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Descompressão sem sair do fundo
O uso do BMX
(Benthic Mix Switching) como técnica de redução dos tempos de
descompressão em mergulhos de longa exposição com rebreathers de
circuito fechado (CCR)
Sem dúvida o ar é a mistura mais empregada para o
mergulho, mesmo nos dias atuais onde as misturas respiratórias outras
tornaram-se comuns. As primeiras tabelas de descompressão criadas no
início de século 20 por Haldane, bem como as outras que se seguiram
no pós guerra (Royal Navy, US Navy, DCIEM, GRS, Bühlmann, etc.)
usavam e usam até hoje essencialmente o ar comprimido como modelo.
O mergulho convencional com ar comprimido em muitos
perfis empregados no mergulho recreativo empurram o mergulhador com
frequência para dentro dos limites de descompressão. Inúmeras
técnicas, manobras tem sido propostas para reduzir ou abolir estas
tão indesejadas paradas descompressivas. O emprego das tabelas de
mergulho recreativo, de computadores, o nitrox, a descompressão
acelerada com O2, o uso de dispositivos para mergulho em multinível
(The Well da PADI), softwares de mergulho, uso de PPO2 constante nos
rebreathers, desnitrogenação na superfície com O2 previamente ao
mergulho, são algumas destas técnicas.
Outra técnica não é tão empregada, apesar de
ter sido descrita há mais de 40 anos em estudos efetuados por
especialistas de descompressão, é a troca de misturas no fundo (BMX
– Benthic Mix Switching). Imagine que um mergulhador inicie um
mergulho com heliox (He + O2) e no meio do mergulho ele efetua uma
troca por nitrox. No início do mergulho haverá a captação do
hélio pelo organismo e quando houver a troca de misturas no fundo o
Hélio será eliminado e o N2 será captado. O resultado disso, se bem
programado, é uma redução da ordem de 30 a 40% do tempo de
descompressão. Resta saber a razão de uma técnica que reduz os
tempos de descompressão como nenhuma outra ainda ser tão pouco
empregada.
Os primeiros estudos sobre a vantagem da troca de
gases com a finalidade de otimizar a descompressão datam de 1959 com
Keller e Bühlmann(7), seguido pela US Navy em 1962. Outros
estudos correlatos sobre trocas gasosas foram feitos por Idicula e
Lambertsen em 1973(4), D’Aoust e Cols em 1977 e 1983(5),
Yount em 1982, Doolette e Mitchell(8), 2003, Taylor em 2003
e 2005(2). Este último fez experimentos na NOAA (National
Oceanic and Atmospheric Administration) com sucesso introduzindo a
terminologia BMX (Benthic Mix Switching) para se referir a esta
técnica.
Levar misturas de heliox, nitrox, oxigênio para um
mergulho entre 30 e 40 metros para obter vantagens descompressivas
pode não ser vantajoso para um mergulhador técnico de circuito
aberto, pois a quantidade de cilindros, o custo do hélio para esta
profundidade, podem não compensar, mas no mergulho com circuito
fechado (CCR), estas desvantagens desaparecem, pois o consumo de gases
caros como o Heliox é muito pequeno, sem falar que a redução dos
tempos de descompressão expõe menos o SNC (sistema nervoso central)
do mergulhador aos limites de tolerância do oxigênio, o que traz
mais segurança, principalmente em mergulhos de longa exposição.
A lógica dessa técnica
O nitrogênio (N2) é cerca de 1,5 a 2 vezes mais
solúvel (Coeficiente de Solubilidade de Ostwald) que o hélio (He),
que por sua vez é cerca de 3 vezes mais
difusível (Coeficiente de Difusão de Krogh) que o N2 no corpo humano
a 37º C(1). A solubilidade determina a quantidade de gás
que se dissolve no corpo ao passo que difusibilidade é a velocidade
com que este gás se dissolve no corpo. Em outras palavras, o nosso
organismo tem a capacidade de captar mais 1,5 a 2 vezes mais N2 que
He, porém o hélio é captado ou eliminado cerca de 3 vezes mais
rápido que o N2.
Quando se faz um mergulho com Heliox e em seguida
se troca por Nitrox ou ar, após a troca o hélio é eliminado
rapidamente ao passo que o N2 e captado em uma velocidade cerca de 3
vezes menor. Isto resulta em uma queda do gás total dissolvido do
corpo durante vários minutos, reduzindo com isto o tempo total de
descompressão (Fig.1)

Fig.1. Mostra a saturação tecidual de gases em
função do tempo em um mergulhador que realizou troca de gases. Este
mergulho foi iniciado com Heliox e após houve a troca por ar
comprimido. Pode-se notar que momentos após a troca de gases a
saturação tecidual total (linha rosa) cai consideravelmente.
Já o inverso não se releva eficiente, pois se um
mergulhador fizer o primeiro mergulho com ar ou nitrox e depois trocar
para o Heliox, o hélio, após a troca seria captado rapidamente ao
passo que o N2 seria eliminado mais lentamente. Isto, mesmo sem
alterar a profundidade, leva a um estado de aumento do gás inerte
total que prolonga de forma considerável o tempo de descompressão,
até mais se comparado com o uso independente do nitrogênio ou do
hélio (Fig.2).

Fig.2. Mostra a saturação tecidual de gases em
função do tempo de um mergulhador que realizou troca de gases. Este
mergulho foi iniciado com ar ou Nitrox que num dado momento foi
trocado por heliox. Pode-se notar que momentos após a troca de gases
a saturação tecidual total (linha rosa) aumenta consideravelmente.
Este fenômeno, onde dois gases com coeficientes
diversos de difusão são absorvidos e eliminados ao mesmo tempo pelo
corpo humano é conhecido como Contradifusão Isobárica. Taylor em
2008 (2) referiu-se a esta técnica chamando-a Benthic Mix
Switching, como sendo a "Boa Contradifusão Isobárica". O
termo contradifusão isobárica foi empregado pela primeira vez por
Idicula e Lambertsen em 1973 (4), apesar deste fenômeno
ter sido descritos há cerca de 10 anos antes. É um termo familiar no
mergulho técnico, sendo empregado para definir o estado de
supersaturação de um tecido induzido pela troca de gases a uma mesma
pressão.
No mergulho técnico, bem como no científico, de
muitas marinhas e ocasionalmente no mergulho profissional, a troca de
gases ricos em hélio como Trimix pelo Nitrox foi e ainda é emprega
com a finalidade de acelerar a descompressão.(2)
Realmente, do ponto de vista físico simplório, traduzido pelos
algoritmos de mergulho, ela acelera o processo de descompressão, pois
além de aumentar a janela de oxigênio da mistura respiratória,
diminuindo a pressão parcial dos gases inertes envolvidos, consegue
também promover a mudança do gás inerte respirado para nitrogênio,
que é captado em velocidade mais baixa pelo organismo. Apesar dessas
vantagens, essa técnica tem sido implicada no aparecimento de doença
descompressiva (DD) vestibular e cutânea, mesmo em perfis de mergulho
em que o mergulhador respeitou todo o procedimento descompressivo
ditado pelo algoritmo. Certamente a física implicada na dinâmica de
gases dos compartimentos, principalmente na região vestibular, não
seja tão simples quanto pareça. Este seria o lado "mau" da
contradifusão isobárica.
Por outro lado, a troca de gases feita no fundo,
diferente da feita durante a descompressão, geralmente não leva o
mergulhador a supersaturação, exceto se fizer mergulho saturado
(tempo de fundo superior a 12 horas). A troca de gases com o corpo
saturado para uma dada pressão, como ocorre durante a descompressão,
independente da ordem do gás usado, leva ao aumento do gás inerte
total nos tecidos, induzindo ao aparecimento de bolhas e eventualmente
ao aparecimento da DD vestibular e cutânea. (5,
6, 7, 8)
D’Aoust BG e Cols em 1977 fizeram experimento com
cobaias e das 8 cabras expostas a 17 horas de mergulho a 40,2 e 60,35
metros de água salgada com nitrogênio e PPO2 de 0,3 ATAs (mergulho
saturado). Após este período a mistura foi trocada por hélio na
mesma PPO2 (0,3 ATAs). Em seguida foi feito um estudo com Doppler na
veias cava destes animais. Cinco minutos após a troca já pôde-se
observar bolhas. No grupo dos 40,2m as primeiras bolhas foram
detectadas após 20 min e continuaram por um período de 4 horas. No
grupo de 60,35m as bolhas foram detectadas antes de 30 min e se
prolongaram por 10 -11 horas. Não foram observadas sinais de DD
nestes animais. (5)
Além dos experimentos de D’Aoust BG e Cols,
estudos feitos em 1971 no Instituto de Medicina Ambiental da
Universidade da Pennsylvania em uma série de mergulhos feitos com
misturas de nitrogênio-oxigênio e neônio-oxigênio que foram
trocadas por heliox, resultaram no aparecimento de lesões cutâneas e
vestibulares. (2)
Blenkarn e Cols em 1971, observaram em um mergulho
de saturação a 60m respirando heliox que após a troca por uma
mistura normóxica de nitrogênio, sem alterar a pressão, que
mergulhadores apresentaram DD cutânea caracterizada.
(6)
O uso do BMX (Benthic Mix Switching)
É uma técnica descrita por Taylor em 2008 e
aplicável em estudos práticos da NOAA, usada dentro dos limites do
mergulho com ar (50m), principalmente na parte profunda de operação
das misturas Nitrox, onde os requisitos de conhecimentos sobre
misturas de gases, manejo de cilindros duplos, stages ou rebreathers
ou até sistemas dependentes se fazem necessários. O emprego de
softwares de mergulho é importante no planejamento, sem o qual fica
difícil, se não impossível, planejá-lo.
A faixa de profundidade que se pode ter melhor
rendimento com o BMX fica entre 20 e 50 metros. Em profundidades
menores que 15 m o uso do nitrox ou ar (como diluente nos rebreathers)
parece ser mais vantajoso mesmo nos perfil com longo tempo de fundo
(TF). Abaixo dos 50 metros geralmente não se aplica, pois o uso de
trimix é quase uma unanimidade e se fazer misturas com proporções
diferentes de trimix certamente traria implicações logísticas que
superariam as vantagens sobre o tempo de descompressão mesmo usando
rebreathers.
Como planejar as misturas e sua distribuição no tempo de fundo
Tanto nos aparelhos de circuito aberto (OC) quanto
nos de circuito fechado (CC) deve-se preparar o heliox e nitrox com
percentagens adequada para as profundidades e tempos. Nos mergulhos
abaixo dos 35 metros com TF prolongado pode ser requerido misturas
hipóxicas (abaixo de 21%) para que o CNS (coeficiente de
intoxicação neurológica pelo O2) não extrapole o limite
de segurança do relógio de oxigênio, cuja exposição máxima
recomendada pela maioria das certificadoras se situa em 80%. Nestes
casos, pode-se fazer necessário a disponibilidade de nitrogênio puro
para a confecção de misturas N2/O2 hipóxicas. Os cuidados
adicionais devem se adotados sobretudo nos mergulhos com circuito
aberto, para que estas misturas não sejam inaladas na superfície ou
em profundidades rasas sob o risco de hipoxemia.
A ordem das misturas deverá ser sempre o heliox em
primeiro lugar seguido da mistura com nitrogênio. A relação de
tempo de inalação entre as duas misturas que parece oferecer maior
eficiência se situa em torno de 50% do tempo de fundo com heliox
seguido de 50% da mistura contendo nitrogênio. Em perfis de mergulhos
rasos em torno dos 20m e TF tal quanto 200 min a proporção ideal de
tempo é de He 25% / N2 75%, ou seja, He 50min / N2
150min ao passo que se este TF for de 240 min a proporção de tempo
ideal modifica-se para He 66% / N2 33%, ou seja, He 160min
/ N2 80min (tabela 1). É de boa técnica que durante o
planejamento se faça simulações com algoritmos de descompressão
para se identificar a proporção de tempo ideal, que irá variar de
acordo com a profundidade e misturas utilizadas.
Comparativos usando misturas Trimix e o BMX
Esta solução simplificaria bastante a logística
do mergulho, mas infelizmente não reduz significativamente o tempo
total de descompressão (TTD), se comparado com ar. Em algumas
simulações feitas no V-Planner obtivemos a economia do TTD entre o
BMX e trimix médio (como se misturasse o ar e heliox meio a meio –
Tx 20/40) em média de 30% (tabela 1).
Tabela 1
Tempo de Fundo = 240 min
|
BMX em diferentes tempos de heliox / Ar
(min/min)
|
|
Prof (m) |
40/200 |
80/160 |
120/120 |
160/80 |
200/40 |
Ar |
Tx 20/40 |
BMX / Ar (%) |
BMX /Tx (%) |
|
15 |
0 |
0 |
0 |
0 |
0 |
0 |
0 |
|
|
|
20 |
25 |
16 |
8 |
0 |
0 |
74 |
28 |
100,0 |
100,0 |
|
30 |
135 |
107 |
96 |
110 |
136 |
163 |
159 |
41,1 |
39,6 |
|
40 |
287 |
243 |
225 |
234 |
262 |
332 |
323 |
32,2 |
30,3 |
|
50 |
471 |
407 |
369 |
362 |
375 |
537 |
500 |
31,3 |
26,2 |
Tempo de Fundo = 180 min
|
BMX em diferentes tempos de heliox / Ar (min/min)
|
|
Prof (m) |
30/150 |
60/120 |
90/90 |
60/120 |
150/30 |
Ar |
Tx 20/40 |
BMX / Ar (%) |
BMX /Tx (%) |
|
20 |
16 |
9 |
0 |
0 |
0 |
23 |
17 |
100,0 |
100,0 |
|
30 |
99 |
78 |
80 |
80 |
98 |
120 |
116 |
33,3 |
31,0 |
|
40 |
213 |
181 |
167 |
173 |
195 |
247 |
238 |
32,4 |
29,8 |
|
50 |
353 |
303 |
275 |
275 |
296 |
401 |
385 |
31,4 |
28,6 |
Tempo de Fundo = 60 min
|
BMX em diferentes tempos de heliox / Ar (min/min)
|
|
Prof (m) |
10/50 |
20/40 |
30/30 |
40/20 |
50/10 |
Ar |
Tx 20/40 |
BMX / Ar (%) |
BMX /Tx (%) |
|
20 |
2 |
0 |
0 |
0 |
2 |
0 |
2 |
|
|
|
30 |
28 |
20 |
17 |
18 |
12 |
34 |
31 |
64,7 |
45,2 |
|
40 |
67 |
56 |
51 |
52 |
52 |
77 |
74 |
33,8 |
31,1 |
|
50 |
117 |
100 |
89 |
86 |
84 |
130 |
123 |
35,4 |
27,6 |
A tabela acima mostra a comparação dos TTDs em
minutos entre cinco tipos de BMX (tempo em min com heliox / tempo em
min com ar), ar e trimix 20/40 usados em algumas profundidade durante
60, 180 e 240 minutos de tempo de fundo (TF). Para estas simulações
foi usado o software de descompressão V-Planner, versão 3,82, criado
por Ross Hemingway, no modo de circuito fechado (CCR).
Usando PPO2 de 1,0, diluentes heliox
21/79 e ar. O conservadorismo adotado foi de +3 (22%).Onde se lê BMX
/ Ar se deve entender o percentual de redução de tempo do menor TTD
obtido pelo BMX em relação ao ar; da mesma forma, onde se lê BMX
/Tx será o percentual de redução de tempo do menor TTD obtido pelo
BMX em relação ao Trimix 20/40 e BMX/Ar - BMX/Tx é o percentual de
redução de tempo do Trimix 20/40 sobre o ar.
Notar que esses perfis de mergulho foram simulados
apenas com a finalidade de comparar a eficiência do método BMX em
relação ao ar e Trimix, sendo certo que alguns dos perfis de
mergulhos desta tabela extrapolam o CNS, não devendo portanto serem
adotados em situação real de mergulho. As células em amarelo
destacam os menores TTDs.
O mergulho de teste realizado em Salvador
Já era de algum tempo a vontade de planejar um
mergulho de longa exposição usando rebreathers no naufrágio do
Galeão Sacramento (32 metros) em Salvador, por se tratar de um belo
sítio de mergulho, que merece uma exploração mais aprofundada,
principalmente em seu entorno. Durante conversas travadas entre os
mergulhadores Eduardo Davidovich (DOC), Bruno Fagundes e László
Mocsári sobre o planejamento ideal para realizar esse mergulho, cujo
planejamento inicial previa 3 horas de tempo de fundo, o DOC sugeriu o
aproveitamento de uma mistura diluente Trimix 10\50 que estava
disponível em Salvador para obtermos alguma vantagem descompressiva
nesse mergulho, pois com esse longo tempo de fundo alguns
compartimentos já estavam em vias de saturação.
Desse insight inicial, o mergulhador Bruno Fagundes
apresentou a todos o texto de Taylor publicado na Advanced Divers
Magazine de outubro/2008, relatando experiências da NOAA com trocas
isobáricas Heliox/Nitrox para a obtenção de vantagens
descompressivas significantes, principalmente na parte profunda do
Nitrox. Após a leitura desse artigo, decidimos abandonar a idéia
inicial de aproveitar a mistura Trimix 10\50 já disponível e
partimos para a confecção de novas misturas diluentes Heliox, mais
adequadas para o fim proposto.
O planejamento consistiu no estabelecimento de 4
horas de tempo de fundo a 32 metros de profundidade, em um mergulho de
perfil quadrado, como é normalmente o realizado no Galeão
Sacramento. Na primeira parte desse mergulho os mergulhadores Bruno
Fagundes e László Mocsári, ambos utilizando rebreathers de circuito
fechado Innerspace Systems Megalodon com eletrônica primária APECS (Advanced
Personal Environmental Controller System), iriam utilizar
o gás diluente Heliox 30, sendo que, após um determinado período de
tempo respirando essa mistura rica em hélio, promoveriam a lavagem do
circuito (flush) para uma mistura EAN 32, com o fim de obter a
desejada vantagem descompressiva. A escolha de misturas diluentes com
uma PpO2 maior que 1.0 no fundo foi em decorrência de considerações
logísticas no preparo dessas misturas, bem como da preservação do
gás oxigênio onboard dos rebreathers durante as necessárias
lavagens do circuito (flush), já que o tempo total de mergulho
planejado poderia se estender para próximo de 7 (sete) horas de
imersão.
Em mergulhos de longa exposição com rebreathers
de circuito fechado, já que o consumo de gás com esses equipamentos
é muito baixo, um dos grandes fatores limitantes, junto com o tempo
de scrubber, é justamente a exposição do SNC ao oxigênio. Assim,
ao obtermos um menor tempo de descompressão usando o método BMX, com
trocas isobáricas entre os gases diluentes Heliox/Nitrox,
consequentemente conseguimos também diminuir o tempo total de
mergulho, com redução significativa da exposição ao oxigênio, o
que traz mais segurança para o mergulho.
Nesse mergulho em particular o mergulhador László
Mocsári utilizou um rebreather Megalodon APECS 2.7, com eletrônica
secundária Liquivision X1, ao passo que Bruno Fagundes usou o mesmo
tipo de rebreather, só que com eletrônicas primária e secundária
APECS 2.5. Ambos os equipamentos ainda estavam utilizando o novo
scrubber (depurador de CO2) de desenho radial da Innerspace Systems,
que tem a capacidade de 3,6 Kg de Cal Sodada granular.
Durante esse mergulho, Bruno Fagundes carregou o
seu scrubber com Cal Sodada Atrasorb Subaquática Super, de nova
formulação e testada pela fábrica no Submarino S34 Tikuna e que foi
gentilmente repassada pela fábrica para testes de longa exposição
com rebreathers, ao passo que László Mocsári usava Cal Sodada
Atrasorb médica. Ambos os tipos de Cal Sodada, na granulação 4.5
mm, se mostraram confiáveis com esse tipo de scrubber durante esse
mergulho de longa exposição – cerca de 7 horas - com rebreathers.
O Set. Point utilizado foi 1.0 PpO2. Foi seguido um
perfil quadrado a 32m pelo período de 240 min (4 horas), tempo em que
estava planejado a realização de uma busca no entorno do naufrágio,
com o fim de verificar a existência de novos pontos interessantes de
mergulho naquela região. Nos primeiros 120 min usamos como gás
diluente o Heliox 30, sendo que programamos a troca por EAN de forma
defasada. Em primeiro lugar, o mergulhador Bruno Fagundes realizou a
troca aos 110 minutos de uso do Heliox, ao tempo que László Mocsári
realizou a sua troca aos 120 minutos.
O objetivo dessa defasagem de 10 min entre as
trocas foi em nome da segurança dos mergulhadores, pois isso iria
permitir observar o aparecimento de alguns sinais e sintomas
inesperados, sendo que se o primeiro mergulhador apresentasse algum
problema nos primeiros minutos, o segundo poderia ajudá-lo no
resgate, com o abortamento do mergulho de ambos. Além disso, o
primeiro mergulhador a fazer a troca, Bruno Fagundes, estava equipado
com uma FFM (Full Face Mask) Drager Panorama e uma BOV (Bailout Valve)
Golem Vario, equipamentos que facilitam o manejo de uma eventual
doença descompressiva vestibular na água.
Imediatamente após a troca, como previsto nos
experimentos da NOAA relatados por Taylor em seu artigo como sendo um
"momentary buzz", notamos sintomas de narcose, como
dificuldade em ler os instrumentos no caso de Bruno Fagundes e ligeira
tontura no caso de László Mocsári, que foi fugaz e durou no máximo
5 minutos. Durante o procedimento de trocas das misturas diluentes, os
mergulhadores ficaram monitorando atentamente a PpO2 do circuito, a
freqüência respiratória ou o aparecimento de dores de cabeça, para
tentarmos diferenciar alguma eventual intoxicação pelo O2 ou
retenção de CO2, visto que, a tontura é um sintoma que pode estar
presente em qualquer problema da composição da mistura (hiper ou
hipóxia, retenção de CO2 e narcose pelo N2). Além dos sintomas de
narcose foi percebida marcantemente o aumento da resistência
respiratória no circuito dos rebreathers, causado pelo aumento da
densidade oferecida pela troca do hélio pelo nitrogênio, mesmo nessa
profundidade moderada de 32 metros.
Além do planejamento que carregavam, cada um dos
mergulhadores portava um VR3 e um X1 da Liquivision, sendo que o de
László era integrado ao circuito do rebreather, lendo as três
células de oxigênio do sistema. Após as trocas, os computadores
foram reajustados para a nova mistura diluente EAN e imediatamente os
tempos de descompressão (TTD) começaram a cair, mesmo que os tempos
de fundo aumentassem. Por isso comentamos, em tom de brincadeira, que
estávamos "fazendo uma descompressão sem sair do fundo."
No Liquivision X1 de László, equipado com o
software V-Planner Live, o TTD caiu e se manteve estável por cerca de
90 minutos, para então começar a subir lentamente. Já no X1 stand
alone (SA) de Bruno, que por sua vez rodava o software GAPX1, a queda
de TTD também ocorreu de forma acentuada e se manteve estável por
cerca de 80 minutos. Os tempos totais de descompressão ao longo deste
mergulho estão expostos na linha vermelha do gráfico abaixo:

Esse gráfico mostra a relação entre o tempo de
fundo (TF) e o tempo total de descompressão (TTD) em minutos em
simulações de 4 perfis de mergulho a 32 metros. Estes dados foram
coletados através do software V-Planner, usando PPO2 constante de 1,0
ATA e conservadorismo de +3, que foram os parâmetros usados durante
esse mergulho. A linha vermelha mostra o BMX feito por nós no dia
18/5/2009 que teve o tempo de fundo (TF) de 240 min, sendo que 120min
de heliox e 120min de EAN. A linha lilás simula o mesmo mergulho se
fosse feito com ar apenas. A azul usando heliox apenas e a verde se
fosse usado o BMX invertido, ou seja, usado ar em primeiro lugar
seguido por heliox nas mesmas proporções de tempo (ar 120 min
seguido de heliox 120 min). No BMX feito por nós, pode-se observar
que após a troca o TTD quase que não se alterou por quase 90 min,
seguido de uma ascensão lenta.
Para a execução desse longo mergulho, cada um dos
mergulhadores levou 600 litros de onboard, 200 litros de Heliox 30
onboard, além de EAN 32 (S40 - Offboard e Bailout), EAN 50 (S80
Bailout) e O2 (S40 Bailout). O mergulho transcorreu dentro do
previsto, exceto pelo fato do tempo ter virado ao ponto do da
garatéia do nosso barco ter se desgarrado, que nos obrigou a fazer
descompressão por cerca de uma hora no cabo do decomarker amarrado ao
naufrágio, para então passarmos a fazer a deco no cabo de
descompressão amarrado à embarcação, no momento de seu retorno ao
sítio do galeão.
A importância da lavagem do circuito no BMX
Mesmo mergulhando a uma profundidade constante
(condição isobárica), usando um rebreather a uma PPO2 constante, a
composição dos diluentes pode variar ao longo do mergulho quando se
usa a técnica de troca de misturas gasosas. Isso porque um dado
mergulhador inicia um mergulho de perfil quadrado, com heliox após
ter deixado a superfície onde estava respirando ar atmosférico.
Durante a permanência no fundo, o hélio será
captado e o N2 proveniente da superfície será eliminado para o loop
alterando a sua composição. No segundo momento após a troca do
heliox pelo ar, apesar do mergulhador ter feito uma boa lavagem do
circuito, após algum tempo, o hélio que foi captado na fase anterior
será jogado para dentro do circuito ao passo que o N2 será captado,
contribuindo novamente para misturar a composição dos diluentes. Os
softwares de mergulho e computadores, mesmo os integrados ao circuito,
infelizmente ainda não levam em conta este fato, pois a análise só
é da PpO2 e não da PpN2/PpHe.
Quantificando o quantum de captação e
eliminação dos gases na técnica BMX
A solubulidade (S) conferida pelo coeficiente de
solubilidade de Ostwald (mL de gás por mL de tecido) do N2
nos tecidos corpóreos a 37º C é de 0,0157 e para o hélio nestas
mesmas condições é de 0,0104. O cálculo do gás total do corpo é
dada pela seguinte fórmula:
Gtot = m . Sgas . PPgas
Onde Gtot é o gás total
dissolvido no corpo após atingir o estado de equilíbrio em litros, m
é a massa corpórea em Kg, Sgas solubilidade de
Ostwald de um dado gás (mL de gás por mL de tecido) e PPgas
é a pressão parcial do gás na qual o corpo foi saturado. Então um
homem de 80 kg ao nível do mar tem dissolvido em seu corpo:
Equação 1:
GN2
= m . SN2 . PPN2
GN2 = 80 . 0,0157. 0,79
Gtot = 0,992 L de N2
Ou seja, um homem de 80kg ao nível do mar tem
aproximadamente 1L/ N2 dissolvido no seu corpo. No perfil
de mergulho quadrado de 30m / 120 min com heliox 21/79 seguido pela
troca de ar por mais 120 min com PPO2 de 1,0 ATA durante
todo o mergulho, como ficaria na pior das hipóteses a composição
dos gases no circuito que tem um volume de 4L:
1. Mergulhador deixou a superfície: 0,992L/ N2;
2. Lavou bem inicialmente o circuito com heliox e
passou a respirar por 120 min sem lavar o circuito a 30m (4 ATA).
Após estes tempo, respeitando-se as meias vidas teciduais (t ½ ) e a
proporcionalidades dos diversos tecido corpóreos, podemos calcular
que aproximadamente 0,492L de nitrogênio são eliminados, ao passo
que 2,63L de hélio são captados pelo mergulhador.
Ao final dos 120 min de heliox o mergulhar tem um
Valor-M para o hélio de 21,7m ou 3,17 ATA (V-Planner). O que vale
dizer que tem:
Equação 2:
GHe = m . SHe . PPHe
GHe = 80 . 0,0104 . 3,17
GHe =2,63 L de hélio dissolvido no corpo
(captado)
Ou seja, após 120 min de heliox a 30m a PPO2 de
1,0 o mergulhador captou 2,63L de hélio.
3. O mergulhador realiza a troca do heliox por ar
fazendo apenas uma efetiva lavagem do circuito no momento da troca. Ao
final do segundo período de 120min qual será a composição dos
gases no circuito:
Sabe-se que ao final do 1º período ele tinha
dissolvido no corpo 0,492L de N2 e 2,63 L de hélio e no
final do 2º período, respeitando-se as meias vidas teciduais (t ½ )
e a proporcionalidades dos diversos tecido corpóreos, pode-se
calcular que aproximadamente 3,81L de N2 são captados, ao
passo que 2,07L de He são eliminados pelo mergulhador.
Ao final dos 120 min de ar o mergulhador tem um
Valor-M para o N2 de 20,4m ou 3,04 ATA (V-Planner). O que
vale dizer que:
Equação 3:
GN2 = m . SN2 . PPN2
GN2 = 80 . 0,0157 . 3,04
GHe =3,81 L de N2 dissolvido no corpo
(captado)
Tabela da composição dos gases no interior do circuito na
técnica de BMX na profundidade de 30m
|
|
Início 1a fase 120 min (%) |
Após 120 min de heliox (%) |
D 1a fase (%) |
Início na 2a fase 120 min
(%) |
Após 120 min de ar (%) |
D 2a fase (%) |
|
N2 |
0 |
3,6 |
-3,6 |
75 |
61,51 |
13,49 |
|
He |
75 |
71,7 |
3,3 |
0 |
14,51 |
-14,51 |
|
O2 |
25 |
25 |
0 |
25 |
25 |
0 |
|
Vcp |
100 |
100 |
13,75* |
100 |
100 |
10,87* |
Vcp é o volume do circuito que foi
considerado para cálculos como 4L. (*) indica o percentual de
redução do volume interno do circuito causado pelo balanço da
captação e eliminação de gases.
Estes valores mostram que durante a primeira fase
do BMX (heliox), mesmo que não se façam lavagens do circuito às
alterações da composição do circuito não são tão pronunciadas
quanto as da 2ª Fase (ar). A ausência de lavagem na 2ª fase,
pode-se ter a intenção de usar ar como diluente quando na realidade
pode-se estar usando um trimix 25/15, que certamente influenciará nos
resultados descompressivos.
Simulando no V-Planner o mergulho acima com a
composição dos gases do circuito constantes o TTD foi de 81 min. A
simulação foi feita em três fase: 120 min com heliox, 60min ar e 60
min com trimix 25/15 revelou um TTD de 97min, ou seja, 19,7% maior.
Nos mergulhos de rebreathers frequentemente se
requer a correção de volumes do circuito, ajustes da PPO2 que
obrigam a injeção de diluente ao circuito atenuando as alterações
que foram demonstradas acima, porém sempre se deve ter em mente que a
dinâmica de captação e eliminação de gases no circuito existe e
que pode influenciar de forma negativa a manobra descompressiva.
Lavagens (flush), com renovação do diluente, periódicas são
fortemente recomendadas, sobretudo nos momentos próximos que se
seguem as trocas de gases, pois é quando a captação e eliminação
são mais pronunciadas.
Trocas de misturas em mergulhos multiníveis
Como foi dito e até exemplificado acima, trocas de
gases, em estados de supersaturação podem ser problemática, pois
podem levar ao aumento do gás total e causar DD do tipo II. Imaginem
o seguinte mergulho multinível usando um rebreather:
|
Prof (m) |
TF (min) |
Mistura |
PPO2 |
|
30 |
30 |
Heliox 79/21 |
1 |
|
20 |
30 |
Heliox 79/21 |
1 |
|
15 |
30 |
Heliox 79/21 |
1 |
|
30 |
30 |
Heliox 79/21 |
1 |
|
18 |
60 |
Ar |
1 |
|
15 |
60 |
Ar |
1 |
Neste perfil de mergulho a troca de gases ocorreu
aos 10m de profundidade após mergulhos a diversas profundidades
abaixo desta. No final da fase de heliox deste mergulho, o mergulhador
teria o seu Valor-M aos 19,7m (V-Planner), ou seja, em profundidades
inferiores a esta ele estaria em estado de supersaturação tecidual
de hélio, sendo que a troca de gases, nestas condições, seria
desaconselhada, devido ao aumento do gás total, tendo o risco do
desenvolvimento de DD tipo II.
Conclusão
A técnica de trocas gasosas no fundo (BMX) pode
ser empregada com relativa segurança com objetivo de reduzir o tempo
total de descompressão desde que o mergulhador compreenda bem a
técnica. A sua aplicação com rebreathers parece ter melhor custo
benefício se comparado com o circuito aberto.
Alguns aspectos de segurança devem ser
ressaltados:
1. O risco de DD por contradifusão é algo de deve
ser considerado;
2. Se o mergulho for abortado por volta do tempo da
troca de gases, a descompressão deverá ser feira usando o heliox
como diluente ou outra mistura rica em hélio, e não o ar, sob o
risco aumentado de apresentar DD de contradifusão. Alguns autores
preconizam que o END (equivalent narcotic depth) da mistura de
descompressão deverá ser menor que 15m.3
3. Um dos stages de reserva deverá conter mistura
que contenha hélio para contemplar situações de emergência em que
o mergulho seja abortado por volta do tempo da troca;
4. Troca de heliox ou mesmo um trimix rico em
hélio pelo nitrox com o objetivo de acelerar a descompressão não
deverá ser feita sob condições de supersaturação. Para estes
casos recomenda-se empregar misturas contendo hélio. Um exemplo disto
é a substituição do EAN50% aos 21m pelo helitrox (Tx 50/25) com
algum incremento do TTD. 3
Referências
1. Lango T, Morland T, and Brubakk AO. Diffusion
coeffici entsand solubility coefficients for gases in biological
fluids: a review. Undersea Hyperb Med 23: 247–272, 1996.
2. Taylor GH. Counterdiffusion Dive. Using Benthic
Mix Switching to Reduce Decompression Time. Advanced Diver Magazine
ADM E-Zine #4: 17-23, out/2008.
3. Wienke BR e O’Leary TR. Diving OC Like a CCR,
Advanced Diver Magazine #22: 55-57, 2006.
4. Idicula J, Lambertsen CJ. Bubble Formation in
Physical and Biological Systems: A Manifestations of Counterdiffusion
in Composite Media. Science 179: 582 – 584, 1973.
5. D’ Aoust BG, Smith KH, Swanson HT, White R.
Venous Gás Bubble: Production by Transient Deep Isobaric
Counterdiffusion of Helium Against Nitrogen. Science 197 (4306): 889
– 891, 1977.
6. Blenkarn GD, Aquadro C, Hills BA, Saltzman HA.
Urticária Folowing the Sequential Breathing of Various Inert Gases at
a Constant Ambient Pressure of 7 ATA: A Possible Manifestations of
Gás-Induces Osmosis. Aerospaces Medicine Vol 42, 2: II-5-17 – 23,
1971.
7. Keller H, Bühlmann AA. Deep Diving and Short
Decompression by Breathing Mixed Gás. J. Appl. Physiol. 20:
1267-1270, 1965.
8.Doolette DJ, Mitchell SJ. Biophysical Basis for
Inner Ear Decompression Sickness. J Appl Physiol 94:2145-2150, 2003.
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