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Inferno no litoral paraibano - A história do naufrágio do
vapor Erie
O risco de incêndio à bordo de navios sempre foi preocupação constante de
sua tripulação. Nos primórdios da navegação, onde a maior parte das
estruturas dos navios eram feitas de madeira, incêndios, muitas vezes causados
por descuido, causaram o naufrágio de diversas embarcações.
Até mesmo a adoção de cascos de metal não reduziu o risco de incêndio,
como muitos podem acreditar. Os navios continuavam a carregar muito material
inflamável em sua construção além de grandes quantidades de combustível
para seus motores. Muito foi feito para reduzir esse risco até chegarmos a
segurança dos dias de hoje.
United States and Brazil Steamship Mail Line e o Erie
Criada em meados do século XIX, a companhia de navegação United States and
Brazil, fazia o transporte oceânico de cargas, passageiros e mala postal entre
os dois países. Em fevereiro de 1872, chega um novo vapor, para operar as rotas
da companhia: o Erie.
No inverno de 1872, o Erie e o Ontario eram dois grandes vapores de casco de
madeira construídos por uma empresa de Boston para navegar no Atlântico Norte.
Ambos os navios se provaram ineficientes na competição que travavam com
vapores de casco de aço. Eles foram leiloados em 1868 por metade de seu preço
de construção. Foram construídos em 1866 e 1867 respectivamente, com
deslocamento de 3.000 toneladas e comprimento superior a 100 metros. O estaleiro
responsável pela construção foi George W. Jackman em Newburyport,
Massachussets.
O Erie e o Ontário foram os maiores vapores à hélice de casco de madeira
construídos. Seus cascos eram divididos em seis compartimentos estanques. À
bordo, haviam acomodações excelentes para 125 passageiros em sua primeira
classe e 500 nas classes inferiores. Seus porões podiam carregar até 1.500
toneladas de carga. Seus motores foram construídos por Harrison Loring, South
Boston e atingiam 1700 cavalos de força.
Incêndio à bordo
No retorno de sua primeira viagem ao Rio de Janeiro, o Erie foi totalmente
destruído pelo fogo e naufragou em João
Pessoa-PB.
As primeiras notícias do desastre chegaram à Nova Iorque pela escuna que
viu o Erie pegando fogo. "Presumimos que toda a tripulação e passageiros
se salvaram. Cinco barcos salva-vidas foram vistos atingindo a praia",
disseram os tripulantes da escuna. A bordo do Erie, a tripulação era de
setenta e nove pessoas e um número presumido de vinte passageiros.
Relato completo do acidente
Em 17 de janeiro de 1873, a Brazil Line foi informada através de telegrama
do naufrágio ocorrido. Quase seis semanas após o desastre, a barca Polly Lewis
aportou em Nova Iorque vinda de Yokohama via Pernambuco. Trazia o relatório
completo do acidente feito pelo capitão do Erie, E. L. Tinkelpaugh.
O navio estava rumando para Saint Thomas com vinte e nove passageiros, na
tarde de 01 de janeiro de 1873. Durante a noite, foi notada a presença de
fumaça à bombordo do navio. Até as 23:00 hs, a tripulação, utilizando cinco
mangueiras para apagar o incêndio, acreditava que iria conseguir extingui-lo.
Próximo da meia-noite, a meia nau do Erie incendiou-se de forma repentina. O
fogo espalhou-se rapidamente e enormes chamas provocaram a ordem da abandonar
navio. Todos os botes, que já estavam na água para que não fossem afetados
pelo fogo, foram recolhidos e todos os passageiros e tripulantes rapidamente
executaram a ordem dada pelo capitão.
A pequena frota de botes se afastou rapidamente do Erie e, ao longe o
observaram queimar. O relógio marcava uma hora da manhã, quando os mastros
caíram e o navio começou a fazer água. Era quase dia quando o mar começou a
engolir o orgulhoso vapor ainda queimando em chamas.
Os botes atingiram a praia e todos ficaram a salvo. Toda a carga à bordo se
perdeu com exceção de uma bolsa e cem soberanos. O Capitão Tinkelpaugh
reportou que toda a tripulação agiu com braveza e fez o máximo para que o
navio fosse salvo. A causa do incêndio não foi identificada. Uma pequena
investigação feita no mês de março foi encerrada sem atingir nenhuma
conclusão.
Um incêndio também aconteceu no Ontário mas a tripulação conseguiu
controlá-lo. Nesse caso, o incidente parece ter sido causado por placas soltas
debaixo de um dos fogões do navio.
O mergulho
Devido à causa do naufrágio, o Erie é popularmente conhecido como
"Queimado" e é um naufrágio visitado freqüentemente por
mergulhadores. As águas quentes e claras de João Pessoa, aliada à enorme
quantidade de vida, fazem do local de descanso do Erie, um excelente ponto de
mergulho em naufrágio.
Os destroços se espalham por uma vasta área e alguns itens da equipagem do
navio merecem uma atenção extra. Primeiro as caldeiras quadradas, muito raras
e interessantes. Na popa, após seguirmos o longo eixo, encontramos o belíssimo
hélice com duas de suas pás para fora da areia. Por toda a extensão do
naufrágio que atinge a profundidade máxima de 19 metros, é possível
contemplar com várias outras estruturas do navio.
Este naufrágio é um excelente ponto de mergulho de nosso litoral e está
acessível a todos os níveis de mergulhadores, saindo com alguma operadora
local em João Pessoa-PB.
Fontes de Pesquisa:
American Neptune - edição: abril de 1944, vol. IV
The First American Steam Passenger Line To South America - Francis O.
Braynard
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