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Tunamar - Um navio com
história
Solana Star / Tunamar - "O Navio das
Latas"
Dizem os
pescadores que não se deve trocar o nome de uma embarcação porque
assim se fazendo, a mesma irá a pique. Crenças a parte, o que se sabe
é que de fato o navio Tunamar
(ex-Solana Star) naufragou em sua saída inaugural após uma série de
trocas de nomes, levando consigo 09 tripulantes dos 31 que estavam
embarcados para o fundo e que até hoje se encontram no interior do
navio. Olha que insistiram muito para que a profecia se realizasse, pois
desde a sua construção em 1973, seu nome original foi "Foo Lang
III", trocado em 1980 para "Geraldtown Endeavour", em
1986 passou a navegar com o nome de "Solana Star", em 1990
passou a ser chamado por "Charles Henri", e em 1994, recebeu
finalmente o nome Tunamar.
Um
pouco de sua história...
Ainda sob
o nome Solana Star, havia zarpado da Austrália, de bandeira Panamenha,
com destino aos Estados Unidos, sofreu avarias em seu motor e se viu
obrigado a entrar em águas brasileiras para reparos. Em 13 de setembro
de 1987, sua tripulação percebendo que o navio seria abordado por
fragatas da Marinha Brasileira, jogaram ao mar, sua
"preciosa" carga de 20.000 latas da maconha (22 toneladas) na
tentativa de escapar do flagrante. Das latas lançadas ao mar na costa
do Rio de Janeiro e São Paulo, somente 2.439 (3,5 toneladas) foram
recuperadas pela Polícia, e o restante se espalhou por todo o litoral
desses dois estados, com a ajuda dos fortes ventos e correntezas da
região.
O Solana
Star foi então o protagonizador do "Verão da Lata", e não
é raro encontrar nos dias de hoje estórias de pessoas que compraram
carro, construíram casas e que ainda guardam uma delas (vazia) como
troféu de recordação. Este curioso episódio, também inspirou
vários artistas a usarem o assunto em músicas e sambas enredos, como
por exemplo, a música "Metáfora" de Gilberto Gil, vindo a
ser praticamente um hino na época, com seus versos que metaforicamente
tinham um significado para os usuários; "Uma lata existe para
conter algo, mas quando o poeta diz lata, pode estar querendo dizer o
incontível", dizia a letra da música. O cantor Lenini utilizou o
episódio como inspiração para o samba que dizia: "Tá lá, tá
lá, as latas que vêm do mar, são presença de Iemanjá, para este ano
que inicia". Camisetas viraram moda naquele verão e até mesmo
adereços de fantasias foram usadas no carnaval, onde
"chapéus-latas" cheios de palhas com enormes camarões
vermelhos faziam referencia ao assunto. Realmente, foi um verão de
festas... o "Verão das Latas" !
O Solana
Star foi então apreendido e posteriormente leiloado. Inicialmente para
ser transformado em um iate de luxo e abrigar um cassino flutuante, mas
o projeto não foi levado adiante pois a lei que liberaria o jogo no
Brasil não foi aprovada. O navio então foi transformado em um
pesqueiro atuneiro e recebeu o nome de Tunamar.
O Afundamento
Na época
foi considerado o mais moderno e equipado pesqueiro do Brasil, mas na
madrugada do dia 11/10/1994 em uma saída comercial inaugural por volta
de 2h quando seus tripulantes (pescadores) já dormiam, uma tragédia
estava por acontecer. Chovia e ventava muito forte, quando uma
sequência de duas grandes ondas o pegou de través fazendo aderná-lo.
Por quatro horas, o Tunamar resistiu boiando totalmente emborcado e
parte da tripulação ficou agarrada a seu casco ouvindo os pedidos
apavorados de socorro dos infelizes que não conseguiram sair da
embarcação a tempo. Todos os que estavam no interior do navio, estavam
dormindo nos aposentos de proa, onde a única saída era um corredor que
terminaria na popa. Quando a embarcação virou, este corredor foi
bloqueado por objetos que caíram transformando o aposento em uma bolha
de ar que seria uma eterna prisão para aqueles que pereceram dentro do
navio.
Já
amanhecia quando o Tunamar não mais resistia flutuar e começou afundar
em meio aos gritos desesperados dos que estavam em seu interior. Em
pouco tempo o silêncio instaurado somente era quebrado pelo choro e
preces de agradecimento daqueles que sobreviveram ao naufrágio.
Começava então mais uma luta pela sobrevivência, nadar até a costa e
resistir ao frio das águas geladas da região. O saldo deste acidente
deixou vinte e dois sobreviventes, dois mortos e nove desaparecidos que
ficaram no interior do navio. O barco que havia saído da Ilha da
Conceição (Niteroi-RJ) com destino à Santa Catarina-SC onde faria a
pesca de atum e com passagem anterior programada para a região de Cabo
Frio para aquisição de iscas vivas (sardinhas), terminou
inesperadamente em sua viagem inaugural, transformando-se em um túmulo
para aqueles que pereceram em seu interior.
O Tunamar
é hoje um naufrágio que deve ser mergulhado com muito respeito e
seriedade, pois não só guarda parte de sua tripulação em seu
interior, assim como uma tumba mortuária, mas também pela profundidade
em que se encontra (65 metros) e região onde naufragou, que reserva
condições desfavoráveis tanto para a navegação quanto pela
presença de correnteza de até 12 nós. Realmente é um naufrágio
magnífico que deixa seus batimentos cardíacos acelerarem, seus olhos
ficarem alertas para qualquer movimento, sua respiração ser uma prece
e seu ouvido ficar em meio a um silêncio profundo que só é quebrado
com sua respiração.
Desde a
época de seu afundamento o Cimatech vêm realizando mergulhos no local. Inicialmente na tentativa de resgatar
os corpos das vítimas e também para identificar a causa real do
naufrágio (perícia técnica). Os primeiros mergulhos foram realizados
a AR e posteriormente com TRIMIX. Na época, não havia no Brasil,
disponibilidade de cursos técnicos que pudessem credenciar
mergulhadores a realizar este mergulho com maior segurança e tão pouco
equipamentos adequados para isso. Imaginem que o primeiro mergulho no
naufrágio foi realizado a ar, com dois cilindros S80 amarrados um ao
outro, com barbantes e fitas adesivas, hoje considerado suicídio chegar
a esta profundidade (65 metros) com esta configuração, mas era o
único jeito de se chegar lá. Na busca de maior segurança para os
mergulhos a serem realizados, o CIMA se aperfeiçoou e veio a lançar em
novembro de 1996 a primeira operação TRIMIX no Brasil, levando os
mergulhadores Paulo Dias, Célio Durães e Antonio
Libertino a alcançarem com segurança o naufrágio sem a presença
da narcose.
O Mergulho
Desde seu afundamento, já realizamos
vários mergulhos no Tunamar e cada um teria uma história peculiar a ser
contada, mas relato aqui o último realizado.
Mergulhar no Tunamar é uma atividade
que envolve muita prática e uma excelente equipe de superfície para
proporcionar o mínimo de segurança para o mergulho. O mergulho técnico,
hoje praticado no Brasil, não pode ser comparado a um mergulho em outras
partes do mundo. Não querendo desmerecer aos outros, mas mergulhar na região
sudeste do Brasil requer muito mais do que certificação, pois teoricamente
aqui não há como garantir um mergulho de águas claras, quente e sem
correnteza. Então, aquele que deseja realizar o mergulho no Tunamar deve ter
total capacidade para resolver os problemas que irá enfrentar durante seu
mergulho, caso contrário ficará por lá e uma operação de resgate seria
totalmente impraticável.
Um grande problema que encontramos na
área do mergulho é a presença de correnteza em torno de nove nós (muito
forte). Isso se torna um problema tanto para ancorar o barco em cima do
naufrágio, quanto para os mergulhadores que se soltarem do cabo de descida,
pois existe a possibilidade de serem arrastados para longe do ponto de
mergulho.
Outro grande problema do local são
as condições de mar que mudam repentinamente, tornando o trabalho da equipe
de superfície bastante complicado, pois não se deseja outro naufrágio na
área.
Vários amigos já me questionaram do
porque de não se deixar uma bóia definitiva no local para minimizar os
trabalhos para um mergulho, mas infelizmente qualquer bóia que seja colocada
no mar nesta região, não ficaria lá por muito tempo, pois os pescadores
têm o mau hábito de retirar da água, qualquer coisa que lhes possam ser
útil e mesmo que por sorte ninguém a veja, a correnteza no local é capaz de
arriar a bóia, fazendo-a desaparecer da superfície. Mesmo que nada disso
aconteça, a região tem uma capacidade incrível de formação de cracas e
mariscos que se agarram com rapidez ao cabo tornando com o tempo um peso em
que a bóia não mais suporta, vindo a afundá-la.
Resumindo, mergulhar no Tunamar
requer também uma boa dose de paciência para se aguardar a fixação do cabo
de descida ao naufrágio. Esta operação de fixação sempre é demorada e
cansativa, mas é a única maneira de se conseguir mergulhar lá.
Em nosso mergulho, após mais de duas
horas tentando fazer a "garatéia" se prender ao naufrágio e assim
preparar tudo para proporcionar a descida ao mesmo, eu já olhava os
mergulhadores Lélis Couto e Paulo Tessarollo com pena da espera que foram
impostos para realizarem o mergulho. Mas eles estavam determinados a descer e
captar novas imagens do naufrágio, e nada os fariam desistir do mergulho
naquele momento.
Tudo pronto e lá foram eles para
baixo. Toda a equipe de superfície ficou em prontidão aguardando o retorno
de ambos. Passaram-se uns dez minutos do início do mergulho e avistamos a
nossa frente uma nuvem que vinha em nossa direção com rapidez ! O alerta foi
dado à tripulação que passaríamos por maus momentos na superfície. Um
temporal se formou com ventos e ondas muito forte. O barco não conseguia
ficar na área do mergulho para prestar o apoio aos mergulhadores, a bóia de
marcação sumiu tragada pelas ondas e a visibilidade da superfície impedia
que o capitão da embarcação conseguisse visualizar a proa de nossa
embarcação. O silêncio na embarcação anunciava o que todos sabiam o que
iria acontecer caso não conseguíssemos nos manter no local do mergulho, mas
também sabíamos que seria impossível conseguir.
Os mergulhadores iriam voltar e
simplesmente não conseguiriam se manter na superfície com aquelas ondas e
nem tão pouco conseguiriam embarcar, mesmo que estivéssemos a seu lado. Uma
sensação desconfortável de impotência diante da Mãe Natureza, sentíamos
que mais uma fatalidade estava preste a acontecer no mesmo local do naufrágio
e eu já começava a arquitetar um plano para a inevitável busca dos
mergulhadores. Foi quando de repente a chuva e o vento pararam e o mar voltou
a ficar como uma piscina !
O sorriso de alívio se abriu no
rosto de todos e imediatamente a bóia surgiu novamente a nossa frente. Agora
restava somente uma dúvida: Será que os mergulhadores tiveram problemas lá
em baixo durante a tempestade ? Silêncio e atenção na espera angustiosa no
aguardo do retorno deles. O limite do tempo máximo do tempo de mergulho
estava chegando ao fim e a hora da resposta a nossas dúvidas se aproximava
quando avistamos aliviados bolhas surgindo junto à bóia indicando que já
estavam cumprindo a longa descompressão para poderem retornar a superfície.
Mais aliviados ficamos ao perceber
que o lift de "alguma emergência" não subiu, indicando para nós
que estava tudo bem. Cumprido o tempo de descompressão, ambos os
mergulhadores apareceram na superfície com um sorriso de satisfação
estampado em seus rostos, tudo havia corrido muito bem e como o planejado.
Já a bordo, Lelis e Tessarollo não
acreditavam na história que estávamos relatando sobre nosso sufoco durante o
mergulho deles, afinal o céu estava ensolarado e não havia sinal algum de
que alguma tempestade estava por vir ou mesmo que havia passado.
Fui para a proa do barco e comecei a
refletir de todos os mergulhos que já realizamos por lá, todos sem exceção
tiveram problemas que curso algum pode ensinar, lá embaixo ainda guarda os
corpos dos que morreram no interior da embarcação e não deixa de ser um
Túmulo. Já tentei por várias vezes resgatar os corpos afim de entregá-los
as suas famílias, mas existem obstruções que impedem o resgate, e tudo
indica que lá será o descanso daqueles que pereceram no desastroso
naufrágio.
Pois bem, mergulhar no Tunamar requer
não só uma técnica apuradíssima quanto também à coragem de se enfrentar
as forças ocultas que lá te esperam.
Localização
O Tunamar
está localizado a 1.5 milha da Ilha de Cabo
Frio, em Arraial do Cabo - RJ,
sendo um ponto muito próximo à costa.
Apesar da
proximidade, o mar local dificulta bastante as operações, tendo assim,
a exigência de mergulhadores experientes para realizarem a operação no
local.
Esta matéria
foi realizada por Lélis J e Paulo Dias,
que após algumas tentativas para efetuar o mergulho no local, devido às
condições de mar e tempo, conseguiram realizar o mergulho como planejado.
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Fotos: Paulo Dias
VÍDEO
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Informações adicionais:
Profundidade Mínima / Máxima:
54m / 63m
Visibilidade média:
15m no raso / 3 no fundo
Temperatura média:
17 ºC no raso / 13 ºC no fundo
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