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O Itapagé
Durante uma semana de
mergulhos em Recife, eu e Massud fomos convidados por Edísio e Léo da
operadora Aquáticos
para ir até Alagoas mergulhar no naufrágio do Itapagé.
A história do navio
O Itapagé era um navio
classificado como "paquete" que transportava carga e passageiros.
Foi construído em 1927 no estaleiro Chantiers de Normandie, que fica
próximo à cidade de Rouen na França. Seu proprietário era a Companhia
Nacional de Navegação Costeira.
No dia vinte e seis de Setembro
de 1943, o Itapagé navegava calmamente pelo litoral de Alagoas, vindo do Rio
de Janeiro e tendo como destino final a cidade de Belém do Pará quando às
13:50h, em plena luz do dia, o navio foi sacudido por explosões e começou a
afundar.
Os passageiros e
tripulantesviram atônitos aquele enorme navio desaparecer em cerca de
cinco minutos. Dos setenta tripulantes, dezoito morreram e dos
cinqüenta e dois passageiros, nove não foram mais vistos.
Um submarino alemão foi
o responsável pelo afundamento do Itapagé. Segundo os registros,
existem dois possíveis agressores: o U-161
e o U-504.
Após sessenta anos deste
dia fatídico, fica difícil encontrar provas concretas para declarar
com absoluta certeza quem foi o causador do naufrágio. Para os
brasileiros, o que importa foi o tamanho da agressão causada a nós
pelos alemães.
O afundamento do Itapagé
ilustra bem a condição que a Marinha Mercante enfrentava dia a dia no
cumprimento de seu dever. A falta de proteção dada pelas Forças Armadas
aos navios em nosso litoral, os transformou em vítimas fáceis ao
submarinos alemães e italianos.
O episódio do Itapagé
marcou a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial.
O Mergulho
Saímos de Recife no
fim da tarde com destino ao pequeno povoado de Lagoa Azeda. Este é uma conhecida vila de pescadores, que fica a cerca de 60 Km de Maceió
e 320 Km de Recife.
No dia seguinte,
iniciamos a operação logo que o sol nasceu. Dapraia de Lagoa Azeda
iniciamos a viagem até o Itapagé em um barco de pesca.
Nosso ponto de partida é o
local em terra mais próximo do naufrágio: cerca de oito milhas náuticas.
Com o barco que utilizamos, o tempo de viagem foi de uma hora e meia. Após a correta ancoragem de nosso barco,
exatamente em cima do naufrágio, iniciamos o mergulho.
Já da superfície dava paraver o navio no fundo a vinte e cinco metros de profundidade ! A
visibilidade era ótima e o tamanho do Itapagé nos deixou um pouco
desorientados, sem saber para onde olhar.
Chegamos pela proa, ainda
inteira, e fomos nadando em direção a popa. O navio está pousado
corretamente no fundo e apesar de diversas dinamitações provocadas por
demolidores, o Itapagé ainda mantém sua majestade !
Enquanto estávamos pelo
porão de proa, parte da carga do navio nos chamou a atenção: Pela areia,
milhares de garrafasde cervejas, vidros de remédios eperfumes ealguns
pneus. De acordo com seu manifesto de carga, o Itapagé carregava duas mil
caixas de cerveja, trintal mil panelas, dois caminhões e vários outros
itens. Ao passarmos pelo enorme mastro de proa, o Massud identificou um dos
caminhões do Itapagé.
Por todo o navio há uma
grande quantidade de vida, muitos peixes grandes, barracudas e raias.
Sem sombra de dúvida, a melhor parte do navio são os motores !
Em pé e lado a lado, os
enormes motores foram construídos no estaleiro de Chantiers de
L`Atlantique e eram responsáveis por impulsionar os cento e treze
metros e cinco mil toneladas do Itapagé.
Por alguns minutos
ficamos imóveisadmirando aquela bela estrutura. A incrível cor da
água e um enorme Xaréu que nadava por entre os motores nos fez
acreditar que aquele não era um dia comum. Foi neste momento que uma
enorme raia Jamanta passou por nós, nadando em direção a popa do
navio. Resolvemos então a fazero mesmo, nadamos lentamente por entre
os motores e chegamos até a popa.
Ao final do mergulho,
enquanto nadávamos em direção a proa, vimos uma imensa chapa de Bombordo
caída sobre o navio. Ao nos aproximarmos, notamos que ela estava cheia de
escotilhas ! Abertas, fechadas, com vidro inteiro e quebrado.
Decidimos chamar esta seção do naufrágio de "Vale das
Escotilhas" !
De volta a superfície,
descobrimos que a história do naufrágio e do resgate dos náufragos é
bastante familiar para o pescador que nos levou até o local: Seu tio havia
participado do resgate dos náufragos a bordo de Jangadas a vela.
Toda a operação de mergulho
ao Itapagé foi sensacional. O mergulho é fascinante e imperdível a
qualquer mergulhador de naufrágio.
Meus agradecimentos ao
Edísio e Léo da operadora Aquáticos que nos levou até lá.
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