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A tragédia de Jacuecanga - O MB Aquidabã
O navio couraçado MB
Aquidabã foi durante muitos anos orgulho da nossa Marinha.
Menosprezado pelo seu primeiro comandante, o Capitão
de Mar e Guerra Custódio José de Mello que o designava como "Couraçado
de papelão" embora, anos depois, em 1893, comandasse da sua ponte
a Revolta da Armada.
Construído no estaleiro Samuda & Brothers sob a
fiscalização do barão de Ladário - José da Costa Azevedo, foi
lançado ao mar no dia 17 de janeiro de 1885.
Nesta 1ª fase suas características eram as
seguintes:
Custódio de Mello assumiu o comando do MB
Aquidabã na Inglaterra, no dia 14 de fevereiro de 1885 e partiu
para o Brasil, tocando inicialmente na Bahia depois Rio de Janeiro.
O Aquidabã, nesta primeira fase teve uma vida muito
movimentada. Foi por duas vezes a América do Norte; a primeira
comandada pelo capitão-de-mar-guerra Júlio Cesar de Noronha
"arvorando a insígnia do almirante Balthazar da Silveira" (2)
e na segunda vez, seu antigo comandante, Júlio Cesar de Noronha,
arvorava seu pavilhão de contra-almirante para representar o Brasil no
desfile naval de Hampton Roads.
Com 6 anos de vida útil, em 1891, participou da
primeira revolta da armada sob o comando do
contra-almirante monarquista
Custódio Cesar de Mello.
Apaziguados os ânimos, voltou dois anos depois, em
1893, a participar como navio-almirante da revolta da esquadra sob o
"a direção do referido almirante Mello, e comandado pelo capitão
de fragata Alexandrino Faria de Alencar" (1).
O governo, dispunha de oficiais e tripulantes mas
não dispunha de navios, resolveu adquirir rapidamente algumas belonaves
que deveriam ser entregues no Brasil.
Uma das belonaves comprada as pressas nos EUA pelos
agentes brasileiros, incompetentes ou corruptos, era uma canhoneira do
tipo construída pelos Confederados e chamado de Destróier. A belonave
foi retirada da lama, guarnecida por aventureiros e bêbados,
conseguindo, a duras penas, chegar a Pernambuco e finalmente foi
afundada, na Baía de Todos os Santos, depois do triste episódio da
Revolta da Armada.
A esquadra legalista, ridicularizada pelos revoltosos
como a "Esquadra de Papelão"(3) composta de navios adquiridos
na Europa, dispunha de torpedeiras da classe do MB Gustavo Sampaio com
valor bélico, aliás, foi esta que torpedeou o MB Aquidabã na barra
norte de Santa Catarina quando o encouraçado era um verdadeiro hospital
flutuante e não revidou o ataque.
O torpedo atingiu o cruzador na proa. Mais alguns
metros em direção a popa e o MB Aquidabã naufragaria.
No ano de 1894 foram executados reparos de
emergência no MB Aquidabã após os quais navegou até o RJ, onde, em
dique seco, teve o casco reforçado para a viagem a Europa, onde
sofreria uma completa reforma.
Os serviços nas obras vivas foram executados em
Stetin, na Alemanha, pelos estaleiros A. G. Vulcan (5). Aumentaram o
deslocamento para 5.100 ton e elevaram a potência da maquina para 6.200
Hp, mas, com só muita dificuldade conseguiu atingir a velocidade
contratada de 15 nós. O casco recebeu novas chapas, desta vez com 280mm
(11") de espessura abaixo da linha d´água e acima desta, 600mm.
Transferido para Inglaterra, em New-Castle-on-Tyne,
incrementaram e aperfeiçoaram o armamento. Substituíram os canhões
antigos por quatro de 203mm (8"), modelo Amstrong, montados em duas
torres e oito novos de tiro rápido de 120mm (4 ).
Alertado pela experiência do torpedeamento sofrido,
aumentaram o poder de fogo defensivo com mais 8 canhões no passadiço e
duas metralhadoras Maxim.
O sistema de elevadores para munição mecânicos ou
hidraulicos, "foram bastante criticados" (4) (Burlamaqui, A -
Kosmos – Ano III – nº1 – Jan 1906 – RJ)
Instalaram novos tubos lança torpedo bem e
aumentaram o número para seis, sendo dois abaixo da linha d’água.
Os mastros de velame foram retirados e implantados
dois de grande diâmetro, cada um portando metralhadoras e canhões de
pequeno calibre.
Reforçaram a casa de comando com uma couraça de
254mm (10") assim como o revestimento das torres com "aço
coumpound" (N1) (Liga de ferro e níquel de extrema dureza e
maleabilidade a temperaturas muito altas).
Logo depois retiraram os tubos lança torpedos
localizados acima da linha d’água e os dois mastros militares. Um
novo mastro foi montado a ré da chaminé que sustentaria os cabos de
sinalização, e, no futuro, as antena da ainda rudimentar aparelhagem
de rádio-telegrafia.
As obras terminaram em 1897 e foram os últimos
aperfeiçoamentos do MB Aquidabã.
Já era um navio obsoleto, porem o "Casaca de
Ferro", apelido originado na Revolta da Armada de 1893, era
admirado e querido além de ser o mais poderoso da nossa frota de
guerra.
Foi batizado como MB Aquidabã em homenagem a última
batalha da guerra do Paraguai, a margem do rio do mesmo nome onde morreu
o caudilho Lopez, mas teve outros nomes.
Depois de torpedeado e abandonado pelos revoltosos
sob o comando de Custódio de Mello e Saldanha da Gama, o Ministro da
Marinha legal, o almirante Jerônimo Gonçalves, o denominou MB 16 de
Abril, data da vitória em Anhatô-Mirim. Logo depois, ao chegar ao Rio
de Janeiro, mudaram para MB 24 de Maio homenageando o exército pela
grande vitória em Tuiuti, a maior batalha em campo aberto da América
do Sul.
A Tragédia
O ministro da Marinha almirante Júlio de Noronha,
homem de grande valor militar, propunha a mudança do "porto de
guerra da Baía da Guanabara" para Jacuacanga ao sul do Rio de
Janeiro.
Aceitava os argumentos, prós e contra mas pendia
cada vez mais para a mudança.
Finalmente ao longo das discussões, a assembléia
nacional autorizou a mudança enfrentando veementes protestos da
oposição.
Visando clarear o assunto e apaziguar os ânimos, o
almirante Júlio de Noronha, nomeou uma comissão composta pelos que, na
Marinha, mais detinham o conhecimento científico e estratégico, sem
considerar quem o aprovava ou o combatia, e os convidou para uma visita
a baía de Jacuacanga.
Partiram no cruzador MB Barroso, (N1)(1) acompanhado
pelo cruzador MB Tiradentes onde viajavam os membros da comissão (N2).
Da divisão baseada em Santa Catarina foi designado
pelo comandante Alexandrino (2), o MB Aquidabã para aguardar a esquadra
na Ilha
Grande, Rio de Janeiro e apresentar as continências formais
A frota zarpou da Guanabara às 11 horas do dia 20 de
janeiro de 1906, fazendo exercícios e experiências de telegrafia sem
fio com os postos da ilha das Cobras e indo fundear, "à meia
noite", na enseada das Palmas.(2).
No outro dia pela tarde a frota recebeu ordem de
movimentar-se em direção a Jacuacanga e o MB Aquidabã seguiu
nas águas da nave almiranta.
Iriam passar a noite nas águas calmas da enseada e
para melhorar a acomodação dos convidados uma parte dos mesmos foi
transferida para o MB Aquidabã.
Neste ponto convém ressaltar que, no final do
Império, as condições de manutenção dos navios da nossa esquadra
já não eram boas, conforme narra o almirante Custódio de Mello no
livro referenciado (6)(N4). A disciplina provavelmente degradara-se mais
ainda, devido a instabilidade social, a crise econômica e as lutas dos
políticos pelo poder, como demonstram os levantes acontecidos em 1892,
1893 / 1894 e 1904, respectivamente chamados de "Deodorista",
da "Armada" e da "Vacina" (7).
Após as formalidades iniciaram o trabalho com o
Almirante expondo seu ponto de vista, acompanhado de mapas e indicando
as vantagens do local escolhido.
O dia passou rapidamente estando já a maioria da
Comissão consciente de que o local pretendido era excelente,
estabeleceram então, que na manhã seguinte desceriam a terra para uma
exame mais detalhado.
No final da tarde, alguns alto oficiais
transferiram-se para o cruzador MB Aquidabã por ser mais espaçoso.
Selaram seus destinos.
A rotina de bordo corria normalmente com o silêncio
da noite calma e serena de quando em quando interrompida pelos apitos
navais de transmissão de ordens.
Da sala do TSF (Telegrafo Sem Fio) do MB Barroso
ouvia-se o ruído característico do manipulador Morse e das descargas
dos equipamentos daquela época.
A escuridão da enseada estava amenizada pela luzes
das belonaves, o vento era fraco e quase não perturbava a superfície
das águas.
Ouviu-se a chamada para o rancho após a qual, só
uma ou outra voz ainda se ouvia.
Os sentinelas nos seus postos olhavam o negrume da
noite e uma ou duas luzes de lampiões, em terra.
Ás 21 horas a maioria dos oficiais, apresentou suas
despedidas e recolheu-se aos seus beliches. Alguns poucos ficaram
conversando no tombadilho e na casa de comando.
Os que estavam de serviço e seus subordinados
permaneceram nos seus postos.
Do convés do MB Barroso podiam ser vistas as luzes
do couraçado MB Aquidabã e do cruzador MB Tiradentes.
Estava tudo tranquilo quando, de repente, ás 21h e
45 min ouviu-se um fortíssimo ruído, quase com uma trovoada vinda do
lado do legendário Aquidabã. Momentaneamente as luzes do encouraçado
tremeram para em seguida apagarem, absorvida que foram por uma tremenda
explosão do lado de baixo da popa.
O tombadilho superior foi levantado e logo em seguida
ouviram-se outras explosões menores.
O paiol de pólvora havia explodido !
Tal foi a velocidade e violência da expansão dos
gases que a guarnição não teve qualquer oportunidade de fuga.
Pereceram naquele instante 2/3 da guarnição. Os que se salvaram,
bafejados pela sorte, ainda lutaram para escapar da sucção do
torvelinho criado ao soçobrar o couraçado. Outros, talvez tivessem
escapado para em seguida serem arrastados com seu navio. O redemoinho
não demorou muito. Logo o casco atingiu o fundo assentando e soltando
borbulhas de ar.
Tão logo o clarão extinguiu-se começaram a cair os
pedaços de destroços no mar e no tombadilho dos navios próximos.
Passado o impacto do imprevisto os oficiais com os
corações apertados tomaram imediatamente as providências para a faina
de salvamento.
Os holofotes iluminaram a cena, ou o que restava
dela, e os escaleres iniciaram a pesquisa e o recolhimento dos
pouquíssimos sobreviventes entre os restos de material que flutuava.
A fumaça escureça o ambiente e o cheiro de queimado
espalhou-se pela enseada. Na terra surgiram algumas luzes nas casas. Os
moradores atônitos se perguntavam o que teria acontecido. Contaram os
navios, antes eram três grandes, mas agora só divisavam as silhuetas
de dois.
No mar ouviam-se alguns pedidos de socorro, apitos e
o facho dos holofotes apontando para o mar. De quando em quando um
escaler era temporariamente iluminado.
Uma enorme ansiedade exigindo calma e perseverança
das equipes de salvamento. Desconheciam quantos sobreviveram e temiam
deixar alguém sem socorro.
Ao raiar do dia, contaram-se os salvos - noventa e
oito, entre eles, um dos raros ilesos, o segundo-tenente Mário Roxo.
Na catástrofe do MB Aquidabã pereceram 212 membros
da guarnição, oficiais e marinheiros e parte da comitiva ministerial
dos quais, três Contra - Almirantes Rodrigues da Rocha, Cândido Brasil
e Calheiros da Graça.
Notas
N1 – Não confundir com o MB Almirante Barroso que
deu a volta ao mundo em 21 meses, entre 1888 e 1889, comandado pelo
almirante Custódio de Mello e naufragou na viagem subsequente no Mar
Vermelho
N2 - O MB Barroso era muito querido e tinha o apelido
de "Palheta de Ouro".
N3 – A renovação da nossa gloriosa Marinha de
Guerra, fora iniciada pelo programa naval de 1904 (4).
N4 – "Saiu, pois, o MB Almirante Barroso para
uma viagem ao redor do globo, sem nem ao menos refrescar-se-lhe o
aparelho, coisa que faz qualquer navio mercante que tenha de empreender
viagem de alguma importância, e, o que é mais, sujo, com as caldeiras
tão estragadas que uma delas começou a vazar na entrada do canal do
Rio da Prata, nove dias depois de haver o navio deixado o porto de
partida; com os destiladores em mau estado, o que verificou-se no
segundo dia de viagem, porquanto a água que destilavam, além de pouca,
era salobra..."
Não posso ser responsável por isto... quando recebi
o comando tive ordem de sair em oito dias... (Almirante Custódio José
de Mello (6)
| Comprimento total |
85,34m (280 pés) |
| Boca |
15,85m (52 pés) |
|
Calado |
5,84m (18 pés) |
| Deslocamento |
5.082 ton |
| Canhões de 20 ton, em duas
torres |
4 |
| Canhões de 5" |
4 |
| Metralhadoras |
15 |
| Lança torpedos |
5 |
| Máquinas compound |
6500 Hp |
| Couraças |
7 a 11 polegadas |
| Velocidade máxima |
16 nós |
| Velocidade de cruzeiro |
10 nós |
| Alcance a 10 nós |
4500 milhas |
| Aparelhamento |
Galera |
| Mastros |
3 |
| Chaminé |
1 |
Bibliografia
1 - Menezes, Emilio de – Subsídios para História
Marítima Brasileira – "A Tragedia do Aquidabã" (Poesia)
– v VII – Cap. IX – p 229 – Ministério da Marinha – Rio de
Janeiro – 1949.
2 - Subsídios para História Marítima Brasileira
– v XII – p 100 – Ministério da Marinha – Rio de Janeiro –
1958
3 - Goes de Araújo, José – O "Destroyer"
da "Esquadra de Papelão".
4 – Noronha, J C - Programa Naval de 1904 in
Subsídios para História Marítima Brasileira – v IX – Ministério
da Marinha – Rio de Janeiro - 1950.
5- Gröner – Die deutschen Kriegsschiffe, 1815/1945
– v I, p 20 -Ed. J. F. Lehmanns – Munich – Alemanha.
6 – Mello, C J de – Vinte e Um Meses ao Redor do
Planeta – p 2 – Cunha & Irmãos Ed. – Rio de Janeiro – 1896
7 – Trajano, A de Carvalho – Nossa Marinha –
1822 a 1940 – Seus Feitos e Suas Glorias – Fund Odebrecht e S geral
Doc. Da Marinha – Rio de Janeiro - 1986
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