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Um "naufrágio" diferente:
Conversível Thunderbird 95
Para começar a escrever este artigo fui obrigado a
recorrer ao meu fiel escudeiro para assuntos linguísticos, um
Koogan-Larousse editado pela Houaiss no século passado. Literalmente. A
minha dúvida era sobre a utilização da palavra “NAUFRÁGIO”.
Segundo o meu pai-dos-burros, naufrágio é o “ato
de uma embarcação afundar”. ou então, figurativamente explicado,
uma “ruína completa”. Como embarcação é derivado diretamente de
barco, posso concluir que
somente barcos ou transportes flutuantes naufragam. Correto ?
Bem, estou começando a
desconfiar que não. Como definir os destroços do helicóptero que
descansam nas areias de Angra dos Reis, a dez metros de profundidade
? É um naufrágio ? Se não definí-lo
como tal, seria um... “afundamento” ???
E quanto ao carro, que perdeu
o controle numa curva da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, e foi repousar
a 5 metros de profundidade no Canal do Joá ? Como
substantivá-lo ?
Enquanto não tenho uma
solução para este dilema, vou tentar me ater aos fatos. Era uma manhã de
Janeiro do ano passado e o tempo estava feio... digo, assustador. Um vento
de sudeste vinha forte pela praia da Barra da Tijuca e trazia nuvens cinzas
que ficariam ótimas num filme apocalíptico. Mas, o mar ainda estava um
pouco chapado e a fissura para mergulhar era a própria síntese de uma
crise de abstinência. Eu, Clécio Mayrink e Raimar Van den Byllard II não
pensamos duas vezes. Pusemos nossos equipamentos na lancha e fomos à luta.
Chegamos na boca do canal e
vimos que o mar já estava crescendo e, antes que pudéssemos pensar em
recuar, Cyro (nosso marinheiro) deu motor num Envirude 75 e saímos com todo
o casco d´água para cairmos depois da arrebentação. Nesta hora, eu, que
estava bem na proa, já tinha me descolado do banco e voado sobre a lancha,
tombando todo torto sobre os cilindros.
O barulho da fibra
estalando aos nossos pés a cada batida do casco com a água dava a
clara impressão que a lancha não aguentaria os 5 minutos de viagem
até o Arquipélago das Tijucas, nosso objetivo.
Enfim chegamos... procuramos
um local abrigado e eu fui o encarregado de cair primeiro para ver as
condições de visibilidade. Equipei-me, mergulhei, desci uns cinco metros e
percebi que a visibilidade era nula... na vertical, mal conseguia distinguir
as pontas das minhas nadadeiras. Subi e fiz um resumo das condições.
Decidimos voltar. Qual não
foi a nossa surpresa quando, ao sairmos da pequena enseada por onde ficamos
um pouco mais de 10 minutos, nos deparamos com vagas de aproximadamente 2,5
metros de altura, que não iam a direção a praia, mas acompanhavam o
vento e a maré sudeste e corriam as praias em paralelo, indo estourar na
ponta da Joatinga. O Cyro demonstrou muita paciência para manobrar a lancha
em zigue-zague pelas ondas até alcançarmos a boca do canal. Quase
adernamos algumas vezes, quando uma vaga mais forte nos pegava ainda de
lado. No canal, “dropamos” como surfistas e comemoramos feitos
loucos, sob o aplauso de espectadores que já se agrupavam na ponta do píer
para ver o naufrágio quase certo de um pequeno barco frente a ressaca que
se formava.
Ao virarmos no canal nos
deparamos com um aglomerado de pessoas junto a borda, eles cercavam um
reboque e um carro do Corpo de Bombeiros. Nos aproximamos e fomos informados
de que um carro tinha perdido o controle na curva debaixo do Elevado do Joá
e havia caído no canal.
O mergulhador dos Bombeiros
sem o equipamento adequado, não estava conseguindo nem localizar o
veículo, pois segundo relatos, este teria flutuado um pouco com a maré que
estava entrando no canal antes de afundar por completo.
O condutor do veículo, ainda
molhado e abalado, estava incrédulo do fato e agradecendo o fato de ter
sido um carro conversível e, deste modo, não teve dificuldades em pular do
carro enquanto afundava.
Em atendimento a
solicitação de ajuda feita pelo oficial do Corpo de Bombeiros, resolvemos
auxiliar no engate do cabo do reboque no automóvel.
Mergulhamos eu e Clécio,
enquanto o Raimar se posicionou na proa da lancha dando orientações ao
Cyro sobre a nossa localização. Logo que descemos, percebemos que não
seria uma tarefa das mais fáceis, pois a corrente de entrada da água
no canal estava superior a quatro nós e pouco depois de começarmos o
nosso “drift”, vimos à silhueta de umas das maravilhas da
tecnologia automotiva: um Ford Thunderbird 95, preto, conversível,
lindo, adormecido no lodo do canal, a uns 15 metros da margem. O chassi
estava colado na lama. Por sorte, ele ficou perpendicular à corrente,
nos propiciando um abrigo perfeito para o trabalho.
Tendo resolvido a dificuldade
da correnteza, nos deparamos com um outro problema: a cinco metros de
profundidade, a visibilidade era inferior a um metro e praticamente nos
guiávamos pelo tato muito mais do que pela visão, mas foi possível
distinguir algumas coisas interessantes, como a chave na ignição, um belo
amassado no lado do carona - indicando a batida no poste antes do mergulho
final... enfim, nos deslumbramos um pouco com as formas arrojadas deste
imprevisto morador das profundidades.
Ao vasculharmos algum ponto
de engate para o cabo do guincho, descobrimos da pior maneira que este
bólido esportivo possui uma saia da carenagem do pára-choques dianteiro
que recua por debaixo do carro, impossibilitando o acesso à parte dianteira
do chassi. Passando com apenas um braço pelo espaço entre a roda dianteira
direita e a carenagem, consegui depois de muitos cortes na minha mão -
provenientes dos fios do aço do pneu que já estavam à mostra, encaixar o
cabo no pequeno jumelo dos feixes de mola do carro. Isto foi o suficiente
para o carro começar a se deslocar, puxado pelo guincho, e ser retirado da
água.
Depois de exaustivos 40
minutos, nosso trabalho finalmente acabou e voltamos para a lancha, com
o sentimento de dever cumprido e uma bela aventura para contar aos
nossos netos.
Mas um dia irei descobrir
se nós tivemos o privilégio de mergulharmos em um naufrágio de um
Thunderbird 95 ou apenas mergulhamos e ajudamos a tirar um carro para
fora d´água.
Por:
Marcelo Sanglard mergulha a
mais de 10 anos e é instrutor CMAS.
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