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Operação IPesca V
O Estado do Ceará possui quilômetros e mais quilômetros de
litoral, e em suas águas, dezenas de navios ou barcos repousam no
fundo, inertes, ainda desconhecidos por todos. Por isso, a
identificação e localização de apenas um desses
"mistérios", é recebida com comemoração pela comunidade
subaquática.
Cada naufrágio guarda um pouco de nossa história. São partes
preciosas, porém, esquecidas de nosso passado e, quando mergulhamos em
um deles, é como se voltássemos no tempo e revivêssemos um pouco dos
seus dias de glória. Seja um cargueiro que encalhara, um avião que
caiu, ou simplesmente um pesqueiro que não conseguiu enfrentar o mau
tempo. Todos eles têm uma história singular, trágica ou não, sendo
triste e emocionante...
Recebemos com muito entusiasmo no último dia 25, a informação
sobre a localização de mais um naufrágio. Francildo, o mestre da
embarcação Manta II, que atualmente opera com o Projeto Netuno, nos
passou a informação que havia obtido com um pescador a possível
localização de um pesqueiro de ferro naufragado há uns sete anos.
Francildo nos contou também, que era um barco de pesca, provavelmente o
Ipesca V da empresa de mesmo nome (essas empresas de pesca normalmente
colocam seu nome nos barcos, seguido de uma numeração), e foi ao fundo
devido ao mau tempo.
O naufrágio está em frente a Praia do Cumbuco, a 28km do Porto do
Mucuripe, em Fortaleza e é um ponto constantemente visitado por
pescadores.
O litoral da cidade de Fortaleza possui poucos naufrágios conhecidos
realmente "mergulháveis", por isso, a noticia foi recebida
com muito entusiasmo e logo organizamos uma expedição.
O Projeto Netuno cedeu o barco e equipamento necessário, o mestre da
embarcação se prontificou a nos levar ao local sem nenhum custo e nós
organizamos a logística e mergulhar !
O Mergulho
Formada a equipe, éramos 6 mergulhadores, Eu (Marquinhos), Gonça,
Miguel, Danilo, Fernanda e Thadeu, definimos a data: quinta-feira, 30 de
Março, estava marcada a "Operação Ipesca V".
Partimos do cais pesqueiro às sete horas da manhã esperando uma
viagem de duas horas até a marcação. O mar caracteristicamente calmo
nessa época do ano, ajudou bastante no andamento da operação. Não
sabíamos a precisão da marcação nem a profundidade da região,
imaginávamos algo em torno de 30 metros.
Após 2 horas exatas de navegação, zeramos o GPS e foi lançada uma
garatéia. Enquanto isso, como havíamos planejado, eu e o Miguel nos
preparávamos para fazer a primeira inspeção.
Essa época do ano a temperatura da água oscila entre 29 e 30ºC –
para a inveja dos sulistas – o que torna o mergulho bem confortável,
mas quando entramos na água, uma surpresa não muito boa: a
visibilidade estava entre 2 e 5 metros, o que dificultaria a
localização do ponto exato do naufrágio, caso a marcação não fosse
precisa.
Descemos ao fundo, 23 metros, Miguel e eu iniciamos uma busca
circular ao redor da garatéia. Depois de 20 minutos de fundo, Miguel
começou a ter problemas com a sua máscara fullface e retornou a
superfície. Continuei a busca e encontrei apenas areia, uma faca de
pesca, um anzol e uma chumbada, mas nada do Ipesca.
Concordamos que os artefatos encontrados eram fortes indícios de que
o naufrágio estava perto. Navegamos 200 metros a barlavento para jogar
uma segunda garatéia, mas encontramos uma bóia. Quase comemoramos,
pensando que tínhamos encontrado. Miguel se equipou e desceu, mas logo
voltou contando que a bóia estava amarrada a um saco com pedras. Uma
bóia presa a um saco com pedras no meio do mar, não era possível, ele
tinha de estar ali !
Os jangadeiros normalmente amarram uma bóia há algumas centenas de
metros a barlavento do ponto onde pretendem pescar, para fundear suas
jangadas. Miguel desceu novamente para iniciar mais uma busca e nada
encontrou.
E agora ? Tendo a bóia dos jangadeiros como referência, fomos mais
200 metros para o lado da terra e jogamos uma segunda garatéia, fazendo
um triângulo com a primeira e a bóia dos jangadeiros. Desci para
conferir e nada encontrei além de duas rêmoras que me perseguiram
durante todo o mergulho.
Retornando à embarcação, conversamos à respeito. Onde procurar
agora era a pergunta, mas para a nossa sorte, avistamos um jangadeiro
vindo em nossa direção. Sozinho em uma jangada, esse jangadeiro
fundeou seu pequeno barco na bóia e nos apontou onde estava o
naufrágio. Sozinho, sem GPS ou qualquer dispositivo eletrônico esse
homem do mar deu uma surra na tecnologia e em nós, mergulhadores.
Com a dica do pescador, Danilo e Gonça desceram cada um segurando em
uma ponta da carretilha a fim de "lançarem" o barco. Idéia
que logo foi abandonada pelas dificuldades encontradas. Danilo subiu à
bordo e o Gonçaa continuou a busca. Depois de alguns minutos o Gonça
retornou comemorando. Havia encontrado o Ipesca V.
O Ipesca estava há alguns metros a sotavento da primeira garatéia.
Provavelmente, durante a primeira busca circular a linha da carretilha
enganchou em alguma esponja e me desviou do naufrágio.
Esperamos duas horas para fazer uma boa dessaturação e mergulhar
tranquilos no Ipesca.
Descemos por um cabo que o Gonça amarrou no convés. O naufrágio
estava coberto por um cardume imenso de Xila, que tornaria o mergulho
lindo se a visibilidade não estivesse tão ruim.
É um barco pequeno, aproximadamente uns 10 ou 12 metros de
comprimento e está há 25 metros de profundidade na areia e 22 no
convés. Está parcialmente destruído. Apenas o seu casco de ferro e
madeira estão inteiros, mas não há nada onde seria a cabine de
comando, desta, existem apenas restos de metal espalhados pelos lados.
É possível penetrá-lo e percorrer toda a sua extensão, mas não há
nada além de peixes em seu interior. Ao seu redor, junto ao casco,
encontram-se marambáias de pneus (estruturas feitas pelos pescadores
para formar recifes artificiais) e pedaços de redes de pesca.
A vida marinha é rica. Cardumes de Xila, Galos, Parús, Peixe-Anjo e
Arraias "Bico de Remo" foram vistos durante o mergulho.
Deve-se tomar cuidado com algas urticantes que cobrem a estrutura e são
comuns em naufrágios aqui no Ceará. Apesar de parcialmente destruído
é um mergulho bonito e vale a pena conferir, afinal é um pouquinho da
história da pesca cearense que está lá no fundo.
Fizemos apenas um mergulho no naufrágio, pois já estávamos todos
cansados e saturados depois de um dia duro que já estava no fim.
Voltamos à noite e chegamos ao cais por volta das vinte horas. Todos
muito satisfeitos, pois agora Fortaleza, temos um novo ponto de
mergulho.
Participaram da "Operação Ipesca V":
- Subtenente
Gonçalves, Instrutor CMAS e o primeiro mergulhador de resgate do Corpo
de Bombeiros do Ceará
- Marcus Davis, Dive Master PADI e fotógrafo de
esportes radicais
- Luís Miguel, mergulhador de Regaste PADI, mergulhador
três estrelas CMAS e mergulhador profissional
- Danilo, mergulhador
avançado PADI
- Fernanda, mergulhadora avançada PADI; Thadeu Viana,
mergulhador básico CMAS
- Francildo, mestre da embarcação Manta II.
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