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Oi, eu sou a Dori
Lembra do seu check-out do básico ? Além de se atrapalhar na hora de
tirar e colocar a máscara, bater as nadadeiras no dupla, no instrutor e, pior,
no areião, é provável que você tenha voltado do barco um tanto quanto...
confuso. que bom seria se eles se apresentassem ! Com raras exceções, a
maioria dos mergulhadores leva um tempo até se acostumar com o ambiente marinho
e mais um outro tanto para saber o nome daquela turma toda com que se depara no
fundo do mar.
Para alguns mergulhadores, saber quem é quem lá embaixo é mais do que
curiosidade: é uma forma de ajudar na preservação. Este é o interesse de
sócios e afiliados do Instituto
Laje Viva (ILV), que estão participando de um treinamento para identificar
os peixes da Laje de Santos - o FISH-ID. O primeiro passo foi uma aula teórica,
ministrada por Osmar "Mindú" Luiz Jr., diretor científico do ILV. O
aprendizado continuou à distância, via internet, com o envio de fotos dos
indivíduos e a identificação pelo grupo. Os mergulhos ganharam mais uma
motivação: fotografar e anotar detalhes como localização, tamanho,
quantidade etc. "Nunca foi realizado nenhum levantamento das espécies
incidentes na Laje, nem suas populações", avalia a presidente do ILV, Ana
Paula Saraiva Balboni. "Sem ele, jamais saberemos se as populações estão
em declínio ou em recuperação. Sabemos que a Laje é um importante local de
abrigo de algumas espécies gravemente ameaçadas de extinção, como é o caso
das tartarugas marinhas. Duas espécies são avistadas com muita frequência
por lá".
Plano de manejo
A Laje de Santos é tida como um repositório de peixes, principalmente os de
maior porte, que, depois de longos anos, começam a reaparecer, a exemplo dos
meros, altamente ameaçados de extinção. "Há anos não se via um mero
nas imediações, e agora eles são avistados ocasionalmente", lembra Ana
Paula. As grandes caranhas também estão voltando, as garoupas estão cada vez
mais robustas, e isto é, provavelmente, reflexo da diminuição da pesca por
conta da intensa fiscalização. A sócia Lúcia Silva acrescenta: "Tendo a
real informação sobre quais espécies vivem na Laje, quais são as visitantes,
qual o período de avistamento e qual é o crescimento dessas populações,
poderemos desenvolver vários outros projetos". O também sócio Guilherme
Kodja exemplifica: "O projeto de FISH ID está diretamente relacionado com
o Projeto Parcéis, que está prestes a ser aprovado pelo COTEC (IF/SP). Por
meio dele, saberemos se as populações estão crescendo ou diminuindo, se há
migração de espécies, qual a diferença do ambiente sem exploração e
visitação de qualquer forma para o ambiente da Laje (com mergulho,
embarcações apoitadas etc.). A medição do impacto da presença humana vai
ser de clara percepção, caso haja".
Mindú lembra que um levantamento faunístico é sempre importante para
averiguação da possibilidade de descoberta de espécies novas, raras ou que
estejam em extinção em outros locais, o que aumenta a importância da
conservação do local. A sócia Fernanda Amante lembra que, apesar de o parque
existir há 13 anos, nunca houve uma avaliação científica sobre a sua fauna.
"Tudo o que temos é na base do ‘achômetro": "parece que os
meros estão voltando", ou "agora tem muito mais peixe na Laje".
Esse estudo pioneiro vai nos dar base para o Plano de Manejo do PEMLS.
Para a sócia Cris Morgado, esses dados contribuirão para despertar maior
interesse das pessoas pelo local, o que contribuirá para sua preservação.
Tropeços no latim
Uma das tarefas mais árduas, brinca o grupo, é ter de mergulhar
constantemente para fazer o mapeamento. Para o sócio Eduardo Guariglia – e
tantos outros fãs do esporte – a maior dificuldade é diferenciar espécies
que, a primeira vista, parecem praticamente iguais. Além, é claro, de lembrar
os nomes – tanto os populares, quanto os científicos, reforça a sócia Paula
Romano. Brincadeira de criança para Mindú, que teve a vocação para biologia
despertada na infância pela mãe, que o presenteava com livros sobre animais.
Ele garante, também, que o ser humano é curioso por natureza e já possui uma
pré-disposição para tal aprendizado. "Existe um teoria na evolução
(teoria da biofilia) que diz que a aptidão para reconhecer e identificar
diferentes tipos de animais era favorável à sobrevivência humana na época
que dependíamos da caça e pesca. Ou seja, aqueles que tinham maior facilidade
para reconhecer as espécies animais e aprender sobre seus hábitos, obtinham
alimento com mais facilidade e transmitiam o gene da biofilia para seus
descendentes. Se a teoria estiver correta, possuímos esse gene dentro de nós,
é só colocá-lo para funcionar".
Para Kodja, complicado é contar os indivíduos em cardumes, especialmente em
locais de difícil acesso, como fendas e em maior profundidade. Ana Paula
acrescenta: "A distância da costa e as condições de navegação são
outro limitante. Se o local fosse próximo, mesmo em condições ruins de
navegabilidade não teríamos muito problema para chegar em segurança. Mas a
navegação de uma hora e meia a duas horas, normalmente em condições
difíceis, exige uma embarcação muito bem cuidada, dotada de dois
motores, marinheiros experientes, planejamento bem executado". Outro
limitante é a profundidade de alguns pontos de mergulho, que ultrapassam os 40
metros. "Os mergulhadores envolvidos nos projetos têm de ser treinados,
habilitados e muito safos. Os projetos exigirão mergulhos à deriva em
condições de correnteza, e precisamos tomar muito cuidado para que não haja
acidentes".
Tecnologia
O mergulhador Paulo Francisco da Silva, o ‘Big Paul’, ressalta que uma
grande aliada e facilitadora do projeto FISH-ID é a tecnologia. "é grande
a importância dos computadores de mergulho, que registram o perfil do mesmo a
cada 15 segundos, e das máquinas digitais, que nos permitem, com o cartão de
1GB, em resolução de 3 MB, tirar até 700 fotos, o que aumenta e muito ao
porcentagem de acerto na contagem e identificação".
"O projeto FISH-ID é uma maneira de despertar a curiosidade dos
mergulhadores pelas espécies, sabendo o que estão vendo e fotografando",
diz Ana Paula. "É uma maneira lúdica de criar nas pessoas
consciência sobre a necessidade da preservação. Quanto mais pessoas
atentas à fragilidade e riqueza da vida na Laje, mais ‘zeladores’
teremos. É necessário fazer com que todos entendam que se trata
do NOSSO Parque. Nosso único Parque Marinho. O quintal de nossa
casa. O melhor local de mergulho paulista, um dos melhores do Brasil".
Fazendo um trocadilho com a fala de Dori no filme Procurando Nemo, continue a
cantar, continue a cantar, continue a nadar, na-dar, na-dar....para achar a
solução...PRESERVAR !
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Fotos: Rodrigo Thomé
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