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O naufrágio do Hermes e a morte do escritor Manuel Antônio de
Almeida
Na ocasião do desastre do vapor Hermes na madrugada do dia 28 de
novembro de 1861, na costa de Macaé, o jornal Correio da Tarde, fez o
seguinte necrológico:
"Dentre as vítimas, que veio lançar o luto no seio de muitas
famílias, não podemos deixar de mencionar especialmente o Sr. Dr.
Manoel Antônio de Almeida, cuja morte prematura roubou à imprensa
fluminense e às letras pátrias um dos seus representantes, que mais
honra lhes dava".
Sobre a morte do autor de "Memórias de um Sargento de
Milícias", o renomado escritor José Veríssimo escreveu:
"Com ele, pode dizer-se, naufragou a talvez mais promissora
esperança do romance brasileiro".
A companhia de navegação União Campista e Fidelista
Ao norte da província do Rio de Janeiro, o governo estava para
inaugurar o mais longo canal do Império. A escoação da produção
agrícola campista esteve sempre atravancada pela foz estrangulada do
rio Paraíba. Havia necessidade de grandes navios para embarcar a
abundante produção agrícola. Mas estes só poderiam ancorar com
segurança, bem mais ao sul (depois do Cabo de São Tomé), isto é, no
porto de Imbetiba, em Macaé. E assim o longo canal Campos-Macaé, foi
aberto a braço escravo, para escoar a riqueza campista. Seria um dia
festivo, pois junto com a comemoração de abrir-se uma via de
comunicação com o município de Campos, era o aniversário de Dom
Pedro II.
O município nortista vivia bons momentos. A produção de açúcar
no ano de 1861 excedeu as esperanças, e muitos fazendeiros de Campos
chegaram a perder muita cana, não por causa da seca, mas por faltar-lhe
materialmente o tempo para moê-la. A safra de legumes também foi
abundante.
Versões diferentes sobre os objetivos que levaram o escritor a
viajar para Campos
Escrevem alguns que Manuel Antônio de Almeida viajou para cobrir a
reportagem da inauguração do colossal canal, o que não é verdade,
pois ele já estava fora do Mercantil por um bom tempo, outros escrevem
que ele foi tratar de assuntos ligados a sua eleição, pois,
aproximava-se o dia em que a Província tinha de escolher os deputados
à sua assembléia, o que também não parece ser verdadeiro, pelo fato
de ele não fazer parte do colégio eleitoral de Campos. Almeida na
ocasião exercia a posição de 2º conselheiro oficial da Secretaria de
Estado dos Negócios da Fazenda, e acredita-se que por força de sua
posição naquela Secretaria, tivesse se deslocado para Campos, a fim de
representá-la nas festividades da importante obra para a economia do
Império escravocrata. Porém, descobrimos que Manuel Antônio de
Almeida, cuja pobreza, somada à necessidade de sustentar mãe e irmãs,
levou-o a buscar "um dos lugares da inspetoria itinerante da escola
na Província", o que lhe renderia alguns réis, conforme comunica
a Quintino Bocaiúva, com quem mantinha correspondência regular.
Portanto, acreditamos, que sua ida a Campos tenha sido motivada por sua
atividade como inspetor escolar. Tal pesquisa, já fizemos chegar ao
conhecimento do presidente da Academia Brasileira de Letras, na qual
Manuel Antônio de Almeida é patrono de uma de suas cadeiras.
A última viagem do vapor Hermes
Muitos dos alegres hóspedes do pequeno vapor Hermes, certamente
debruçados na amurada, apreciavam a magnífica baía de Guanabara.
Naquele tempo, a paisagem não seria mais encantadora. Na medida que o
casco rompia a superfície límpida e prateada das águas da baía, mais
se extasiavam com o cenário imponente das montanhas cariocas cobertas
por uma vegetação de um verde refrescante. E pouco a pouco, à
distancia, se avistavam encimando os morros e em meio ao casario de
telhado vermelho, as torres e pináculos, os campanários, as cúpulas
das igrejas seicentistas e setecentistas de um Rio oitocentista. As
imagens tão íntimas das moradias e dos templos do anedótico e
folclórico mundo carioca, abraçado por uma natureza exuberante, Manuel
de Almeida as viu pela última vez, quando o vapor começou a procurar o
rumo norte do mar da Província. O benquisto Maneco que havia no mês de
outubro último, completado 30 anos, olhou para sua cidade e deu o seu
último adeus.
Vidas enlutadas
Depois de uma viagem, no qual encontrara vento e correntes
contrários, o Hermes chegou à enseada de Macaé por volta das 3 horas
da madrugada do dia 28 de novembro de 1861, para desembarcar três
passageiros, e após uma curta demora, o Hermes zarpou para logo em
seguida naufragar, logo após bater na Tábua, escolho situado próximo
da praia macaense e que na época ainda não estava cartografado pela
Marinha de Dom Pedro II. O que só se sucedeu, após a tragédia. E de
lage da Tábua, foi o escolho batizado: "Pedra do Hermes" -
hoje o perigoso local encontra-se sinalizado, principalmente por causa
do grande fluxo de embarcações em torno do porto de Imbetiba, por
conta das atividades da Petrobras.
As cartas dos moradores da cidade de Campos, que chegaram as
redações dos jornais da Corte do Rio de Janeiro, após o sinistro,
como as próprias notas da imprensa, desabaram-se em denúncias e
acusações contra a gerência da companhia e contra o capitão do
Hermes. Eis algumas delas:
"Devendo no dia 30 partir da corte o vapor Ceres para Cabo Frio
e Macaé, por que razão o Hermes desviou-se de sua derrota contra o
anúncio dados aos passageiros. Mas o que é verdade é que este
capricho da gerência em favor dos três passageiros para
Macaé..." (Correio Mercantil).
"Uma triste realidade veio ontem enlutar a muitas famílias e
provar mais uma vez o desleixo e imprevidência com que se fazem
geralmente entre nós, os serviços públicos". (Diário do Rio de
Janeiro).
"Esta catástrofe foi toda devida à imprudência do comandante.
O Hermes nessa viagem não tinha que fazer escala pôr Macaé. Entrou
nesse porto por interesse de alguns passageiros a que o comandante quis
servir. Como, porém, o desvio da derrota marcado retardava a viagem, e
o vapor não poderia chegar à barra de Campos com maré que desse
entrada o comandante assentou de seguir em rumo direito, deixando de
fazer a volta de costume, e deu com o vapor sobre as pedras. Ficará
impune o homem que enlutou tantas vidas?" (A Atualidade).
Finalmente, o descanso eterno
A imprensa recebeu a lista dos sobreviventes, e certificou que o nome
de Manuel Antônio de Almeida ali não se encontrava. O Correio
Mercantil, logo pranteou a sua morte, certamente por intermédio do
punho de alguém que conheceu Almeida nos anos em que ele lá trabalhou:
"Na lista dos náufragos que escaparam do desastre, não
encontramos o nome de um nosso irmão de letras, o Dr. Manoel Antônio
de Almeida... Dotado de um talento extraordinário, Almeida adivinhava
com alguns momentos de atenção tudo o que não estudava e escrevia
sobre assuntos examinados de relance como se de longo espaço os tivesse
aprofundado. Apesar de sua imaginação ardente, tinha um estilo rápido
e conciso, de sorte que os seus artigos eram admiráveis pela sobriedade
da frase, abundância da idéia e beleza da forma. Se a agitação de
sua vida não o houvesse desviado da imprensa, Almeida podia ter sido o
mais ilustre de nossos jornalistas. Mas esse infeliz mancebo, arcando
com a pobreza e tendo de prover a subsistência e futuro de suas irmãs,
viu-se obrigado a deixar a carreira de sua predileção, que poucos
lucros oferece, roubando entretanto o melhor do tempo, o sossego de
espírito e até mesmo as amizades irritadiças. Há um ano que ele
vivia como que em desespero, e desanimado dos homens e de si próprio. A
viagem que empreendeu era ainda um esforço contra o mau destino. Foi o
último: parece que ele pode dizer como Alfieri: Finalmente
descanso".
Enterraram seu corpo desfigurado no cemitério do Barreto
À medida que o tempo passava, os corpos que davam nas praias
apresentavam-se irreconhecíveis. Ao sul de Macaé, na praia de
Itapebussus, veio dar um cadáver de homem, que beirava uns 25 anos.
Também naquela praia apareceram caixões com livros, uma outra caixa
contendo objetos de daguerreótipo, uma agulha de marear, alguns
lavatórios, entre outros objetos. Consta que bem mais ao sul - na costa
de Armação dos Búzios - apareceram dois corpos, um já sem cabeça, o
qual foi sepultado no cemitério da capela local e outro de um menino
que pelo estado adiantado de decomposição, foi sepultado na mesma
praia. Ali também veio dar um baú, que continha roupas.
E o corpo de Almeida foi devolvido pelo mar ? Uma carta de
Macaé publicada no Correio Mercantil, datada de 4 de dezembro e
assinada por um tal Dr. Portela, tem a seguinte informação:
"Depois da partida do Ceres, apareceram quatro cadáveres de
brancos na praia do Norte, Eu e três companheiros fizemos enterrá-los
no cemitério do Barreto; mal sabia eu então que mandava dar sepultura
cristã a um amigo nosso. O Dr. Manoel Antônio de Almeida. Quando hoje
disseram-me que ele tinha vindo no Hermes e perecido no naufrágio,
combinando a marca da roupa (ceroulas e meias) com os traços um pouco
desfigurados do seu rosto, que na ocasião me pareceram estranhos,
nenhuma dúvida tenho de que era seu um dos corpos que mandamos enterrar
no cemitério ..."
"Morreu ali um grande talento, um grande caráter e um grande
coração"
Para finalizar, transcrevemos abaixo, o que escreveu o A Atualidade,
quando, soube-se que Maneco, não havia sobrevivido na catástrofe do
Hermes:
"Cada família que ali perdeu um membro chora hoje esse
infortúnio sem remédio. A dor da literatura é das mais intensas e das
mais legítimas; também a família dos escritores perdeu ali um de seus
filhos que maior honra e mais firmes esperanças lhes dava. Morreu ali
um grande talento, um grande caráter e um grande coração."
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