Zahar, 1996.
AYRES, J.R.C.M; FRANCA-JUNIOR, I e CALAZAS,G.J; SALETI-FILHO,HC.
Vulnerabilidade e prevenção em tempos de Aids. In: BARBOSA. R.M E PARKER, R.
Sexualidade pelo avesso: direitos, identidade e poder. Ed. 34,1999.
BALANDIER,G O Contorno: Poder e Modernidade. In: O Imaginário na
Modernidade. Rio de Janeiro: Bertrand, 1997.
CASTRO, M.G; ABRAMOVAY, M. Jovens em Situação de Pobreza, Vulnerabilidades
Sociais e Violências. Cadernos de Pesquisa: Autores Associados, n.116,
p.143-176, julho, 2002.
CARMO, Sergio Paulo. Juventude no Singular e no Plural. Cadernos Adenauer II,
nº 06, São Paulo: Fundação Konrad Adenauer, dez.2001.
GRACIANE, Maria Estela S. Pedagogia social de rua. Cortez, 1997.
JEOLÁS, Leila Solberg. O Jovem e o imaginário da aids-o bricoleur de suas
práticas e representações. Tese de Doutorado. PUC, São Paulo, 1999.
MICHAUD, Yves. A Violência. In: O problema das definições. São Paulo,
Atica, 1989.
Ministério da Saúde. Sexualidade, Prevenção das DST/Aids e Uso Indevido
de Drogas. Brasília, 1999.
PAULILO, Maria Ângela; JOLÁS, Leila Solberg. Jovens, drogas, risco e
vulnerabilidade. Serviço Social em revista, Londrina, v. 03, nº 1, p.39-59,
jul/dez. 2000.
YUNES, M.A,M; SZYMANSKI, H. Resiliência: a noção, conceitos afins e
considerações criticas. In: TAVARES. J ( Org). Resiliência e Educação.
Cortez, São Paulo, 2001.
ZALUAR, Alba (a). Condomínio do Diabo. Revan- UFRJ, Rio de Janeiro, 1994
|