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Buscando o naufrágio Rio
Anil
Foi em 08/06/0205, recebi um telefonema do Ênio Couteiro,
proprietário da operadora de mergulho em Cabo Frio, a Over
Sea Dive Center, informando que um pescador teria a informação e posição
de um naufrágio nas proximidades da cidade de Cabo
Frio, localizada na chamada Região dos Lagos, no Estado do Rio de Janeiro.
Ciente disto e aproveitando minha última semana de férias, rapidamente
liguei para alguns amigos na intenção de ir até Cabo Frio para obter
mais informações e tentar encontrar o naufrágio. Após alguns telefonemas,
marquei com o Alex Albuquerque uma ida até lá para averiguar a existência do
mesmo.
Manhã de quarta, viajamos até a cidade, onde nos juntamos à
equipe da Over Sea Dive Center, Elísio Gomes Filho e o pescador, para então
tentar encontrar o naufrágio mencionado. Foram trinta minutos de navegação
até o local, e após três horas garateando (passar um
cabo pelo fundo) o fundo, infelizmente nada foi encontrado. Neste dia, a sonda da lancha
resolveu não trabalhar, o que dificultou ainda mais as buscas, e mais tarde, o mar começou a crescer, trazendo grandes ondulações
na área onde estávamos, fazendo com chegássemos à uma mesma conclusão...
cancelar a operação e retornar dentro de alguns dias.
Durante o retorno, cheguei a registrar a marcação passada pelo pescador em
dois GPS's, como sendo a área à ser vasculhada. Neste mesmo dia, combinei com
o Sérgio (dive master da Over Sea), dele voltar ao local no dia seguinte com a
lancha Bijupirá, de propriedade de um amigo, afim de fazer uma sondagem pela área marcada.
À noite, não parava de cogitar, quanto à existência de um naufrágio
naquela área, o que me fez realizar uma rápida pesquisa, na tentativa de se
chegar à uma relação de possíveis nomes de naufrágios ainda não
encontrados na região. Era como se alguma coisa me dissesse: " tenho que ir, ele existe !!! "
O dia seguinte...
Início de tarde e recebo a informação do Sérgio, que próximo à marcação realizada por nós,
havia uma mancha estranha acusada pela sonda
da lancha. A diferença da primeira marca não ultrapassava os 150m, e resolvi ligar novamente para o
Ênio e
alguns amigos, para marcamos uma nova operação para o sábado seguinte.
Chega o dia esperado...
Sábado sem ventos e ensolarado, lá
estávamos... Eu, Ênio Couteiro (Over
Sea Dive Center), Lélis J (Dive
Rite), Rodrigo Thomé (Ocean Sports),
João Tavares (Gamma Sub), Silvia
Vidigal e os marinheiros de apoio. Misturas analisadas, pois a profundidade
local beirava os 45m, planejamento e equipamentos prontos, e seguimos em
direção até a nova
marcação, e reiniciar a busca, e mais uma vez, a sonda resolveu não
trabalhar, nos forçando ao processo de garatear o fundo, onde cada membro da
equipe, foi peça importante durante a operação. Gente olhando a navegação,
operando o cabo com a garatéia, observando o GPS, alinhamento em relação à
terra, dentre outros pontos.
Para quem não sabe, encontrar um naufrágio é uma tarefa que requer tempo,
pesquisa, muito bate papo, treinamento, equipamentos, investimento e força de vontade
para realizar as buscas. No dia em questão, levamos duas horas até que o cabo da garatéia cravou em algo, e sem sonda, não tínhamos a certeza
do que havia lá embaixo.
Momentos de tensão e ansiosos, prontamente a primeira dupla (Rodrigo e João) se equipou e desceu para
confirmar o que havia lá embaixo.
Minutos se passavam até que os mergulhadores retornaram com a informação...
"Há alguma coisa lá, mas infelizmente não dá pra ver nada devido à
visibilidade estar extremamente reduzida !!! ".
Viciados em mergulho, eu e Lélis nos olhamos e dissemos: Vamos assim mesmo
!!!
Nos equipamos e fomos conferir de perto o que havia lá embaixo, iniciando a
descida com uma visibilidade inferior à 1m !!!
Difícil de acreditar, mas foi o que pegamos. Metros e metros de descida, e nos 30m, a visibilidade diminuiu para míseros
20 centímetros... Isso mesmo... 20 centímetros... Mal dava para ver os dados
computador, que estava praticamente colado na minha máscara !!!
Com base na informação do Rodrigo e do João, sabíamos que a visibilidade
estava péssima e que a profundidade batia os 45 metros, mas 20 centímetros de
visibilidade,
era realmente uma situação péssima e fora do comum. A água estava o que
chamamos de "caldo de cana", verde e difusa.
Fui à frente do Lélis com uma das mãos à frente, temendo a existência de
uma possível rede de pesca estivesse à frente e presa ao naufrágio. Mas
alguns metros descendo e de repente toquei no fundo arenoso. Parei, esperei a
confirmação da chegada do Lélis e seu OK, e começamos a
tatear à volta, quando à 1m do cabo do barco de apoio, percebi que havia um casco à
minha frente, e veio em mente. " É ELE !!! " pensei...
Voltando do mergulho, chegando ao barco de apoio felizes pela confirmação
de mais uma
posição de naufrágio na costa do Rio de Janeiro.
O segundo mergulho
Passada uma semana, e lá estava novamente em conjunto dos mergulhadores Fábio Conti,
Eduardo Davidovich (Doc) e Bob Light (Roberto da Luz) para mais uma incursão ao
naufrágio não identificado naquele momento. Desta vez, visibilidade em torno dos 12m até os 30m de profundidade, e 1.5
à 2m no casco do naufrágio.
Apesar da baixa visibilidade, consideramos as condições favoráveis para a
exploração no local, onde se conseguiu-se averiguar o tipo de navio, juntamente
com a grande experiência em naufrágios que o Doc possui, aliás, diga-se de
passagem, um dos maiores conhecedores sobre o assunto, e chegamos à conclusão
de que era realmente era o Rio Anil, um navio naufragado em 1952, devido
à colisão com o navio Santarém, do Lloyd Brasileiro. Apesar do choque, ninguém morreu no
acidente.
O Rio Anil era um navio do tipo LCT (Land Craft Tank), voltado ao transporte de
tropas e material bélico. Participou na guerra, e na época do acidente, levava
diversos tipos de carga.
Durante este mergulho, foi observado que a área onde ocorrera a colisão. Apesar
dele estar inteiro, infelizmente ele encontra-se de cabeça
para baixo, posição esta, facilitada devido formato de seu casco. O mergulho em questão foi extasiante e nos deixou extremamente felizes por
este novo ponto de mergulho recreacional técnico. Em mergulhos posteriores,
consegui-se até 3m de visibilidade no local do
naufrágio, porém, como não era a época mais propícia para o mergulho neste
local, acredito que no verão tenhamos excelentes condições de visibilidade.
A pesquisa
Confirmada a identificação do naufrágio que havia sido colocada, a
princípio pelo Elísio como sendo o próprio Rio Anil, realizamos uma
busca por mais detalhes do naufrágio e, no segundo dia, acabei tendo a sorte de
encontrar duas noticias completas sobre o seu afundamento deste navio,
inclusive, com uma foto navio do mesmo,
que apesar de ser antiga e pouco visível, dá idéia de como ele era.
Com a confirmação e identificação realizada, sentimos realmente um grande
prazer fazer parte de pesquisas e operações como estas. É realmente um trabalho
demorado, mas que no fim, vale muito à
pena para aqueles que curtem este tipo de atividade.
Agradecimentos especiais
Todas as operações só foram possíveis com a oportunidade,
dedicação e excelente estrutura da operadora Over
Sea Dive Center de Cabo Frio. Na minha opinião, uma das melhores do país,
devido a sua estrutura.
Ela possui 2 embarcações, sendo uma delas, uma lancha com 40 pés, Trimix,
cascata com mais de 30 cilindros de depósito, piscina, sala de aula,
estacionamento, pousada e até mesmo, um cais próprio.
Aos participantes de todo o processo, ficam os agradecimentos pela
colaboração, garra e vontade em buscar e contribuir em benefício do mergulho
brasileiro, pois no fim, todos nós mergulhadores ganhamos com este novo ponto de mergulho,
onde em breve, a operadora Over Sea estará realizando operações de mergulho no
local, prometendo uma grande temporada de visitação à naufrágios na costa
carioca.
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O Rio Anil no píer

Visão de cima do naufrágio. Ao fundo, a cidade de Cabo Frio.

Um dos barcos da operadora Over Sea, utilizados na busca.
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