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O Navio do Cabo
Sempre fui um apaixonado pelas histórias do mar. Acho até que
minha paixão pelo mergulho foi decorrência das histórias contadas por
meu avô, que havia sido marítimo, trabalhando como chefe de máquinas
em navios à vapor nos anos 30/40.
Acabei meio que involuntariamente exercendo uma
profissão correlata que me obriga a estar em contato com o mar, as
máquinas e os personagens que o integram. Atualmente, minha profissão
me obriga a estar sempre dentro de embarcações off-shore para efetuar
operações de posicionamento marítimo, seja de superfície ou
submarino.
Há cerca de 7 anos, tentei por iniciativa própria
encontrar o naufrágio do Wakama
sem depender de informações das operadoras de Búzios ou do Rio ou de
quem quer que fosse da comunidade de mergulho, pois sabia que não teria
sucesso uma vez que existem interesses comerciais nesse naufrágio.
Como esse naufrágio está equidistante de Búzios
e Macaé, tentei obter sua posição com a ajuda de pescadores dessa
última cidade, e consegui convencer minha gerência na empresa a
utilizar os destroços como referência para testes de ecobatímetros e
alvo para treinamento de equipes em posicionamento geodésico marítimo.
Conseguimos encontrar os destroços com a ajuda das
coordenadas iniciais fornecidas pelo pescador e fizemos algumas
operações de treinamento por lá. Minha frustração foi não ter
conseguido até hoje efetuar um mergulho naquele naufrágio. Mas isso é
outra história…
Durante minhas conversas com o pescador que forneceu
as coordenadas do naufrágio do Wakama, este me falou a respeito de um
outro naufrágio que ele utilizava como pesqueiro e que era conhecido
como "Navio do Cabo". Anotei as coordenadas que, segundo minha
fonte, era um navio ao largo de Cabo
Frio. Não dei muita importância, pois sabia que os naufrágios da
área de Arraial e
Cabo Frio já haviam sido localizados e que este provavelmente estaria
fora do alcance técnico ou econômico do mergulho convencional, seja
técnico ou recreativo.
Há muito tempo que gostava de ler livros e
documentos de história naval, especialmente aqueles relativos às duas
guerras mundiais. Comecei a me dedicar à pesquisa de naufrágios e li
muito a respeito das perdas navais brasileiras na Segunda Guerra
Mundial, em publicações e na Internet. Em um determinado dia, resolvi
conferir as coordenadas desse naufrágio e plotar a posição em carta
náutica. Naquele momento percebi que realmente o naufrágio estava em
um Cabo. Mas não era o Frio e sim o Cabo de São Tomé. Ao verificar os
dados de naufrágios existentes na literatura, tive uma surpresa: A
longitude coincidia precisamente e latitude tinha uma diferença de 7
milhas em relação à posição oficial de afundamento do navio de
transporte da Marinha Brasileira Vital de
Oliveira. Na hora a adrenalina
subiu. Pensei: Caramba!! O Vital de Oliveira ??? Mas era muita
coincidência ! A posição era muito parecida com as coordenadas
que eu tinha em mãos. A longitude batia. A latitude não, mas poderia
ter sido um erro de transcrição ??? Um erro grosseiro de navegação
??? Bem, só tinha um jeito de descobrir: Mergulhar lá !
Para conseguir mergulhar na posição do naufrágio
havia alguns obstáculos a serem transpostos e dúvidas a serem
esclarecidas. Primeiro: As coordenadas estavam bem determinadas ?
Com que precisão ? Qual foi o PDOP da constelação naquele
momento ? Segundo: Onde conseguir um barco adequado ? A que
preço ? Terceiro: Equipe e logística. Quem chamar e desses, quem
poderia participar ? Onde conseguir ajuda em caso de acidente
? Enfim, muitos problemas a resolver até conseguir alcançar o
objetivo.
Confirmação
Passado 1 ano, surgiu uma grande oportunidade para
pelo menos verificar a qualidade da determinação fornecida pelo
pescador. Eu havia sido escalado para efetuar o posicionamento de uma
embarcação que estaria fazendo um levantamento sonográfico com
side-scan sonar em um oleoduto que transporta o petróleo da Bacia de
Campos para um terminal em terra, na localidade de Barra do Furado, a
nordeste de Macaé. Para minha surpresa e total alegria, a rota de nosso
levantamento passava muito próxima à posição do naufrágio informada
pelo pescador. Era uma oportunidade única para conferir e até
re-determinar as suas coordenadas. Em toda operação de side
scan, é necessário passar o "peixe" sobre algum
obstáculo conhecido para aferir seu posicionamento e ajustar os
parâmetros de ensonificação e varredura. Solicitei então que se
passasse o "peixe" no alvo que seria o naufrágio. Caso
encontrasse alguma coisa, ótimo. Se não teria que abandonar a idéia e
seguir em frente e aferir o sistema em outro ponto conhecido na área de
trabalho. Para minha sorte, tudo deu certo. Na primeira passagem do
sonar sobre os destroços, já foi possível detectar uma imagem com
bastante potência de eco, de aproximadamente 80 metros, alongada e
plantada em um imenso areal. A imagem, porém ficou sem muita
resolução, pois tanto o sonar como o equipamento de plotagem era
antigo, não permitindo ter absoluta certeza se era um naufrágio ou
alguma formação natural. A profundidade era de 45 metros. As chances
eram grandes de ser um naufrágio, pois quando existem formações
naturais, normalmente elas se espalham por uma área mais abrangente,
não se limitando a um único ponto.
Bem, não tinha muita alternativa. De posse das
coordenadas geográficas, dessa vez obtidas com precisão de 3 metros a
única opção seria mergulhar para conferir.
A Busca
Quase dois anos se passaram até que fosse possível
organizar uma expedição para explorar e identificar o naufrágio.
Nessa fase, tive de ter mais paciência e determinação que nas outras
etapas. A posição do naufrágio distava 36 milhas de Macaé e 18
milhas a Sul de Barra do Furado. Isso corresponderia a aproximadamente 5
horas de navegação em uma embarcação de pesca padrão. Em Macaé,
não pude contar com a ajuda do pescador que revelou a marca. Ele tinha
vendido o barco e foi morar em outra cidade. As empresas que possuem
barcos maiores de madeira, para transporte de pessoal ao largo da
cidade, estavam cobrando US$ 100,00 por hora. Os barcos mais baratos
não possuíam GPS, sonda ou ambos. Além disso, eram menores e não
havia acomodações adequadas nem para equipe nem para equipamentos.
Finalmente encontrei um outro pescador que possuía uma traineira com as
características necessárias e cobrava US$ 500,00 para levar até a
locação.
Resolvido o problema do barco, montei a equipe para o
projeto, convidando mergulhadores conhecidos, e loucos o bastante para
dividir os custos da operação independente de seu resultado. Em
paralelo, enquanto efetuava os preparativos e os contatos com equipe e
proprietário do barco, efetuei alguns mergulhos de treinamento no Rio,
para verificar qual seria a melhor configuração a ser utilizada na
operação.
Após inúmeros cancelamentos devido às condições
de mar, problemas particulares e de saúde dos integrantes, problemas
com motor do barco etc e etc, em 26/01/2002 eu mesmo, Marcello de
Ferrari, Eduardo Davidovich (Doc) e Ricardo Stangorlini (Galego),
partimos para Macaé para dar início à expedição. Eu fiquei como
responsável pela navegação e pela expedição em si, o Marcello veio
como especialista em naufrágios, co-responsável pela expedição e
presença indispensável para a investigação, o Doc veio como líder
de mergulho e primeiro a entrar na água para conferir o alvo e o Galego
veio como cinegrafista.
Passamos a noite em claro, pois tivemos que pernoitar
em um hotel sem ar condicionado e próximo ao barulhento Porto da
Petrobrás e tivemos que estar no cais às 4:00 da manhã para embarque.
Lá chegando, pontualmente embarcamos no horário combinado e, antes de
zarpar fizemos os primeiros preparativos. De cara tivemos um problema: o
mestre da embarcação não sabia configurar o GPS, apenas sabia ligar e
desligar. Tive de aprender a usar o equipamento na hora e sem manual.
Como esses equipamentos tem um padrão aproximado de set-up, não foi
muito difícil resolver o problema. O Doc e o Marcello também levaram
seus equipamentos de GPS e ajustamos todos igualmente.
Iniciamos a navegação com céu noturno, mar calmo e
sem vento. Conforme ia amanhecendo, o vento nordeste começou a
aumentar, aumentando também a altura das ondas à medida que nos
afastávamos da costa. Havia um segundo e mais grave problema com o GPS
do barco: À medida que nos aproximávamos da área, percebi que havia
uma diferença em azimute e distancia para o alvo, entre o equipamento
do Doc e o do barco, apesar de estarem com a mesma configuração. Essa
diferença aumentava proporcionalmente à aproximação. Tive que
novamente intervir no GPS, pois era o único que estava alimentado
continuamente pela fonte 12v da bateria do barco. Os outros estavam
apenas com pilhas e poderiam descarregar antes de encontrarmos os
destroços. Ao verificar a configuração do equipamento do barco,
percebi que o ponto do barco (offset) que estava sendo navegado, foi
ajustado para um ponto 3 milhas distantes da antena !!! E eles mantinham
esse ajuste desde a compra do equipamento !!! Ao corrigir o problema,
respiramos aliviados: todos os equipamentos agora forneciam os mesmos
resultados. Pude voltar a dormir, dessa vez um sono mais relaxado. Como
esqueci de retornar o equipamento à configuração original acho que
eles ainda estão procurando seus pesqueiros.
Chegando na área, diminuímos a rotação do motor e
preparamos a poita com a bóia que iria marcar visualmente a posição
do naufrágio. A bóia era utilizada na pesca em espinhel, feita com
isopor e com uma bandeira plástica preta acima das ondas e uma poita de
concreto. Junto também amarramos uma defensa esférica amarela para
melhorar a visualização. Na primeira passagem sobre o alvo, um eco
forte e claro foi visto na eco-sonda, indicando também uma profundidade
máxima de 46 metros. As coordenadas estavam precisas ! Lançamos
a bóia e o mestre iniciou um círculo ao redor da mesma par verificar
qual a melhor proa para lançar o ferro do barco.
O ferro foi lançado e iniciamos os preparativos para
o mergulho. O Doc foi o primeiro a entrar, pois estava usando uma dupla
de 15 litros e tinha mais gás para um mergulho de identificação do
alvo e posterior mergulho de exploração. O restante estava com mono de
18 litros. Doc mergulhou e em pouco menos de 10 minutos retornou à
superfície com um largo OK ! Eram os destroços de um navio !
Quando Doc se aproximou, relatou um terceiro problema: A âncora do
barco não estava unhada ao naufrágio. Ao invés disso a âncora laçou
o cabo da bóia previamente lançada e o que estava segurando o barco
era o cabo de nylon mais fraco da poita de concreto. Esta sim estava no
meio dos destroços.
Doc desceu novamente, enquanto aproximávamos o
barco, de forma a afrouxar o cabo da âncora, para que ele pudesse
reposicioná-la nos destroços. A manobra funcionou e o Doc retornou à
superfície dando sinal de OK para início dos mergulhos de
exploração.
O Mergulho
Dividimos a equipe em dois grupos. Eu e Doc
desceríamos primeiro e Marcello e Galego logo em seguida. A água
estava com visibilidade máxima no fundo e meia água de 10 m e menos de
4 na superfície. Apesar da distância da costa, a locação sofre
influência dos sedimentos vindos da foz do rio Paraíba do Sul
conforme
o regime de ventos. A temperatura da água estava em 21°C na
superfície e havia uma razoável correnteza. Iniciamos a descida pelo
cabo e ao passar dos 40 metros sentimos uma ligeira narcose. O esforço e o cansaço da noite em claro teriam contribuído para isso. A
temperatura no fundo era de 17°C. Ao chegarmos nos destroços, tivemos
algumas surpresas: O navio estava totalmente colapsado, não sendo
possível distinguir convés ou superestrutura. Via-se claramente o
perfil de um navio, porém a sensação é que tinha sido totalmente
esmagado. Havia uma caldeira imensa aproximadamente à meia nau e vimos
um grupo propulsor com motor de expansão tripla, eixo e hélice, este
semi enterrado no sedimento. As chapas que compunham o casco estavam
caídas no fundo. Estas estavam com o lado interno voltado para cima
mostrando partes do cavername. Perto da popa, os turcos dos botes
salva-vidas estavam também deitados no fundo. Na proa foi possível ver
os cunhos e o escovém de boreste. Algumas redes de pesca estavam presas
aos destroços. Todas as partes expostas estavam cobertas por uma camada
de anêmonas esbranquiçadas. Um cardume de olhos de boi e uma garoupa
enorme habitavam o naufrágio.
Procuramos por algum indício que pudesse confirmar
se aquele naufrágio era mesmo o Vital de Oliveira. Infelizmente nada
foi encontrado além de uma garrafa que foi identificada como lixo
recente, indicando que o naufrágio é realmente um pesqueiro para
alguns pescadores da área. Como o tempo de fundo se esgotou tive que
iniciar a subida, enquanto o Doc permaneceu um pouco mais para tentar
achar algum indício.
No caminho de subida, encontrei o Marcello e o Galego
no cabo iniciando a descida. Parei aos 4 m para cumprir uma
descompressão de 6 minutos solicitada pelo computador, já em meio à
água mais turva da superfície.
Ao subir no barco, mais um pequeno problema. Não
tinha escada apropriada para mergulho (afinal era um barco de pesca)
sendo adaptado como escada um cabo com dois pneus. O problema era que ao
se pisar nestes, com o peso do cilindro, as pernas entravam por baixo do
casco do barco, fazendo a subida ao convés parecer uma escalada em
parede negativa.
O grupo do Marcello e Galego também subiram, porém
infelizmente não conseguiram trazer nenhum item que identificaria o
naufrágio e não foi possível registrar nenhuma imagem, pois a
luminosidade no fundo não era suficiente para uma filmagem, devido à
camada turva da superfície que filtrava a luz solar.
O último a subir foi o Doc, pois teve de cumprir uma
descompressão mais longa, e efetuada com O2. Eu e Doc utilizamos EAN26
como gás de fundo.
O Mistério
Voltamos para terra com mais perguntas do que
respostas. Pouco antes da expedição eu havia coletado alguns dados do
Vital de Oliveira no Jane`s Fighting Ships edição de 1942 e em outras
publicações existentes no Serviço de Documentação da Marinha. Antes
de ser incorporado à Armada, o navio se chamava Itaúba e
pertencia à Companhia Nacional de Navegação Costeira Lages &
Irmãos. Era um navio com 270 ft (81 m) de comprimento, 42ft (13m) de
boca e 1700 ton. de deslocamento, construído em 1910 na Escócia, no
estaleiro AILSA Shipbuilding Co. Possuía dois grupos propulsores com
motores de 540 HP. Parte da superestrutura e do passadiço eram
construídos em madeira.
Os destroços que encontramos tinham o mesmo
comprimento (medido após o processamento dos dados do side scan sonar),
as mesmas características de construção de um navio do início do
século XX, porém só foi encontrado um grupo propulsor, um motor de
expansão tripla e uma caldeira. A segunda caldeira poderia ter
explodido, mas e o outro eixo e respectivo hélice ? E o segundo
motor ? Talvez o navio tivesse sido demolido posteriormente e
algumas peças de valor resgatadas. Mas por que deixariam um hélice
? Além disso, não encontrei registros de alguma operação de
demolição efetuada pela Marinha ou empresa particular naquela região.
O Marcello ventilou a possibilidade de ser um outro
navio. Em 20/10/1945 o navio Norteloide explodiu e incendiou-se
em uma posição em frente à região de Lagoa Feia no norte do estado.
Ora, a localidade de Barra do Furado nada mais é que um canal de acesso
que liga essa lagoa ao oceano. Portanto, poderia ser o naufrágio
encontrado, entretanto ao verificar as características desse navio,
tratava-se de embarcação maior, de 4000 ton. de deslocamento, o que
não coincide com as proporções dos destroços encontrados.
Por problemas particulares não tivemos mais tempo
para nos dedicar às pesquisas. Portanto fica a pergunta: Quem seria o
Navio do Cabo ?
* Croqui elaborado por Fábio Conti e Eduardo
Davidovich
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