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A Canhoneira
EBER
Em Itapagipe a batalha que não houve
26-10-1917
... The essence of war is violence:
Moderation in war is imbecility: Hit first, hit hard
and hit anywhere
...A essência da guerra é a violência :
Moderação na guerra é imbecilidade: Golpeie
primeiro, golpeie duro e em qualquer lugar.
Lord Fisher of Kilverstone
The First Sea Lord
Admiral of the Fleet
Alguns traços sobre bases navais alemães no Atlântico
A principal base da marinha alemã situava-se na
costa norte ocidental da África, no porto de Duala, na foz do Whouri,
no Camerum (Republica dos Camarões), um protetorado ou colônia
germânica desde o principio do século.
A base surgiu gradativamente, à medida que os
teutônicos que afluíram para ali, a partir de 1800, implantaram
técnicas modernas de administração, engenharia, medicina e comércio,
dominando aos poucos a economia e a política.
Construíram um porto moderno com capacidade para
atender navios de grande calado em doca seca, com seus equipamentos e
técnicos para manutenção. Ainda hoje, o porto é o ponto final das
linhas férreas que penetram profundamente na região.
Mais ao sul, outra base naval de certa importância
foi implantada no porto de Luderitz , na Namíbia. Devido a proximidade
com a Africa do Sul era de difícil defesa, como ficou comprovado
posteriormente, em 1915, quando foi conquistada pelo gen. Botha
comandante das tropas sul africanas uma então colônia britânica.
Como aquele trecho da África é riquíssimo em
minérios e os alemães haviam construído um porto bastante
desenvolvido servindo como estação final de 2.500 km de ferrovias que
adentram no continente, a África do Sul o explorou economicamente
detendo o mandato sobre a região até 1969 quando foi criada a
Republica Independente da Namíbia.
A canhoneira SMS Eber
Mar Baltico, Dantzig, (ex-Gdansk), maio de 1914
A canhoneira SMS Eber foi construída em
1902/03, deslocava 977 ton e tinha 64,1 m de comprimento total, 9,70 m
de boca e 3,62 de calado. Sua velocidade máxima alcançava 13,5 nós.
Assim como sua irmã SMS Panther dispunha de dois canhões de
10.5 cm, quatro de 88mm e mais seis canhões de tiro rápido de pequeno
calibre e metralhadoras. Seu combustível, assim como a maioria das
outras unidades de superfície das frotas mundiais, era o carvão de
pedra. Tinha duas chaminés.
No contexto internacional tratava-se de um navio sem
importância e sem grande valor militar. Provavelmente sua missão
principal era mostrar a presença da bandeira e talvez, por este motivo,
chegara a Luderitz porto da colônia da Africa Sudoeste, em junho de
1914.
A canhoneira SMS Eber entra na doca seca do
grande porto militar para ser preparada para um longo cruzeiro. Após
quase um mês, com o casco limpo e pintado, testados os armamentos, as
máquinas e o recém instalado sistema de radio telegrafia. Finalmente
reabastecida e municiada parte com destino ás colônias alemães na
África Ocidental.
Aparentemente, seu plano de ação seria idêntico ao
da sua irmã SMS Panther, que celebrizou-se, em 1911, no chamado
Incidente de Agadir, porto nas águas territoriais de Marrocos e depois
desapareceu.
Em 1913, correu o boato que a SMS Panther
naufragara ou fora afundada, provavelmente pela própria tripulação na
foz do rio Congo, próximo a Togo, mas na realidade, sobreviveu à
guerra e foi vendida em 1931 para ser desmanchada. Muitas conjecturas
foram feitas sobre o envolvimento da SMS Panther nos
acontecimentos, entre as quais de que seu armamento e munição foram
transferidos previamente para algum navio mercante maior e mais rápido
que atuaria como corsário.
Passados cinco anos, com o mundo já em guerra, as
suspeitas caberiam como verdadeiras a SMS Eber quando seus
equipamentos militares e tripulação armaram o "liner" Cap
Trafalgar transformando-o em cruzador auxiliar, ou corsário,
tendo o Atlântico como área de ação, conjuntamente com os cruzadores
SMS Karlsruhe e SMS Dresden.
Para o Oceano Índico o Almirantado alemão designou
o cruzador SMS Köenigsberg, inicialmente para
"mostrar a bandeira" nas colônias do leste da África e,
depois, se a guerra fosse deflagrada agir como predador dos navios
mercantes aliados.
O Pacífico seria o campo de caça do cruzador SMS
Endem e da esquadra de alto mar comandada pelo Graf von Spee.
A guerra e a chegada da Eber na Bahia.
O agravamento da tensão internacional acirrado pelo
assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando, herdeiro do trono
austro-húngaro, em 28 de junho, levou o mundo a primeira grande guerra
mundial.
No dia 4 de Agosto, o do começo das hostilidades com
a Inglaterra, a SMS Eber como dissemos, encontrava-se em
Luderitz, no sul da Africa Ocidental, mas quanto as suas atividades
até esta data, a revista "Marine Rundschau" esclarece muitos
pontos, mas não todos.
Logo no início da 1º Guerra Mundial a SMS Eber
fez-se ao mar comboiando alguns navios carvoeiros para abastecimento dos
corsários e da frota do Atlântico do almte. von Spee.
Na realidade, houve unicamente suspeitas sobre suas
operações neste período - Teria afundado três mercantes inglêses ?
Após três semanas de navegação o pequeno navio
recebeu ordens para encontrar-se com o grande 'liner' de passageiros Cap
Trafalgar, da HAMBURG SuDAMERIKA NISCHEDAMPSCHIFFAHRT
GESELLSCHAFT, (Cia de Navegação Hamburguesa Sulamericana de Navios à
Vapor) nas águas da ilha brasileira de Trindade e transferir seus
canhões, metralhadoras e munição e a maior parte da sua tripulação
de maneira a adaptá-lo para a guerra de corso .
Iniciou a transferência no dia 31 de agosto de 1914
e partiu, completada a missão, desarmada e com uma guarnição mínima
de trinta homens (cerca de cem acompanharam os armamentos) entre eles
alguns não aptos para combate lotados anteriormente no Cap Trafalgar. A
Eber, agora navio mercante, desfraldou a bandeira de comércio e
provavelmente no dia 10 de setembro, dirigiu-se à Bahia, em marcha
econômica de 11 nós, onde se internou no dia 14 de setembro de 1914,
ou seja, no mesmo dia da batalha entre o cruzador auxiliar inglês HMS
Carmania e o SMS Cap Trafalgar na ilha de Trindade.
Na Bahia, mais uma parte da tripulação, 14
oficiais, marinheiros e foguistas deixaram a canhoneira e viajaram para
o Rio de Janeiro. Os 16 homens restantes eram necessários para a
manutenção e guarnição da embarcação porém insuficientes para a
sua movimentação.
Ao chegar ficou fundeada em frente ao "banco da Panela", posteriormente foi movimentada para a enseada de Itapagipe.
Naquele ano o Estado da Bahia estava sendo governado
por J.J. Seabra que assumira em 1912 e renunciaria em 1916 e o
Intendente era o Sr. Julio Brandão.
Quanto ao SMS Cap Trafalgar, teve como corsário uma
vida curtíssima e sem sorte.
Em 1º de agosto de 1914 chegou em Buenos Aires e
como não tinha condições de voltar à Alemanha, pois a França
decretara a mobilização geral e logo entraria no conflito, recebeu
ordens para agir como corso. O armamento e a tripulação militar seriam
fornecidos pela SMS Eber e operaria em estreita colaboração com os
cruzadores Karlsruhe e Dresden no ataque aos navios aliados trafegando
no Atlântico Sul.
No dia 22 de agosto o Cap Trafalgar zarpou para
Montevidéu onde se abasteceu e "levantou ferros" para o
encontro com a canhoneira. No dia 31 de agosto de 1914, na ilha de
Trindade, houve o encontro com a canhoneira SMS Eber e logo iniciaram a
transferência de homens e equipamentos e os trabalhos de instalação
das armas no 'liner'.
No dia 14 de setembro de 1914, quando o mercante Eber
aportava na Bahia, deveriam ter terminado o serviço no novo corsário,
transferido carvão do navio carvoeiro Eleanore Woermann e iniciado o
treinamento da guarnição no uso dos equipamentos militares.
Ao ser descoberto pelo cruzador auxiliar inglês HMS
Carmania, também um "liner" armado, dispunha de combustível
e treinamento A batalha durou cerca de uma hora e meia, com um fim quase
previsível, pois o navio alemão só dispunha dos dois canhões de 102
mm, quatro de 88mm e seis metralhadoras da canhoneira SMS Eber, enquanto
o HMS Carmania dispunha de 8 canhões de 152 mm, com maior alcance,
sendo quatro na proa e quatro na popa. A belonave alemã não possuía
controle de tiro central.
Foi um combate singular.
O HMS Carmania apresentou sempre a proa com menor
silhueta ao SMS Cap Trafalgar, e mesmo assim, sem a vantagem do corte do
'T' conseguiu a vitória, graças ao maior calibre e alcance dos seus
canhões.
O SMS Cap Trafalgar, foi derrotado sofrendo graves e
sérias avarias motivando seu comandante, o Capitão de Corveta Wirth a
recorrer a medidas drásticas a fim de evitar a captura pelos ingleses -
ordenou que a casa de máquinas fosse minada.
Executada a ordem, às 11h 10m do dia 14 de setembro
de 1914, com a bandeira desfraldada, sem se render, ao som do canto da
tripulação de acordo com a tradição dos combates das fragatas-a-vela
do século passado (N1) (Carta de um tripulante ao Times - London -
22/12/1914, Opus citado 3) afundava levando consigo seus 16 mortos.
No início do combate o SMS Carmania interceptara um
sinal de TSF (Telegrafia Sem Fio) emitido pelo seu contendor, fazendo
com que seu comandante supor que navegava pelas proximidades um dos
cruzadores da marinha de guerra alemã.
O 'liner' armado inglês havia recebido 380 impactos,
alguns na linha dágua e perdera 9 homens além dos 26 feridos. Sem
condições para combate, o comandante britânico concluiu que não
estava apto para enfrentar um cruzador alemão muito superior em
armamento e treinamento, possivelmente o SMS Dresden ou o SMS Karlsruhe,
portanto resolveu retirar-se. Havia perdido todos os seus instrumentos
de direção e o de transmissão de comando para a casa de máquinas.
A viagem seria longa, por isto o comando do HMS
Carmania não perdeu tempo, saiu imediatamente da área tomando o
destino de Gibraltar e certamente solicitou proteção pois encontraram
o cruzador HMS Cumberland que os comboiou até o destino final (Carta de
um tripulante ao Times de 8/12/1914 - Opus citado (3). Depois da guerra,
soube-se que o HMS Carmania, a duras penas, conseguiu chegar perto do
Arquipélago de Abrolhos onde encontrou-se com os cruzadores HMS
Cornwall e HMS Bristol . A equipe de manutenção de um dos cruzadores
fez reparos de emergência. Neste meio tempo chegou à área o cruzador
auxiliar inglês HMS Macedonia que acompanhou o até Gilbraltar.
O sinal de TSF salvou a tripulação do vencido,
dando ao carvoeiro Eleanore Woermann a quem era dirigida a mensagem e
que estava nas proximidades, a oportunidade de recolher os
sobreviventes. Foi uma viagem cheia de tensão, burlando os cruzadores
que patrulhavam o Atlântico Sul até aportar em Buenos Aires
sobrecarregado com centenas de homens (279 oficiais e marinheiros),
muitos feridos gravemente (Carta de um tripulante ao Vossische Zeitung
de 22/12/1914 - Opus citado em (3).
Bahia de Todos os Santos, agosto de 1914
A ex-canhoneira Eber ao chegar a Salvador, solicitou
internamento e fundeou ao largo.
Decorridos alguns dias a Capitania dos Portos
autorizou seu internamento na enseada de Itapagipe, mas necessitou, para
sua movimentação que a tripulação fosse complementada com
marinheiros de alguns navios mercantes fundeados no porto.
O ponto escolhido para fundear, situava-se
aproximadamente equidistante das margens próximas da enseada e em
frente aos tamarindeiros da Ribeira. Segundo uma estimativa bastante
exagerada dos jornais da época, o local tinha 15 metros de
profundidade, mas na carta náutica Nº 1101 do Ministério da Marinha o
máximo indicado é de 10,5m (Ver mapa nos Anexos).
Não poderiam ter encontrado fundeadouro melhor para
a defesa da Eber, pois, daquele ponto, os alemães visualizavam à
distancia qualquer embarcação que se aproximasse.
Ali permaneceu ancorada por quase 3 anos.
O Brasil entra na guerra
Baía de Todos os Santos, 26 de outubro de 1917
Quando foram iniciados os torpedeamentos dos navios
brasileiros, o Presidente do Brasil, o senhor Venceslau Braz, estava
atribulado pela guerra do Contestado liderada por Miguel Lucena de
Boaventura, o Monge, conflito este que envolvia os estados do Paraná e
Sta, Catarina, e também com a disciplina na Marinha, em face da ainda
sentida Revolta da Chibata que contribuía para o afrouxamento das
linhas de comando militar e civil
Em 25 de outubro de 1917 o Presidente Venceslau Braz
enviou a Mensagem ao Congresso comunicando o afundamento do quarto navio
brasileiro, o Macau e solicitando, em face da continuidade das
agressões aos nosso navios mercantes desarmados, o Estado de Guerra com
a Alemanha e acrescentando que "mandará ocupar o navio de guerra
alemão que está ancorado no porto da Bahia" (7) (17) (N4)(N6).
Os jornais publicaram e a guarnição da
ex-canhoneira Eber tomou conhecimento que a hora do combate
estava próxima.
Ficou evidenciado o despreparo, ou talvez a inércia
de nossas forças armadas, neste dia da Declaração de Guerra à
Alemanha.
Toda a cidade sabia, de boca em boca, que a
tripulação não entregaria a Eber – que seria sabotada,
afundada ou incendiada.
Não seria surpresa, pois é a decisão que se espera
de um comandante de uma nave de guerra ao fazer o internamento de seu
barco no porto de um nação estrangeira com a possibilidade desta, ao
longo do tempo, tornar-se inimiga, como bem expôe Sir Cyprian Bridge -
"No persons, and, even more, no compact bodies of men actuated by
corporate feeling or esprit de corps, like to see their particular
occupation threatened with abolition." (Ninguém, e mais
ainda, nenhum corpo compacto de homens agindo com sentimento associativo
ou espirito de corpo, gosta de ver, seu meio de trabalho ameaçado de
eliminação).
Se o Brasil pretendia apossar-se da ex-canhoneira
deveria assaltá-la minutos após a Declaração de Guerra, e, não como
aconteceu, pois a tensão vinha aumentando na proporção em que os
navios brasileiros iam sendo torpedeados. Infelizmente, nos parece que
não foram feitos planejamento ou treinamento da tropa para a
eventualidade esperada.
Com os alemãs foi diferente. Previram um assalto a Eber
e como dispunham de tempo para o planejamento do afundamento ou da
sabotagem, a guarnição disciplinada e treinada militarmente não o
desperdiçou.
A Marinha de Guerra do Brasil estava destreinada e
desaparelhada, mas em piores condições encontrava-se a Mercante,
aliás, tudo isto repetiu-se no início da última guerra.
Os nossos comandantes de navios mercantes sabiam que
o risco de serem torpedeados ou canhoneados era muito grande, mesmo
assim, na sua maioria nem sequer exercitavam suas tripulações para
salvamento, resultando em muitas mortes que poderiam ser evitadas.
Voltemos a Eber. Aos poucos sua guarnição
foi escamoteando de bordo os papeis importantes. Aceleraram as
atividades nos dias que antecederam à Declaração de Guerra e
provavelmente destruíram os Livros de Códigos (Criptografia) e
transferiram para o consulado as Disciplinas, Normas e Procedimentos,
mapas, Diário de Bordo, e alguns objetos de valor, tais como sextantes
e outros instrumentos óticos que foram recolhidos "em lanchinha
especial pelo secretário do consulado e o Sr. Nicolas
Berckerath"(sic).
O plano alemão que seria posto em prática no caso
de guerra, deve ter sido discutido muitas vezes pela guarnição para
que no momento oportuno que agora se aproximava, fosse calmamente
executado e sem erros.
Abririam as válvulas dos compartimentos estanques e,
a fim de impedir o acesso das forças de assalto aos porões, a tempo de
fecha-las interrompendo o alagamento, provocariam um incêndio nas obras
mortas.
Tudo preparado, restava esperar a chegada das tropas
brasileiras por terra ou mar, e que tão logo percebidas os sentinelas
colocados em pontos estratégicos na enseada dariam o alarme.
Pelo mar, devido aos recifes em frente à igreja da
Penha, as embarcações, mesmo as de pequeno calado, para não
encalharem, são obrigadas a seguir o canal que
as leva até próximo a fábrica de tecidos de Plataforma, e só naquele
ponto têm acesso a enseada.
Portanto, do momento em que o grito de alerta do
sentinela situado no convés da Eber comunicasse a chegada das
embarcações com a tropa da Marinha, a tripulação germânica teria
cerca de trinta minutos até a abordagem, ou seja, tempo suficiente para
o comandante com seus camaradas de armas acionar o plano do incêndio e
o alagamento dos porões.
Por sua vez, caso os tripulantes percebessem a
chegada de forças por terra, o intervalo de tempo seria praticamente o
mesmo, pois os brasileiros atacantes deveriam obrigatoriamente embarcar
em saveiros, botes ou escaleres e remar ou velejar até onde estavam
ancorados.
Como era de se esperar, não existia o fator
surpresa, e como consequência a possibilidade de fácil apresamento da
ex-canhoneira !
Não sabemos se os alemães tomaram a precaução
adicional de minar o casco a fim de destruir rapidamente a embarcação,
no caso de um ataque de surpresa à Eber, pelos brasileiros mesmo
assim, como se viu, a tripulação não menosprezava nossa capacidade de
combate, pelo contrário, nos superestimava.
Inegavelmente os tripulantes souberam se preparar
para a evidente batalha que viria.
Em face dos boatos que corriam na cidade, desde o dia
anterior, o jornal "A Tarde" resolveu investigar o que estava se
passando e pouco depois de meio dia, enviou dois repórteres para a
área.
Os dois rapazes, fretaram um barco e usando a camisa
de um dos clubes de remo se aproximaram da Eber e viram quando a
tripulação espalhava combustível no convés. Voltaram rapidamente à
terra e comunicaram a redação e esta por sua vez avisou ao Comandante
da Região e à Capitania dos Portos, e teve como resposta que "às
dez e meia horas, o Sr. Almirante Cleto Japi - Assú que presenciara os
primeiros preparativos do sinistro, fez delles scientes ao Sr. Capitão
do Porto que, infelizmente estava inibido de agir porque não recebera
ordens especiais nesse sentido do Ministério da Marinha."(sic)
A afluência de pessoas em Itapagipe aumentou, como
se o povo aguardasse algum acontecimento anormal.
A guarnição da canhoneira alertada com o aumento
inusitado de pessoas preparou-se para deflagrar o plano de destruição
a qualquer instante.
"Deste modo tudo preparado, aguardariam que as
forças federais se approximassem para ocupar o navio e então abririam
as valvulas dos setes outros tanques e ateariam fogo ao querozene para
assim impedir a entrada de qualquer pessoa a bordo até que os tanques
estivessem completamente cheios e a Eber afundasse."(sic)
A hora chegara !
A tripulação não esperou, não havia outra
solução - se arremetessem em direção ao oceano teriam de passar em
frente ao porto onde estava ancorado o destroyer MB Pihauy e
desarmados não poderiam entrar em combate.
As onze horas abriram as válvulas !
A pequena canhoneira começava a afundar !
"Ás 14:30 minutos, já a canhoneira tinha quase
um palmo acima da linha de flutuação ...".
Nosso plano de ataque
O Capitão dos Portos pretendia embarcar, às dezoito
horas, uma tropa com reservistas e marinheiros do destroyer Piauhy,
surto no porto, para ocupar a canhoneira, e também, a fim de evitar que
algum tripulante da Eber fugisse por terra, enviar, mais cedo,
por transporte terrestre, um pelotão armado.
Assim foi feito mas só as 17 horas, quando a
canhoneira já estava alagando seus porões há mais de 6 horas!
O pelotão comandado pelo capitão Meira seguiu de
'bonde' Houve atraso na partida do "bonde" e a tropa só
chegou à Ribeira às 18 horas.
Ao desembarcarem do transporte foram percebidos pelo
sentinela alemão, um marinheiro músico, provável ex-tripulante do Cap
Trafalgar, que correu até a praia, mergulhou, nadou cerca de dez
metros e através de gritos e sinais avisou aos seus companheiros
embarcados a chegada da força brasileira. Imediatamente os de bordo,
"atearam fogo ao kerozene que se achava na popa e calmamente
começaram a passar para o escaler que estava atracado ao costado do
navio."
Haviam se afastado alguns metros quando notaram que
as chamas alcançavam pouco mais de um metro, não eram intensas e
restritas à popa. Voltaram calmamente a bordo e completaram o serviço
sob as vistas de centenas de pessoas e dos 21 soldados do pelotão,
comandado pelo Capitão Meira Pinheiro que não havia providenciado
botes para o assalto à canhoneira.
Intensificadas as chamas que impediriam o acesso a
bordo de tropas dispostas a fechar as válvulas de fundo, retornaram a
seus escaleres, içaram as velas e partiram em direção à foz da
enseada.
Às 19 horas, ou seja, decorridas cerca de 8 horas do
início do alagamento e quarenta minutos do incêndio da Eber e
da fuga de seus tripulantes, partiu da Capitania dos Portos uma força
composta de trinta praças do Tiro Naval (tropa reservista e
inexperiente ?) comandada pelo Capitão Tenente Plínio Rocha que as 20
horas chegou ao local.
Ao chegarem a Itapagipe, só restava apreciar o
convés fumegante da canhoneira ao nível da água e promover o
aprisionamento da tripulação.
Foram capturados, treze tripulantes entre eles o
Comandante Interino, o Segundo Maquinista Shaumburg e como descreve o
Relatório do Ministro de Estado dos Negócios da Marinha - 1918,
"recolhidos ao Quartel como prisioneiros de guerra, 5 oficiais, 3
suboficiais e diversos tripulantes da Canhoneira Eber e Cap
Trafalgar."
As autoridades federais que há cerca de dois anos,
em 1912, bombardearam a indefesa Cidade do Salvador, não tiveram
competência para capturar um barco inimigo desarmado.
Não apresamos a canhoneira que poderia nos servir
nos rios da Amazônia ou nos nossos portos oceânicos, pois a frota
fluvial brasileira era pequena e obsoleta e a nave germânica, por menor
que fosse, representaria uma compensação pelos nossos navios
torpedeados.
Perdemos a batalha que não houve !
A Eber era a única belonave germânica
internada em nossos portos.
Outros quarenta e cinco navios mercantes alemães
também pediram asilo e foram apresados ao entrarmos na guerra, desses,
cerca de dois terços foram sabotados, mas apareceram outros problemas.
Não podíamos usar nossas presas de guerra, como relata Saldanha da
Gama - "Surgiu ainda mais uma dificuldade no seu uso: estavam na
lista negra dos aliados, sujeitos a apresamento."
"Para obviar essa situação e dar melhor uso
aos navios, trinta deles foram afretados, com tripulação, à
França".
Notas
Pouco mais de quatro meses, no dia 24/1/1915 a
cena se repetiria, desta vez com o cruzador pesado Blucher destruído,
no Atlântico Norte, em combate com os encouraçados Lion e Prince Royal
comandados pelo Sir. David Beatiy,. Enquanto afundavam e aguardavam os
destroiers ingleses que se aproximaram para recolher os sobreviventes,
cantavam hinos patrióticos. Uma testemunha visual relatou a cena final,
no Ilustrated London News de 24/1/1915, "her crew singing patriotic
song on deck as she went down" (sua tripulação (do Blucher)
cantando canções patrióticas enquanto (o cruzador) naufragava). Foram
salvos cerca de 350 homens dos 830 que guarneciam o cruzador.
Últimas notícias da Guerra na Europa
No dia 11de setembro de 1917, a notícia corria na
França como um rastilho de pólvora - Guynemer nést pas rentré... - o
maior áz da aviação na época, não só da França, como dos Aliados,
havia tombado no campo de batalha encerrando com sua morte uma linhagem
que despontara no tempo das cruzadas.
Notícia da guerra na Europa
Logo depois, em novembro, (outubro pelo calendário
Juliano) Lenine tomava o poder derrubando a monarquia e implantando o
comunismo e a ditadura do proletariado que ceifou mais de vinte milhões
de pessoas pela fome e terror durante os setenta anos que durou.
A guerra total submarina sem aviso prévio, era aguardada a qualquer momento, devido ao impasse nos campos de
batalha do Marne onde morreram mais de 500.000 homens. Os generais
Hindenburg e Luderndof precisavam de vitórias decisivas, embora não
pretendessem nem desejassem que os EUA se envolvessem diretamente no
conflito. Era imprescindível, entretanto, que o fornecimento de armas e
suprimentos americanos aos aliados fosse interrompido e o único meio
seria o bloqueio dos mares, em torno da Europa, para todos os navios,
mesmo os de bandeira neutra. Pretenderam até envolver o México e o
Japão, sugerindo o apoio germânico àqueles países no caso de uma
invasão do sul dos Estados Unidos, mas a documentação preparatória
foi interceptada e decodificada pelos ingleses abortando o plano
audacioso.
O governador do Estado, o advogado Antônio
Ferrão de Aragão, seabrista devotado, estava sofrendo as
consequências da inflação e do arrocho salarial motivados pela queda
das exportações, quando houve a Declaração de Guerra.
Na realidade o problema da Eber não era seu e
sim das forças federais na área, ou seja, as mesmas que os seabrista,
acenando a bandeira da necessidade imperiosa de ser cumprida uma ordem
judicial, convocaram rapidamente como braço armado dos seus interesses
políticos para bombardear a Bahia.
Outra belonave que teve um fim semelhante foi o
cruzador Köenigsberg . Após uma campanha vitoriosa, - terminou sua
carreira em terra, encalhado no rio Rifiji, hoje Tanzania. Seus
canhões foram retirados e adaptados para artilharia terrestre. Este
feito, se levada em contas as dificuldades naturais e a falta de bons
equipamentos mecânicos na área, constituiu-se numa brilhante obra de
engenharia, após o que, sua tripulação organizou-se. Criaram o
batalhão 'Fantasma do Koenisberg' e se incorporaram ao Exército
Alemão da África sob o comando do grande estrategista Tenente General
Paul von Lettow Vorbeck, e fustigaram as colônias inglesas
fronteiriças, sem nunca terem sido derrotados.
Tal foi o seu mérito que, no dia 2 de março de
1919, após a guerra, desfilou em Berlim à frente do seu Exercito
Alemão da África, o único que não fora vencido.
Venceslau Braz não teve tranquilidade durante
todo o seu governo. Terminado o conflito do Contestado, veio a guerra e
o flagelo da chamada Gripe Espanhola causando muitos mortos. A epidemia
atingiu a nossa Divisão Naval em Operações de Guerra, cuja missão
era a proteção de comboios no Atlântico Sul, fazendo muitas baixas.
Bibliografia
1 - Bordeaux, H, Vie Heroïque de Guynemer ,
308p, Librairie Plon, Paris, 1918, França.
2 - Bridge, Sir C., The Art of Naval Warfare,
cap. ‘War’, p103, 255p, Smith, Elder & Co, Londres,
Inglaterra, 1907.
3 - Hubert F... La Guerre Navale – Mers du
Nord et Lontaines , p 217 e seg, 316p, Librairie Payot et Cie,
1916, Paris, França.
4 - Gröner, E , Die Deutschen Kriegsmarine –
1815-1945 , 2 v, p 203/204, J F Lehmanns Verlag, Munchen,
Alemanha, 1966.
5 - Ireland, B & Grove, E, Jane’s War at Sea
1897 –1997, cap 5 ‘World War I’, p80 e seg, 256p,
HarperCollins, 1997,Londres, Inglaterra
6 - Jornais e Revistas – A Tarde, Diário da Bahia,
Diário de Noticias editados na Bahia e no exterior Illustrated London
News – de 1914 e 1917, Vossische Zeitung, Berliner Tageblatt, Marine
Rundschau.
7 – Jukes, G, Desastre nos Carpatos – 1916
O Fim do exército Russo , 158p, Renes,1973, Rio de Janeiro, RJ.
8 - Jornal do Brasil - Ed Centenário da
Republica 15/111989 – RJ
9 - Klynk, A, Cem dias entre o déu e o mar, ,188p,
José Olympio, Rio de Janeiro, 1985Cem dias entre o céu e o mar –
1988
10 - Maia, P – Uma Pagina Esquecida da
História da Marinha Brasileira – p 20,21 – Rio.
11- Martins, H. L., Participação da Marinha Brasileira na
1º Grande Guerra , História Naval Brasileira, v V, Tomo 1B, S
D G M, Ministério da Marinha, Rio de Janeiro, RJ.
12 - Marine Rundchau e Times (London) foram citados
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13 – Martins, H L, História Naval Brasileira
,v V, t 1 A, Rio de Janeiro, RJ, 1997
14 - Pitt, B – Zeebrugge – Ed Ballantine
Books – 1958
15 - Relatório do Ministro de Estado dos
Negócios da Marinha – 1918, pgs. 86/87, Rio de Janeiro, RJ
16 - Rev Fund Pedro Calmon, nº2 ano II,
p 168 – Bahia
17 - Saldanha da Gama, A O, A Marinha Brasileira
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