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Califórnia: Traído por sua valiosa carga

A História

Angra dos Reis: a região ganhou prestígio econômico a partir do século XVII e virou o segundo maior atracadouro da Colônia. Atendia aos engenhos de açúcar, era ponto de tráfico negreiro e escoava o ouro extraído em Minas Gerais, que chegava até Angra levado em lombo de burro pela chamada trilha do ouro. A possibilidade de abater naus portuguesas carregadas atraía para o mar de Angra navios piratas de diversas nacionalidades.

Não há confirmação oficial sobre o que causou o incêndio à bordo do Califórnia em 1866 mas a cultura local afirma que ele foi vítima de um ataque destes piratas. Navio à vapor, com propulsão de rodas laterais e casco de madeira, o Califórnia transportava uma carga valiosa: um grande estoque de seda, linha de ouro para a costura das roupas de Jesuítas e uma encomenda destinada ao Imperador Dom Pedro II. Dezenas de caixotes, cada um com sete armas artesanais, chamadas "Pederneiras", fabricadas pela famosa firma inglesa "Lacy Company" e marcadas com o brasão do imperador brasileiro.

Ainda segundo à informações locais, não houve sobreviventes do incêndio seguido de naufrágio do valente vapor mas o que o navio transportava e guardava a 8 metros de profundidade, sobreviveu até a década de 70 quando piratas modernos descobriram o naufrágio.

Equipados com uma draga, muita peça de bronze, a corrente do navio, buzina, louças e muitas das armas de Dom Pedro foram retiradas e vendidas a quem se interessasse. Alguns desses piratas afirmam que o navio também transportava uma carga de licor Cointreau, fato que batizou o navio de "Navio do Licor", antes de ser corretamente nomeado. Os anos se passaram e muitas outras pessoas tiraram um pedaço do Califórnia como souvenir.

Visitando o navio

O vapor Califórnia sempre foi mais valorizado pelos mergulhadores de naufrágio certificados com tal especialidade. Isto se deve ao fato do navio já estar desmantelado há um bom tempo e não agregar grande quantidade de vida marinha. Praticamente esquecido na enseada da Praia Vermelha, Ilha Grande, o mergulho neste navio é bastante simples. Localizado em águas abrigadas e a uma profundidade de 8 a 15 metros, este ponto de mergulho pode ser aproveitado por mergulhadores iniciantes e experientes.

Para aqueles certificados em mergulho em naufrágio e consequentemente conhecedores das estruturas que compõem um navio à vapor, a viagem ao século 19 vale a pena. Começando o mergulho pela proa, sua parte mais rasa, encontramos as caldeiras do navio, dispostas lado a lado juntamente com o condensador. Toda sua cobertura já se foi, provavelmente devido à ação de dinamitação. Tal fato também deixou à mostra a tubulação das caldeiras.

Próximo a esta estrutura, algumas pessoas afirmam ter localizado o remanescente de outras cargas que o navio transportava como escovas de dente e pentes.

Seguindo em direção à popa chegamos aos motores. Neste local fica a parte mais alta do naufrágio onde vemos, com alguma perícia, parte das rodas de pás que outrora eram responsáveis pela propulsão do Califórnia.

É interessante lembrar que na região sudeste é difícil encontrar um navio mergulhável com este tipo de característica. Em Pernambuco encontramos quatro naufrágios movidos à Roda de Pás: Pirapama, Vapor de Baixo, Vapor dos 48 e Vapor Bahia e a partir de uma visita a estes navios podemos ter uma idéia de como era o Califórnia.

Continuando nosso mergulho, chegamos à parte mais funda do naufrágio. A água costuma ser mais fria e pouco resta do navio. Os mais aficionados e conhecedores do local costumam cavar para ver restos da madeira de lei que compunham parte do casco do navio.

Conforme dito no inicio deste artigo, não há vida abundante no local mas ainda assim, visitar as estruturas de um vapor de rodas é bastante gratificante a qualquer mergulhador e um retorno aos primórdios da navegação à vapor e à historia da Ilha Grande.

 
Modelo idêntico / Por: Rodrigo Coluccini

 

Fotos: Maurício Andrade

 

 

Fotos: Clécio Mayrink

Local do afundamento


 
Rodrigo Coluccini
, criador e proprietário da Revista Deco Stop, foi um dos responsáveis pela divulgação em larga escala das informações sobre naufrágios no litoral brasileiro, fato antes restrito a poucos. É co-autor do manual de naufrágios da certificadora PDIC. Seu trabalho é citado em vários livros atuais sobre história maritima brasileira confirmando a importância de seu trabalho.

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