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Obesidade e Mergulho
Há muito tempo o mergulho autônomo deixou de ser uma atividade
exclusivamente profissional e praticável somente por aqueles que apresentassem
condições físicas ideais. Atualmente temos na lista de atividades de lazer
disponível ao homem moderno o mergulho autônomo recreativo. Já o homem
moderno comum apresenta características biotípicas bem diferentes das do
mergulhador profissional. Os candidatos a mergulhadores e mesmo mergulhadores
ativos apresentam características biotípicas da população a que pertencem e
essas características dependem de vários fatores relacionados à cultura da
sociedade em que vivem. Hoje observamos, na nossa sociedade, uma frequência
cada vez maior de indivíduos com sobrepeso ou mesmo obesos. Muitos deles querem
mergulhar.
A questão da obesidade no planejamento do mergulho autônomo recreativo vai
além das questões logísticas relacionadas à operação de mergulho e ao uso
de equipamentos de tamanho adequado. Ela também deve ser pensada em relação
aos riscos de se mergulhar apresentando obesidade principalmente pelas suas
implicações sobre o desempenho embaixo da água, pelo consumo de misturas
gasosas e mesmo pela sua relação com a descompressão. Para o obeso, falta de
preparo físico e baixa resistência ao exercício podem ser uma barreira para
aprender a mergulhar. Aumento de peso significativo em mergulhador experiente
pode implicar mais dificuldades durante o mergulho e também significar perda de
saúde com o surgimento de doenças cardiovasculares e metabólicas, colocando-o
numa situação de risco que anteriormente não tinha.
Para o entendimento mais aprofundado do problema, vamos apresentar algumas
informações e conceitos atuais de interesse para o mergulhador sobre
obesidade. Com essas informações, esperamos que haja uma sensibilização
sobre os problemas relacionados à condição de mergulhar apresentando
obesidade.
OBESIDADE
Segundo dados da Organização Mundial da Saúde, estima-se que existam mais
de um bilhão de adultos com sobrepeso e desses trezentos milhões são obesos.
A obesidade e o sobrepeso estão relacionados a um maior risco de doenças
crônicas incluindo o diabete mélito não insulino dependente, doença
cardiovascular, hipertensão, derrame e algumas formas de câncer. A causa
principal da obesidade é a ingestão de alimentos energeticamente densos em
conteúdo de açúcares e gorduras saturadas e a redução da atividade física.
A consequência final é um aumento do risco de morte prematuro e doenças
crônicas sérias que diminuem a qualidade de vida como um todo.
A obesidade é comumente diagnosticada através da medida do índice de massa
corporal. Em geral, o aumento do índice de massa corporal é calculado através
da divisão do peso pela altura em metros quadrados, representando obesidade.
Exceção ocorre em indivíduos que apresentam aumento de massa muscular. É o
caso de atletas fisicamente bem condicionados que apresentam significativa massa
muscular e não são obesos.
O índice de massa corporal normal encontra-se entre 18,5 e 25 kg/m². São
considerados abaixo do peso aqueles com índice menor que 18,5 kg/m². Aqueles
com índices maiores que 25 kg/m² apresentam sobrepeso e os com índices
maiores que 30 kg/m², obesidade.
SÍNDROME METABÓLICA
Uma outra condição que devemos conhecer, é a chamada síndrome
metabólica, na qual a obesidade pode fazer parte de um quadro clínico bem
definido e mais complexo. Essa síndrome é um problema que está crescendo numa
taxa alarmante a dimensões inimagináveis. No mergulho, ela pode ter várias
implicações e é importante, pois engloba um conjunto de fatores de risco para
ataque cardíaco como a obesidade abdominal, o pré-diabete ou diabete, as
alterações no colesterol e na pressão sanguínea elevada.
Para alguém ser considerado portador de síndrome metabólica, deve
apresentar obesidade central, mais dois dos seguintes fatores adicionais:
aumento de triglicerídeos no sangue, redução do colesterol HDL, aumento da
pressão arterial ou aumento da glicemia de jejum. Definições modernas incluem
o uso de valores específicos relacionados à medida da circunferência
abdominal que são adequados à diferença de gênero e de etnia da pessoa.
Acredita-se que um quarto da população adulta tem síndrome metabólica.
O interesse em relação à síndrome metabólica e mergulho está no fato de
ela estar associada ao risco cardiovascular e da inflamação. Por praticar uma
atividade de lazer extraordinária, o mergulhador pode estar pensando que tem
boas condições de saúde, ou seja, por desconhecimento, o mergulhador pode
apresentar a síndrome e não saber.
No mergulho, risco cardiovascular aumentado representa risco de acidentes
relacionados ao mau desempenho físico embaixo d’água em função das
demandas do mergulho. Desempenho cardiovascular ruim em relação à tolerância
ao exercício representa risco de afogamento ou morte súbita. Além disso, o
estado de inflamação crônica subclínica associado à condição pode ter
repercussões sobre a incidência e mesmo o prognóstico da doença
descompressiva.
O portador de síndrome metabólica apresenta risco aumentado de ter doença
cardiovascular, o dobro de possibilidade de morrer de doença cardíaca e tem
três vezes mais probabilidade de ter um ataque cardíaco ou derrame. Aquele com
síndrome metabólica possui um risco cinco vezes maior de apresentar diabete,
que, por sua vez, também está associado a um grande risco cardiovascular. Isso
em cima da água. E, então, surge a questão: Qual o risco que um mergulhador
tem, apresentando síndrome metabólica, de sofrer uma complicação no
mergulho? Provavelmente maior do que quando somente é obeso.
Nessa situação, às condições subjacentes a se mergulhar estando obeso se
acrescentariam as complicações potenciais relacionados ao prognóstico
cardiovascular. É como se a síndrome metabólica fosse um estágio mais
avançado da obesidade produzindo complicações graves.
OBESIDADE, SÍNDROME METABÓLICA E INFLAMAÇÃO
Mudanças sociais e alterações dos padrões nutricionais, principalmente
relacionados com a globalização dos mercados alimentícios, estão levando a
obesidade a dimensões epidêmicas. O estilo de vida moderno, especialmente os
hábitos dietéticos ruins e a baixa atividade física decorrente do aumento do
uso de transporte automotivo, a tecnologia doméstica e a busca de atividades de
lazer passivo levam à obesidade.
O ganho de peso é fruto de um balanço energético entre a ingestão
calórica e a atividade física. Enquanto os genes são importantes em
determinar a suscetibilidade individual para a obesidade, é o balanço
energético no sentido de mais calorias e menos atividade física que vai
determinar o aumento de peso.
A obesidade é o principal fator de risco do diabete e, somente mais
recentemente, a partir de pesquisas, se evidenciou a relação entre a imunidade
inata e o metabolismo, podendo-se compreender a relação entre os dois e a
inflamação em níveis baixos agindo cronicamente. Hoje, também há um
conjunto de evidências unindo inflamação ao surgimento do diabete
não-insulino dependente.
O balanço energético positivo não leva somente à obesidade, mas também a
um grau baixo de inflamação sistêmica mediada, em parte, por estresse
oxidativo. Na obesidade, alterações no padrão da secreção celular de
substâncias chamadas adipocinas amplificam essa inflamação por todo o corpo.
Por ação das adipocinas, mediadores inflamatórios intracelulares prejudicam a
ação da insulina e de outras substâncias dentro da célula, alterando a
função das mitocôndrias na produção de energia. No pâncreas, adipocinas
secretadas parecem diminuir a secreção de insulina e a massa total de células
beta produtoras desse hormônio. O surgimento do diabete não-insulino
dependente reflete a resistência à ação da insulina na célula e a
secreção insuficiente de insulina pelo pâncreas.
O estado de inflamação crônica sistêmica de baixo grau é possível ser
evidenciado através do surgimento e detecção de marcadores inflamatórios
circulantes. Esses marcadores são gerados por mecanismos moleculares
relacionados à imunidade. Dentro da célula, a imunidade inata é regulada por
sistemas pró-inflamatórios nucleares. Extracelularmente a imunidade inata
transmite sinais inflamatórios através de substâncias chamadas citoquinas
pró-inflamatórias.
Na obesidade, as adipocinas provocam alterações morfológicas e funcionais
a distância. O tecido adiposo se comunica com tecidos periféricos através das
adipocinas secretórias. Do ponto de vista morfológico, elas podem modular a
localização do tecido adiposo e o tamanho da célula de gordura. Do ponto de
vista fisiológico, modulam a glicose da célula adiposa e o metabolismo celular
de corticosteróides. As adipocinas, na presença de reservas energéticas
adequadas, poderão inibir a ingestão de alimentos e, em certos contextos, o
gasto energético. A falta de algumas adipocinas está associada à obesidade,
resistência à insulina e alterações na função imunológica e diabete.
Atualmente existe um conjunto de evidências sugerindo que hábitos
alimentares são as maiores fontes de estímulo inflamatório. Certos elementos
dietéticos como ácidos graxos trans e alta carga de glicose são
pró-inflamatórios e produtores de alterações arteriais. Por outro lado,
outras substâncias agem ao contrário, são antiaterogênicas, como, por
exemplo, os ácidos graxos poliinsaturados.
Em geral, a ingestão de alimentos e, em especial, o seu excesso geram
estresse oxidativo. O estresse oxidativo, por sua vez, vai estimular a
produção de mediadores pró-inflamatórios. Na intimidade celular, as
mitocôndrias são importantes fontes de estresse oxidativo. O excesso de
suprimento energético nessas organelas conduz a alterações no ciclo de
geração e liberação de energia, levando à liberação de superóxidos.
Indivíduos com pouca atividade mitocondrial oxidativa parecem apresentar risco
de indução de estresse oxidativo, provocando resistência à ação da
insulina e diminuição da ação da função da célula beta no pâncreas.
Obesidade, inflamação e evolução
A necessidade de sobreviver sob as pressões evolutivas gerou mecanismos de
respostas coordenadas frente a diferentes estímulos ambientais. Essas respostas
alteram funções para permitir que as mesmas células e sistemas orgânicos
sirvam, em diferentes momentos, às necessidades do organismo: crescimento,
desenvolvimento e reprodução num momento e defesa contra invasores
microbiológicos noutro.
Do ponto de vista evolutivo, especula-se que comer, antes do mais recente
período evolutivo, era um comportamento de risco à medida que a comida podia
estar sempre contaminada com microorganismos. Nesse sentido, a ingestão de
alimentos provocaria uma resposta inflamatória como defesa. Haveria uma
ligação entre mediadores metabólicos e inflamação.
Nessa condição, a adiposidade intra-abdominal poderia prover a energia para
essa resposta. Entretanto, no contexto do estilo de vida atual, que inclui
hábitos dietéticos não naturais, em que há fácil acesso a fontes de energia
e atividade física opcional, geralmente passiva, acaba ocorrendo um excesso de
ingestão calórica e de substâncias com alto teor de fonte de energia. Dessa
forma, o estresse oxidativo e a indução de mecanismos inflamatórios
sobrecarregam os mecanismos adaptativos existentes há milênios. Os adipócitos
acabam assumindo uma expressão pró-inflamatória. Os adipócitos secretam
adipocinas e induzem a ações pró-inflamatórias em outras células com a
generalização de um estado de leve inflamação crônica sistêmica.
Segundo dados da biologia evolutiva, os invertebrados concentram a reserva
energética e as funções imunes e endócrinas num único tipo de célula que
lembra um macrófago, uma célula de defesa. No processo evolutivo, a célula
adipócita e as células imunes especializadas passaram a derivar de um único
precursor. Atualmente pode-se observar que os adipócitos secretam muitas
substâncias que atuam nos processos pró-inflamatórios e na resposta imune
inata. Hoje uma série de substâncias secretadas que apresentam ações
antiinflamatórias, estimulam o acúmulo de lipídios. Outras adipocinas têm
seu aumento ou diminuição associados à obesidade abdominal, à sensibilidade
à ação da insulina e ao desenvolvimento de diabete e funções
antiaterogênicas.
Atualmente sabe-se que muitos desses mecanismos descritos têm relação com
a aterosclerose. A aterosclerose é uma doença que resulta da disfunção das
células do endotélio vascular decorrente de inflamação crônica. A
aterosclerose é um produto de mecanismos que envolvem inflamação e estresse
oxidativo. Esses mesmos mecanismos podem estar envolvidos nos danos
microvasculares observados no diabete.
Com resultados semelhantes em termos de evidências, alguns estudos
nutricionais com dietas com aporte calórico adequado, como a dieta
mediterrânea, concluíram que ela diminui a hiperglicemia, outros elementos da
síndrome metabólica e a ocorrência de doença coronariana.
A partir da informação disponível através de estudos da biologia
evolutiva poderíamos arriscar em dizer que hoje é possível perceber a
ocorrência de doenças culturais. Parece que é o caso da obesidade.
Indivíduos mais bem adaptados do ponto de vista genético, quando expostos a
fatores ambientais em excesso como os alimentos com alto conteúdo energético,
com o tempo, passam a apresentar obesidade, síndrome metabólica ou mesmo
diabete se expressando na forma de doenças.
OBESIDADE E SUAS COMPLICAÇÕES
O sobrepeso e a obesidade conduzem a efeitos metabólicos diretos na pressão
sanguínea, no colesterol, nos triglicerídeos e na resistência à insulina,
levando ao diabete melito. Os problemas debilitantes associados à obesidade
incluem dificuldades respiratórias, problemas musculares e esqueléticos,
problemas de pele e infertilidade. Já os problemas fatais incluem os problemas
cardiovasculares, as complicações associadas à resistência à insulina, tal
como o diabete não-insulino dependente, certos tipos de cânceres,
especialmente aqueles relacionados com hormônios e os do intestino grosso, e as
doenças da vesícula biliar. Sobrepeso e obesidade crônica podem provocar
osteartrite, a qual é uma importante causa de incapacidade em adultos.
Atualmente podemos observar crianças pré-púberes apresentando diabete
relacionado à obesidade. Em torno de 85% das pessoas com diabete apresentam
diabete não-insulino dependente e 90% dessas são obesas. Aproximadamente 58%
dos diabetes, 21% da doença cardíaca isquêmica e 8-42% de certos cânceres
são relacionados com índices de massa corporal maior que 21 kg/m².
OBESIDADE E MERGULHO
A observação do aumento da prevalência da obesidade nas últimas décadas
reflete alterações na sociedade e seus padrões de comportamento. É um
paradoxo uma sociedade que cobra tanto o desempenho humano, ter de conviver com
a obesidade, seus fatores causais e suas consequências. A mesma sociedade que
disponibiliza o mergulho como uma atividade de lazer, o que pode significar uma
coisa saudável, também tem pressões culturais que levam ao surgimento da
obesidade na sua população. Crescimento econômico, modernização,
urbanização e globalização são algumas forças que tornam as duas coisas
possíveis, tanto o mergulho recreativo como a obesidade.
Entretanto, o mergulho é uma atividade de lazer e, por definição, não
deve trazer problemas aos seus praticantes. Principalmente aos obesos. É
inevitável e não dá para deixar de observar que a obesidade está cada vez
mais presente no mergulho, seja em alunos ou instrutores. Duas preocupações
surgem em relação ao assunto. A primeira é: Mergulhando, um indivíduo com
sobrepeso ou obesidade pode sofrer mais riscos que os outros? A outra é: Esses
indivíduos são capazes de conseguir responder às exigências da atividade?
Um dos problemas que se enfrentam na avaliação médica do mergulho em
relação à obesidade, é a questão psicológica. O obeso que quer mergulhar,
na grande maioria, não relaciona a obesidade com doenças. Muitas vezes,
acredita que o mergulho é uma atividade de pouco risco para ele e os outros
mergulhadores. Ele precisa disso por uma questão de auto-estima. Como ele se
considera normal, acaba acreditando que as mesmas orientações e medidas
relacionadas ao mergulho seguro se aplicam a ele sem necessitar de planejamento
específico. Quando ocorre um acidente, vêm à tona os problemas.
OBESIDADE E ACIDENTES DE MERGULHO
No relatório sobre acidentes de mergulho do Dive Alert Network de 2005,
podemos observar que das 61 fatalidades somente 36% tinham índice de massa
corporal apropriado ou normal, o restante, 33% tinham sobrepeso e 41%
apresentavam obesidade. Obesidade é proporcionalmente maior entre as
fatalidades. Nesse mesmo relatório, é evidenciado que, em relação aos
fatores relacionados ao estado de saúde dos mergulhadores, foi observado que a
prevalência de hipertensão e doença cardíaca foi maior entre as fatalidades.
Como foi colocado anteriormente, essas doenças têm associação direta com a
obesidade e a síndrome metabólica.
Em relação ao relatório de 2004, podemos ver uma nítida redução do
sobrepeso e obesidade na população de acidentados. Naquele relatório, somente
12% dos mergulhadores que morreram, estavam com índice abaixo do normal (ou
tinham baixo peso), enquanto 33% tinham sobrepeso e 55% estavam obesos. Na
análise da relação casual de obesidade com acidentes, o relatório já
associava obesidade com saúde comprometida, doença cardíaca e pouca
capacidade de tolerar o exercício físico. A falta de desempenho físico e
pobre saúde cardíaca podem limitar a resposta do mergulhador ao lidar com
condições adversas durante o mergulho e podem aumentar o risco de um evento
fatal.
OBESIDADE E PREPARO FÍSICO NECESSÁRIO AO MERGULHO
O melhor indicador de preparo físico para o mergulho é o estado de saúde
geral do mergulhador. O maior problema da obesidade em relação ao mergulho
está associado ao fato de ela estar diretamente relacionada a problemas
cardiovasculares, respiratórios e músculos esqueléticos, que podem prejudicar
o desempenho físico durante o mergulho.
Geralmente a obesidade está vinculada a pouca atividade, baixo desempenho
físico e consequentemente pouca tolerância ao exercício físico.
Habitualmente o obeso tolera pouco as demandas excepcionais de exercício em
relação ao que ele está acostumado a realizar, ou seja, fora da água há
pouca reserva funcional para resposta a uma demanda maior e não habitual de
exercício físico.
Isso prejudica não só a capacidade de mergulhar com segurança, mas também
a capacidade de se desvencilhar de situações que necessitem do próprio
salvamento. Pelas características da atividade em relação às condições do
meio ambiente durante o mergulho, à necessidade de carregar equipamentos, tanto
fora como dentro da água, o mergulho pode apresentar situações em que há a
necessidade de aumentar o trabalho cardíaco e ventilatório e consequentemente
o desempenho físico.
Muitas vezes, o aumento súbito do trabalho cardio-respiratório pode ser uma
demanda que o obeso fisicamente despreparado não pode tolerar. Um aumento
súbito na necessidade de desempenho físico pode colocar o mergulhador obeso
numa situação de risco que pode evoluir ao pânico e afogamento ou mesmo a um
acidente fatal decorrente da necessidade súbita de emergir.
O MERGULHADOR OBESO E O SISTEMA DE DUPLAS
Se um mergulhador não tiver condições de tolerar uma demanda maior de
exercício, terá condições de auxiliar alguém e manter a dinâmica do
sistema de duplas? Aquele que não tiver condições de se salvar, poderá
resgatar outro mergulhador ?
Realmente, a obesidade pode comprometer o sistema de duplas e gerar outras
dificuldades para a manutenção do seu funcionamento. A obesidade acarreta
dificuldades para o resgate do mergulhador de dentro da água, tanto do local
onde a dificuldade ocorreu como da superfície para dentro da embarcação.
Essas dificuldades podem retardar manobras do atendimento que requerem presteza
e eficiência. Pela perda de tempo decorrente das dificuldades de transporte
pode haver sérias dificuldades para se instituírem inclusive as manobras de
reanimação cardiopulmonar. Dessa forma, o prognóstico das lesões pode ficar
comprometido de forma negativa.
OBESIDADE E RISCO CARDIOVASCULAR NO MERGULHO
A obesidade, como foi descrito anteriormente, está associada à hipertensão
e doença coronariana. Pessoas com grandes índices de massa corporal têm risco
aumentado de apresentar isquemia coronariana durante o mergulho e seu risco
associado à ocorrência de arritmias e morte súbita, mesmo sem aumento da
demanda de exercício. O obeso, a menos que venha a apresentar uma avaliação
cardiovascular muito satisfatória, não deverá mergulhar. Acredita-se que
índices de massa corporal maiores que 30 kg/m² são muito arriscados para o
mergulho.
OBESIDADE, ALTERAÇÕES METABÓLICAS E MERGULHO
O obeso apresenta risco para síndrome metabólica e diabete melito. Obesos
que não têm essas condições diagnosticadas, têm maior risco de
complicações cardiovasculares e morte súbita. Diabéticos não diagnosticados
e não tratados podem apresentar complicações graves durante o mergulho, como
alterações do nível de consciência associadas a estados de aumento dos
níveis de glicose no sangue.
OBESIDADE E ALTERAÇÕES DA FUNÇÃO PULMONAR
Os testes de função pulmonar apresentam valores alterados no obeso. Em
geral, quase todos os parâmetros encontram-se abaixo do esperado. A
diminuição da capacidade ventilatória faz com que o obeso apresente hipoxemia
e retenção de dióxido de carbono. No mergulho, aumentando a profundidade,
isso tudo piora.
O risco real em relação à função pulmonar para o mergulho de indivíduos
obesos deve ser medido. Baixa capacidade vital e volume expiratório final
diminuído podem ser considerados indicadores confiáveis de risco aumentado.
Testes pulmonares que apresentarem mais que dois desvios padrões do normal,
indicarão alto risco e o mergulho não deverá ser liberado.
OBESIDADE E DESCOMPRESSÃO
Existem vários fatores relacionados à ocorrência de doença
descompressiva. O principal deles é a redução da pressão ambiente. Outros,
bem documentados, são a realização de mergulhos profundos, com tempo
prolongado, água fria, exercício físico intenso na profundidade e subida
rápida. A obesidade está entre os fatores que aumentam o risco, tais como
desidratação, doença pulmonar e exercício vigoroso após chegar à
superfície. Esses fatores podem fazer a diferença na ocorrência de doença
descompressiva entre mergulhadores que seguem o mesmo perfil de mergulho.
Apesar de haver uma base fisiopatológica para relacionar a obesidade com a
ocorrência de doença descompressiva, ainda não há estudos clínicos
específicos com grupos controles bem delineados com achados definitivos
comprovando que ela é a causa direta. A falta de uma resposta definitiva em
relação à obesidade como fator individual está no fato de, tratando-se de
estudos envolvendo fatores de risco, haver dificuldades em se agruparem e
compararem populações específicas com somente um fator de risco. Entretanto,
em relação a este assunto, a falta de evidências não é evidência da falta
de correlação.
Desde os primeiros estudos avaliando as características físicas daqueles
que apresentaram doença descompressiva com fatores de risco, a vinculação com
a obesidade sempre existiu, pelo menos, de maneira indireta e associada a outros
fatores. Teoricamente, a alta solubilidade do nitrogênio aumenta a sua
absorção e favorece o crescimento de bolhas. Muitos estudos com animais e
humanos vinculam a associação de doença descompressiva e gordura corporal,
altitude e trabalho com compressão.
Estudos observacionais correlacionam obesidade e outras variáveis, como
idade, peso, sexo e tipo de trabalho, com doença descompressiva. É o caso de
um estudo da Marinha Norte-Americana que observou que os mergulhadores que
apresentaram doença descompressiva, possuíam medidas maiores de prega cutânea
e peso que aqueles que não tiveram a doença. Já no mergulho comercial, foi
observado que a obesidade é um dos fatores que aumentam o risco de doença
descompressiva, ou seja, entre os mergulhadores que apresentaram doença
descompressiva, havia uma incidência maior de obesidade. No Reino Unido, a
orientação geral é que os mergulhadores comerciais fora do peso ideal
suspendam a atividade até chegarem ao peso adequado.
No entanto, existem, pelo menos, alguns estudos que não encontram
associação. As justificativas para a falta de associação encontrada em
alguns estudos são incertas e muitos fatores são possíveis. Entre as
justificativas em relação à falha de comprovar a relação entre obesidade e
doença descompressiva se coloca o fato de que alguns estudos consideraram como
grupo controle mergulhadores da marinha que são mais jovens, mais bem
preparados fisicamente e mais saudáveis; de que a gordura corporal tem um
efeito diferente em mergulhos curtos quando comparada à exposição à altitude
e em trabalhos no seco; de que o aumento da gordura corporal protege contra
doença descompressiva em mergulhos em água fria e, finalmente, de que os
procedimentos atuais de mergulho são menos intensos que no início da atividade
anos atrás.
Estudos de detecção de bolhas venosas com Doppler encontraram correlação
positiva entre ocorrência de bolhas na circulação venosa, idade, peso e
consumo máximo de oxigênio, mas não encontraram relação com aumento de
gordura corporal total. Utilizando-se recursos estatísticos como a regressão
logística para o estudo de múltiplas variáveis, foi possível identificar
diferenças. Diferenças de suscetibilidade de 2:1 e 5:1 foram encontradas,
analisando-se os fatores idade e tipo corporal isolados respectivamente.
Entretanto, diferenças de 8:1 foram identificadas em relação à ocorrência
de doença descompressiva quando comparada com controles, considerando-se idade
e tipo corporal juntos. Suscetibilidade individual aumentada, em estudos de
regressão logística multivariável, foi encontrada para índice de massa
corporal, doença descompressiva prévia e trabalho como mineiro.
Existem fortes correlações vinculando fatores como obesidade, ocorrência
de doença descompressiva prévia e embolia gasosa venosa. Entretanto, muitas
dessas evidências são questionadas pela falta de grupos controle,
principalmente relacionados pela diferença de tipos de exposições. Mergulhos,
exposição à altitude e trabalho pressurizado, como o observado na engenharia
civil, apresentam diferenças importantes em termos de exposição e risco para
doença descompressiva. Para exposição à altura, os estudos realizados
colocam que o risco de doença descompressiva aumenta significativamente em
função da massa corporal.
Outras considerações sobre os mecanismos relacionando obesidade e
doença descompressiva
Por outro lado, as lesões relacionadas ao mergulho, entre elas, a doença
descompressiva, podem ser influenciadas pelas condições previas de saúde do
mergulhador. A obesidade pode estar associada a várias condições, tais como
diabetes, problemas músculos esqueléticos, cardiovasculares, incluindo
hipertensão e falta de preparo físico. Muitas vezes, o mergulhador obeso não
sabe que apresenta problemas de saúde e condições associadas à possibilidade
de maior ocorrência de doença descompressiva. Essas condições, além de
potencializarem a ocorrência da doença, alteram o seu prognóstico.
Há uma quantidade de evidências vinculando, de maneira indireta, a
questão. Uma incidência maior de doença descompressiva tem sido observada em
mergulhadores mais velhos. Acredita-se que essa correlação seja decorrente da
maior quantidade de gordura corporal, além, é claro, da diminuição da
capacidade física e reserva orgânica necessária para a tolerância ao
exercício, assim como da diminuição da capilaridade tecidual, que ocorrem com
o envelhecimento. Possivelmente a associação de maior incidência de doença
cardiovascular com a obesidade e o aumento da idade sejam as maiores
correlações.
Algumas ressalvas devem ser feitas em relação a este assunto. No obeso há
uma evidente desproporção qualitativa de massa tecidual, existindo uma
proporção maior de tecido gorduroso, o qual tem um comportamento específico
em relação à doença descompressiva. O nitrogênio é solúvel em lipídeos e
há quem responsabiliza a obesidade de maneira direta como um fator de risco
específico à ocorrência de doença descompressiva. Uma hipótese sugere que a
percentagem de adiposidade tecidual influenciaria a quantidade de nitrogênio
acumulado, a formação de bolhas e o risco de doença descompressiva seguindo a
descompressão.
Entretanto, não é só isso. Os gases também se dissolvem em todos os
tecidos na proporção da sua solubilidade e ao fluxo sanguíneo tecidual.
Portanto, não devem ser consideradas somente as características específicas
qualitativas de conteúdo de lipídeos em relação ao tipo de tecido. Talvez,
no que concerne à ocorrência de doença descompressiva, mais importante,
ainda, seja a perfusão tecidual, ou melhor, a relação da quantidade de massa
tecidual por vaso sanguíneo. Gases muito solúveis em tecidos adiposos, como
é o caso do nitrogênio, teriam uma carga maior solubilizada com tempos
diferentes de eliminação em relação aos padrões habituais relacionados às
características perfusionais teciduais.
As alterações vasculares que podem estar presentes no mergulhador obeso e
de idade avançada, podem alterar a entrada e a saída de gases no tecido de uma
maneira diferente e modificar os esquemas de descompressão. O tecido gorduroso
apresenta pouca quantidade de vasos sanguíneos. Pouca perfusão diminui a
capacidade de eliminar gases, podendo levar à ocorrência de doença
descompressiva. Evidências experimentais são necessárias para confirmar tais
hipóteses.
Como foi visto anteriormente, a obesidade promove um estado de inflamação
de baixo grau e esse estado pode ter relação com a gravidade da doença
descompressiva e seu prognóstico. Portanto, em relação ao prognóstico da
doença descompressiva, outro fator, além da vascularização tecidual, que
deve ser levado em conta, é o estado de inflamação leve e crônico que está
subjacente à obesidade, bem como a presença ou não de doença vascular
instalada. Este ainda é um tema especulativo tratando de um assunto hipotético
que requer evidências científicas.
Como calcular a redução do tempo de fundo ?
Quando se planeja um mergulho para um indivíduo obeso e se consulta uma
tabela de mergulho, a Dra. Robyn Walker indica, no mergulho recreativo, a
imposição de uma margem de segurança ao valor que se encontra após o
cálculo da duração do mergulho para determinada profundidade. O tempo de
fundo deve ser diminuído, dependendo do grau de obesidade. Uma medida
arbitrária, usada por muitos anos pelos Centros Australianos de Medicina do
Mergulho, foi a redução do tempo de fundo em função do índice de massa
corporal do mergulhador. A definição da redução será em função da
quantidade de peso que excede o esperado para determinada altura e peso que
definam o índice de massa corporal. Se o índice de massa corporal exceder em
um terço, o tempo de descompressão permitido será reduzido em um terço. Cabe
ressalvar que não se encontram evidências que apóiem esse protocolo.
Obesidade e computadores de mergulho
Alguns autores colocam que existe um conjunto de evidências que apóiam a
necessidade de se considerar a obesidade e outras variáveis no cálculo de
descompressão em algoritmos computacionais. Considerar a idade, o peso, a
quantidade de gordura corporal e o consumo máximo de oxigênio em tabelas e
algoritmos de computadores permite adaptar os procedimentos de descompressão a
fatores de risco individuais, reduzindo a probabilidade de doença
descompressiva.
OBESIDADE E OSTEONECROSE DISBÁRICA
A obesidade é um fator de risco independente para a ocorrência de
osteonecrose disbárica, uma outra apresentação da doença descompressiva.
Outras alterações associadas à obesidade, como doença vascular oclusiva,
diabete melito e hiperlipidemia, podem ser causas de osteonecrose disbárica.
TRATAMENTO DA OBESIDADE E DA SÍNDROME METABÓLICA
O tratamento da obesidade e da síndrome metabólica envolve estratégias
culturais que atingem não somente o indivíduo, mas também a sociedade. São
estratégias que devem ser adotadas em longo prazo, incluindo prevenção do
aumento, perda e controle do peso, bem como o tratamento das doenças
associadas. As medidas incluem basicamente a adoção de hábitos saudáveis com
dietas específicas e atividade física regular. A dieta deve ser
individualizada com restrição calórica e com modificação da composição. A
atividade física deve ser instituída ou aumentada.
Em termos de saúde pública, deve-se promover o acesso e disponibilidade de
uma variedade de alimentos com alto teor de fibras e de baixo conteúdo de
gordura, além de providenciar oportunidades para a realização de exercícios
físicos. Deve-se basicamente educar para a saúde, esclarecendo que o modelo
vinculando saúde a excesso de peso não é correto. O mesmo deve ser feito em
relação ao credo de que, para ficar forte, devem-se comer comidas fortes, ou
seja, com alto conteúdo energético por grama de peso.
O tratamento da obesidade consiste em promover a perda de peso através de
hábitos saudáveis. Isso pode ser feito, comendo-se mais fruta e vegetal,
incluindo grãos totais ou integrais e também amêndoas. Devem-se também
retirar da dieta alimentos com conteúdo calórico alto na forma de açúcares e
gorduras. Em relação às gorduras, deve-se trocar a gordura animal pela
vegetal. A gordura animal é altamente rica em gorduras saturadas, enquanto a
vegetal é não saturada. Além disso, as medidas adotadas devem incluir a
realização diária de atividade física de moderada intensidade por, pelo
menos, 30 minutos.
Por último, cabe ressalvar que o uso de drogas que suprimem o apetite, são
de uso arriscado no mergulho. Elas, além de apresentarem efeitos
psicotrópicos, que potencializam a narcose, podem elevar a pressão arterial
sistêmica.
CONCLUSÕES
Avaliar o estado de saúde e diagnosticar obesidade acarreta reflexões sobre
suas consequências e a possibilidade de se mergulhar. Ao abordar o assunto e
propor uma investigação mais profunda sobre as condições do mergulhador,
esbarra-se na negação do problema por questões culturais e de auto-estima.
Muitas vezes, a sociedade, por condições culturais, absorve alguns padrões e,
até certo ponto, os considera normais. No mergulho, a questão da obesidade
não se resume no uso de equipamento de tamanho adequado. A obesidade pode ser
uma barreira ao aprendizado e à própria prática do mergulho. Falta de preparo
físico e baixa resistência acompanham a obesidade na maior parte dos casos.
Devemos considerar o quanto de exercício o obeso pode tolerar durante o
mergulho e em situações inesperadas. A obesidade também afeta o funcionamento
do sistema de duplas e a prática do mergulho seguro. A concomitância de
doenças cardiopulmonares e metabólicas associadas à obesidade pode ser outra
barreira que impõe riscos acima do normal. Mudanças no planejamento do
mergulho em termos de descompressão também são necessárias para o obeso.
Tratando-se de mergulhadores obesos, um instrutor, com alto grau de
profissionalismo, deve falar honesta e objetivamente sobre as reais necessidades
físicas e as condições de saúde necessárias para o mergulho seguro.
BIBLIOGRAFIA
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Edition, London, Arnold, 2002; 53:532-551.
Renúncia
Nenhuma representação neste texto é feita no sentido de oferecer um
diagnóstico, tratamento ou cura para qualquer condição ou doença relatada. O
caráter do texto é somente informativo e deve ser usado em conjunto com o
aconselhamento específico do médico de medicina do mergulho. O autor não é
responsável por qualquer consequência concebível relacionada à leitura
deste texto.
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