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Entrevista: Eric Cheng
Sempre tive um fascínio enorme pela vida marinha, assim, quando eu
tive a oportunidade de entrevistar um fotógrafo que se especializou em um
único gênero, busquei imediatamente Eric Cheng, um fotógrafo
subaquático com reside em San Francisco.
Eric é o vencedor de diversos prêmios e concursos, fundador de uma
comunidade on-line para os fotógrafos subaquáticos, editor de uma
revista impressa trimestral, e organiza frequentemente expedições de
fotografia e workshops em todo o planeta. Ele é graduado em duas
categorias em ciência da computação em Stanford e toca violoncelo.
Infelizmente, ele só tem tempo para sua garota, que é um tubarão tigre de
4m, residente nas Bahamas e chamada Emma. |
Como você começou na fotografia subaquática ?
Apesar de eu ter me interessado por fotografia desde o colegial, tinha 25 anos
quando descobri a fotografia subaquática. Aos 19 anos, comecei com um
aquário de água salgada, que despertou um fascínio sobre os peixes e
outras espécies marinhas. Me tornei mergulhador logo após, mas só fiz cerca
de 20 mergulhos durante os seis primeiros anos. Por um capricho, planejava uma
viagem de mergulho para Palau, viagem de mergulho da minha, comprei então uma
caixa estanque Ikelite para a minha câmera digital Nikon Coolpix 990. Era
viciado e os meus interesses na vida marinha e da fotografia fundiu e mudou a
minha vida !
Quanto tempo você gasta saindo para mergulhar ? O que é um dia típico na
vida de um fotógrafo subaquático quando está em missão ?
Gasto cerca de metade do meu tempo mergulhando.
É engraçado, mas todo mundo acha que eu estou sempre de férias o tempo
todo, mas um dia típico é longo e cansativo. Fazemos entre três e cinco
mergulhos por dia, com um intervalo de superfície entre cada mergulho, e uma
foto muito bonita ocupa todas as horas entre a manhã e a noite. Além disso,
uma grande parte do tempo é gasto para baixar as fotos, fazer backup,
organização e edição. Em casa, estou constantemente conectado aos
computadores e à Internet. A fotografia subaquática me leva a alguns dos
locais mais remotos do planeta, onde não há acesso à Internet, e quando isso
acontece, o ritmo de vida diminui, mesmo com tanta carga movimentada.
O quanto é diferente é a fotografia subaquática quando comparada com a
fotografia paisagística ?
Em alguns aspectos, são semelhantes. Ambos os gêneros, exigem uma conexão
com a natureza. Uma compreensão de que estamos ali para captar o que a natureza
pode lançar em nosso caminho, e que isso pode levar um pouco de tempo para que
o evento ocorra. Mas os fotógrafos subaquáticos mergulham em um ambiente
incrivelmente rígido, onde geralmente é cheio de adrenalina e um espetáculo
em movimento rápido.
Em uma operação, às vezes pode ser complicado lidar com os fotógrafos
subaquáticos sendo jogados na superfície do mar em meio as fortes correntezas.
Quase todos os animais de recife nos oceanos possuem elementos urticantes, e os
que não possuem, estão sempre fugindo de nós. Levamos nossa própria
iluminação subaquática, porque a potência da luz é sugada pela água. Para
se ter uma idéia, mesmo com os grandes e pesados flashes strobos, um objeto à
6 metros de distância da câmera já está considerado longe...
O que você mais gosta no fotografar debaixo d'água ?
Descobertas. Apesar do oceano cobrir a maior parte do nosso planeta,
realmente não sabemos muito sobre ele. Alguém pode mergulhar todos os dias
durante anos, e ainda assim, terá uma boa chance de ver algo novo.
Vi algumas de suas fotos de tubarões. Fotografar tubarões é assustador e
traz adrenalina, ou talvez ambos ? Você tem alguma história de tubarão meio
enlouquecido ?
Lembra quando disse que quase todas as minhas melhores fotos foram tiradas
até seis metros de mim ?
No caso dos tubarões, essa distância é ainda menor. A maioria delas foram
tiradas em apenas alguns metros de mim.
Na semana passada, coloquei uma câmera
GoPro na boca de um tubarão para que eu pudesse obter imagens do interior
dele.
A filmagem parece assustadora, mas o tubarão buscava apenas um pequeno
pedaço de peixe foi usado para chamar atenção dele. Se os seres humanos
fossem a presa do tubarão, não haveriam mais do que os cinco (média) mortos a
cada ano.
Tenho alguns casos de histórias de tubarão meio "louco" sim,
e vai uma...
O tubarão tigre mais famoso do mundo é chamada Emma. Ela vive nas Bahamas e
possui entre 3.5 e 4m de comprimento, dependendo de quem você perguntar.
Fotografei ela por quase cinco anos e pode identificá-la pelo seu comportamento
e marcações. Vi a Emma engravidar e emagrecer depois do parto, por duas
vezes. Emma trata pessoas diferentes de formas diferentes, como se ela tivesse os
"favoritos".
Você consegue imaginar isso ? Ela se aproxima e olha para
o Jim (capitão do
barco). Se ele não está na água ela vai embora, se ele está, ela fica por
alguns dias. Cada encontro com a Emma é especial porque pode ser o último,
tendo em vista que a caça dos tubarões tigres estão autorizados nas Bahamas.
Será trágico se Emma for morta, não só por causa do vínculo que se
formou com ela, mas porque custaria às Bahamas, milhares de dólares por ano, em
turismo perdido.
Os equipamentos fotográficos que você usa na fotografia subaquática diferem completamente dos demais fotógrafos. Que peças são cruciais para
a sua linha de trabalho ?
Todas as partes são cruciais. A embalagem é um tesouro porque eu tenho
centenas de pequenas peças pequenas que precisam ir juntas para que o meu
equipamento para funcione corretamente. Se um dos itens não funciona, alguma
característica importante da minha câmera ou equipamento deixará de estar
disponível.
Obviamente, os mais importantes são os anéis de vedação, que vedam a
câmera para evitar a inundação. Além disso, os sistemas elétricos das
embarcações normalmente são muito primitivos, e com isso, preciso viajar com
o maior número de peças redundantes que posso, como carregadores de
reposição, pilhas sobressalentes, cabos, câmera de reposição, dentre
outros.
Assumindo que todas as peças cheguem intactas, a habilidade é muito
importante no mergulho. Excelente controle de flutuabilidade e controle do corpo
na água são condições indispensáveis para a fotografia subaquática.
Se você cair no recife ou se debater no local para se posicionar em um
lugar, você terá pouca esperança de capturar uma excelente imagem.
A fotografia subaquática o leva à muitos lugares ao redor do mundo. Que lugar (ou lugares) é o mais memorável para você ?
Você pode nos
contar um pouco sobre isso ?
Escuto essa pergunta o tempo todo e nunca tenho uma resposta adequada. Cada
lugar que eu vou acaba tendo algo especial, e não há uma maneira de
classificá-los. Por exemplo, ir para a Indonésia, Papua Nova Guiné e Ilhas
Salomon, é encontrar uma diversidade marinha e recifes saudáveis; ir para as
Bahamas, Ilhas Galápagos, Ilhas Cocos, Polinésia Francesa, encontro com os
tubarões; já na Dominica, Ogasawara (Japão) e Tonga, encontro com as baleias. É muito difícil escolher
um que seja o mais memorável.
Você é editor de um canal de recursos importantes para os fotógrafos
subaquáticos. Você pode explicar como funciona ?
O Wetpixel.com é a
comunidade on-line para os fotógrafos subaquáticos e cinegrafistas. Trabalho
neste site desde 2001, e tornou-se extremamente gratificante fazer parte da
comunidade. Há em todo o mundo muitos fotógrafos subaquáticos e com os benefícios que o
Wetpixel vêm trazendo, se tornando um local de encontro dessas pessoas.
A Wetpixel Quarterly é uma revista impressa trimestral com o melhor em
fotografia subaquática. Eu a chamo de "revista", mas é realmente um
pequeno livro de mesa. É universalmente aclamada pelos entusiastas marinhos,
porque expomos belas e atraentes imagens, ao invés de imagens para vender
publicidade. Infelizmente, a impressão parece estar indo embora, e estamos no
processo de descobrir como manter um produto impresso sem quebrar o caixa.
Parece que um monte de fotógrafos subaquáticos são completamente
apaixonados pela conservação marinha. Na sua percepção, qual a importância
da fotografia para o sucesso da conservação ecológica ?
Gostaria de pensar que a fotografia é muito importante para o sucesso da
conservação marinha. A grande maioria das pessoas neste planeta provavelmente
nunca pôs os pés no oceano. Vivo na Califórnia e a maioria dos meus amigos
aqui, nunca fizeram mais do que mergulhar os pés na água. As pessoas são
fascinadas pelo mar, mas acabam tendo medo, e ninguém realmente se preocupa com
o que acontece com o oceano, porque não é parte do seu cotidiano. Ainda
assim, diversas pessoas que viram minhas imagens e entra em contato para dizer
que minhas fotos
os fez pensar sobre o oceano de forma diferente, o que me trás força para
continuar a partilhar meu trabalho. Ainda os vejo comer camarão, de modo que
torna difícil pra mim ser otimista no longo prazo.
Que tipo de conselho você pode dar a alguém que está cogitando a entrar na
carreira de fotógrafo submarino ?
Realmente não tenho nenhum conselho para as pessoas que querem entrar para a
fotografia subaquática como uma carreira. É quase impossível viver disso e
muitas pessoas lá fora que publicam fotos, lutam pra ganhar a vida com isso. Os
custos iniciais são extremamente elevados, e se você começar em uma área
relacionada ao mergulho, você provavelmente nunca irá ganhar
dinheiro suficiente para comprar um equipamento decente de fotografia
subaquática.
Eu sempre recomendo ter uma educação adequada. Estudar algo útil e
prático. Algo que dê dinheiro suficiente para comprar uma câmera, lentes,
caixa estanque e acessórios, e começar a fotografar nos tempos livres.
Publique seu trabalho em sites na web ou em sites como o Wetpixel. Se você for
bom, será notado e as oportunidades virão até você !
Eric, muito obrigado por compartilhar suas histórias nos mostrando seu vasto
mundo subaquático da fotografia !
Para mais detalhes sobre o Eric Cheng e seu trabalho, acesse seu site pessoal
www.echeng.com .
Essa entrevista foi realizada e cedida gentilmente por David Smith do site Small
Aperture, sob autorização de Eric Cheng ao Brasil Mergulho.
David Smith é um chefe de sushi e foi proprietário de sushi bar e clube nocturno em Atlanta, Geórgia. Depois de vender o seu negócio, mergulhou de cabeça na fotografia e não olhou para trás desde então.
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