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Dietas com Restrição de Carboidratos e o uso dos Rebreathers
No mundo em que vivemos há um grande paradoxo, talvez o maior de
todos, metade das pessoas lutam contra a fome e a outra metade luta
contra o sobrepeso e obesidade. Estima-se que em nosso planeta cerca
300 mihões de pessoas são obesas1. Nos Estados Unidos,
35% da população é obesa e 32% tem sobrepeso, totalizando 67% com
problemas desta ordem 2. No Brasil estas cifras são
menores, cerca 35% para os portadores de sobrepeso e obesidade 3.
Parece não haver ainda um senso que indique qual a prevalência
destas entidades nos mergulhadores, mas provavelmente seja algo menor
do que estes valores expressos acima, porem certamente, uma boa parte
deles fazem alguma dieta para combater estas entidades.
Há muito se sabe que as dietas influenciam na produção de CO2
pelo organismo. Para a obtenção de energia o organismo oxida
preferencialmente carboidratos e para cada 10 moléculas de O2
usadas neste processo 10 de CO2 são produzidas 4.
Dietas pobres em carboidratos, fazem com que o organismo oxide
gorduras, reduzindo a produção de CO2 para a proporção
de cada 10 moléculas de O2 usadas neste processo 7 de CO2
são produzidas.
A relação de CO2 produzido (VCO2) sobre O2
(VO2) consumido é conhecida com quociente respiratório
(R). Isto é:
VCO2
R = ------------
VO2
Para uma pessoa com dieta normal, consumindo quantidades médias de
carboidratos, proteínas e gorduras o valor de R é considerado 0,825.
4
Em 1972 o Dr. Robert C. Atkins introduziu uma abordagem nutricional
para o combate da obesidade que foi publicada em seu livro intitulado
"A Dieta Revolucionária do Dr. Atkins" que foi e continua
sendo um dos mais vendidos no mundo. Apesar de ser criticada por
muitos, é comprovadamente a dieta mais eficaz para se perder peso,
sendo adotada, por milhares de pessoas pelo mundo.
Ela consiste em se restringir carboidratos que é o principal
substrato para a obtenção de energia do corpo, sendo assim o
organismo passa a obter energia a partir das gorduras e proteínas.
Com esta dieta a glicose, que é o principal carboidrato utilizado
pelo organismo, é produzida a partir das proteínas e gorduras pelo
processo conhecido como gliconeogênese. Com isso gasta-se mais
energia para se produzir glicose, se comparado pela rota metabólica
habitual. Dentre outros este é um dos fatores que faz perder peso.
Outras dietas como South Beach, dieta da semana e outras, também usam
a restrição de carboidratos. American Heart Association apesar de
condenar dieta de Atkins, recomenda a restrição de carboidratos com
forma de combate a obesidade, diabetes e dislipidemia.
Na realidade o homem moderno tem uma ingesta muito rica em
carboidratos, que está fortemente presente nas farinhas, pão,
massas, doces, cereais não integrais e outros, que são ingeridas de
forma abusiva por muitos de nós.
O uso de rebreather no curso de dietas com baixa ingesta de
carboidratos pode ter algumas implicações. Uma delas é que elas
reduzem a produção de CO2, baixando o R para algo em
torno de 0,7, ou seja, reduz cerca de 15% a VCO2 do
mergulhador, que reflete em aumento da mesma ordem (15%) no tempo do
absorvente. Em um mergulho de baixo esforço físico (VO2
em torno de 1 – 1,2L/min teoricamente não haveria problemas, porém
nos mergulhos com grande esforço físico (VO2 >
1,5L/min) durante tempo prolongado, pode haver queda da glicemia, pois
nestes indivíduos o glicogênio (reserva de carboidrato do organismo)
encontra-se depletado.
Esta dieta está associada também a dores musculares, fadiga e
câimbras que certamente ficam bem mais pronunciadas sob o exercício
extenuante.
A hipoglicemia causa ansiedade, fome intensa, tremor, náuseas,
fraqueza, sudorese, tontura, palpitação, desorientação e até
mesmo convulsão. Sintomas que podem se confundir com os da
intoxicação pelo oxigênio.
Apesar de não se ter descrito que a hipoglicemia predisponha a
intoxicação pelo oxigênio não que dizer que isto não ocorra.
A insulina elevada (hormônio que faz baixar a glicemia),
predispõe a intoxicação pelo oxigênio6, 7, porém nos
usuários destas dietas há uma importante redução da insulina
endógena. Seria este um fator protetor ? Talvez não...
Não se tem descrito que a hipoinsulinemia seja um fator protetor
contra a toxicidade pelo O2.
Por outro lado em um indivíduo que tem uma ingesta exclusivamente
de carboidratos o R aumenta podendo chegar a 1, ou seja, cada
molécula de O2 produzirá uma molécula de CO2
que representa um aumento da ordem de 20% na produção de CO2
se comparado com um individuo que faz uma dieta balanceada normal.
Após uma refeição normal o indivíduo tem um R em torno de 1,
porém 8 a 10 horas após, quando o organismo já se utilizou da maior
parte destes carboidratos, passa a metabolizar gorduras, o R então
cai, se aproximando de 0,7 5 . Ou seja, dependendo do
momento e do tipo da refeição que o mergulhador faça, poderá
produzir uma variação de até 30% na produção de CO2
durante o mergulho. Com rebreathers isto pode ser significativo.
Apesar disto, muitos atletas ingerem carboidratos antes e após a
atividade física, para evitar a depleção e repor os estoque de
glicogênio, isto não é uma recomendação, amplamente aceita.
Muitas pessoas não se sentem bem fazendo isto.
Dietas com restrição de carboidratos são indicadas também para
pacientes com pneumopatias retentoras de CO2.
Caso deseje passar mais tempo de fundo com o seu rebreather, esta
técnica jamais seria a primeira a ser empregada. A troca do seu
scrubber por outro maior causaria bem menos repercussão metabólica
do que o imposto por uma dieta restritiva em carboidratos.
Relato de Caso
No dia 05/09/2009 fiz um mergulho repetitivo de 24m/120min e
24m/80min com intervalo de superfície de 20min, SP de 1.0.
Foi um serviço de mergulho para a inspeção de um trecho de um
efluente industrial.
Planejei mergulhar uma distância de 4.000m com scooter por cerca
de 5 horas com uma profundidade decrescente que ia dos 24 aos 7m,
subida quase que constante, seria um mergulho sem descompressão.
Combinei com o marinheiro da embarcação para que seguisse a minha
bóia de superfície pois, iria cair em um local, nadar até outro,
onde subiria para trocar a bateria do scooter, descansar, beber algum
líquido e prosseguir na inspeção.
Caí na água desci e comecei a minha jornada. Inspecionei 12
juntas, tirei fotos por 120 min, me desloquei por cerca de 1000m do
ponto inicial, quando a bateria do scooter começou a ficar fraca.
Acabei gastando bem mais tempo do que o previsto. Durante este
mergulho, me preocupei pois, não ouvi em momento algum o barulho da
embarcação. Amarrei o cabo da minha bóia ao efluente e iniciei a
subida. Fiz 7min de descompressão a 6m. Na superfície não vi sombra
do barco !
Fiquei seguro a bóia, inflei o meu deco marker e tentei avistar a
embarcação. Avistei-a bem longe... Pensei que o marinheiro estivesse
a minha procura. Foi um local de águas abertas, o mar não estava
calmo tinha vagas de 2m vento de cerca de 10 a 15 nós com
carneirinhos. Fiquei esperando neste local por 20min. Notei que a
embarcação não havia saído do local e parecia estar no mesmo local
do qual iniciei o mergulho.
Resolvi voltar pelo fundo. Nadei de volta arrastando a bóia, o
deco marker, o scooter e outras tralhas por cerca de 1000m de volta.
Estou fazendo dieta de baixa ingesta de carboidratos para emagrecer
pois, minha coluna sofre com o sobrepeso.
Nadei exatamente 1000m em 60min (15m/min), mantive o meu SP em 1,0,
apesar de teoricamente poder aumentar para até 1,2, mas preferi não
aumentar devido a retenção pelo CO2 própria do
exercício e a previsível hipoglicemia. Fiz duas paradas para
descanso. Vim arrastando as bóias, scooter e outras tralhas. Fiquei
cansado, só fui estabilizar a taquipnéia do exercício no final dos
20min da descompressão.
Calculei a minha VO2 média do mergulho que foi de
1,6L/min. Considerando que a minha VO2 média no mergulho
é em torno de 1L/min e que tenha utilizado esta nos 2/3 iniciais de
tempo do mergulho, durante aqueles 60 minutos de nado ela deveria
estar entre 2,5 e 3 L/min.
Estava usando um Megalodon APECS 2.5 com absorvente Atrasorb
médica, com scrubber axial. Foram 3 horas com 1,6 de média de VO2
o que equivale a quase 5 horas com VO2 de 1L/min (o que já
fiz algumas vezes), Certamente neste mergulho a minha VCO2
média tenha sido em torno de 1,12L/min, diferente de 1,6 ou 1,32
L/min se tivesse ingerido muito carboidrato previamente ou tivesse com
dieta normal.
Senti câimbras por duas vezes e mais nada neste trajeto de volta.
Obs.: O marinheiro perdeu a minha da bóia de vista !
Referências
- http://www.iuns.org/features/obesity/obesity.htm
- Retirado em 6/9/2009.
- Organização Mundial da Saúde.
https://apps.who.int/infobase/reportviewer.aspx?rptcode=ALL&uncode=840&dm=5&surveycode=102913a1
- Retirado em 6/9/2009.
-
Organização Mundial da Saúde. https://apps.who.int/infobase/reportviewer.aspx?rptcode=ALL&uncode=76&dm=5&surveycode=102314f13
- Retirado em 6/9/2009.
- Guyton AC, Transporte de Oxigênio e de Dióxido de Carbono no
Sangue e Líquidos Corporais. Tratado de Fisiologia Médica.
Guanabara Coogan,1991, Cap 40, 381-388.
- Guyton AC, Equilíbrios Dietéticos; Regulação da
Alimentação; Obesidade e Inanição; Vitaminas e Sais Minerais.
Tratado de Fisiologia Médica. Guanabara Coogan,1991, Cap 71,
682-692.
- Clark JM, Thom SR. Toxicity of Oxygen, Carbon Doxide, and Carbon
Monoxide. Bove and Davis Diving Medicine 4th Edition,
Sauders, 2004, p241- 259.
- Lowry C. Oxygen Toxicity. Diving and Subaquatic Medicine 4th
Edition, Edward Arnold Publisher Ltd. 2002. Cap 17. 207-222
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