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O naufrágio do transatlântico Principessa
Mafalda ao largo dos Abrolhos
Batizado em homenagem a princesa italiana Mafalda, o velho navio (foi
construído em 1908) da Navigazione Generale Italiana de 147 metros de
comprimento, protagonizou uma das maiores catástrofes da história trágico-marítima,
ocorrida na costa brasileira.
O Principessa Mafalda, vinha de Gênova em direção aos portos da América
do Sul, sob o comando do capitão Simoni Guli, transportando 971
passageiros (a maioria era constituída de imigrantes) e 288
tripulantes.
Às 17 horas e 10 minutos do dia 25 de outubro de 1927, próximo do
arquipélago dos Abrolhos
(costa sul da Bahia), cruzou com o vapor Empire Star.
Dez minutos depois, o Empire Star recebeu um SOS do Mafalda e de
imediato mudou o curso para alcançar o navio italiano, que o encontrou
parado e com os botes salva-vidas ainda içados. Vía-se uma multidão
de passageiros que se amontoava nas estruturas superiores, externando
grande pânico, alguns passageiros inclusive pulavam no mar, enquanto os
botes salva-vidas eram descidos. Consta que estando alguns deles tão
lotados de gente, que dois afundaram assim que tocaram na água.
O comandante do Empire Star mandou seus botes socorrer os ocupantes
do Mafalda. Bem mas tarde se juntaram na operação de resgate, os botes
do vapor francês Formose. Encontra-se registrado que a causa do naufrágio
do Mafalda, foi decorrida da quebra do eixo propulsor, e pelo choque das
pás de um dos hélices - deslocada do respectivo eixo - danificou
seriamente a estrutura da popa, por onde a água do mar invadiu o
interior do casco, atingindo a casa das máquinas e demais
compartimentos do navio, aos borbotões.
Mas tarde quando os passageiros perceberam que o navio adernava para
bombordo, o pânico se espalhou entre eles e a tripulação não pode
mais os conter. Em seu diário, o capitão B. Allemand, comandante do
Formose, registrou os momentos dramáticos que envolveram a perda do
navio italiano, assim como o desespero que tomou conta de seus
ocupantes:
"...O comandante do Principessa Mafalda pedia socorro imediato,
dando a sua situação. Foram dispostas todas as embarcações e
aparelhos de salvamento e tomadas as medidas para socorrer, receber e
alimentar os náufragos. Fiz evacuar as cabines ocupadas pelos homens, a
fim de que nelas fossem alojados os passageiros que salvássemos. Às 17
horas e 40, ouvimos o cargueiro inglês Empire Star comunicando-se como
o Principessa Mafalda e que lhe estava próximo. Mafalda disse: "Temos
avaria grossa nas máquinas". Logo que esta comunicação terminou,
nós prevenimos o paquete italiano de que íamos ao seu encontro. Ele
entrou imediatamente em comunicação com o vapor holandês Alhena, que
também estava próximo do local do acidente. Às 17 horas e 46 a emissão
do Princepessa Mafalda terminou. Às 17 horas e 46 minutos o Formose fez
um chamado geral, dando SOS a todos os navios, que se achavam nas
proximidades, dizendo-lhes que fossem em socorro do Mafalda, cuja posição
foi dada. Às 18 horas perguntamos ao Empire Star, a situação do
Mafalda e o navio inglês respondeu haver recolhidos os náufragos e que
o navio ainda não naufragara e também que os escaleres estavam com inúmeros
passageiros. Às 18 horas e 15 nos comunicamos com o Alhena, dizendo-me
que chegaríamos junto dele pelas 20 horas e 30. O navio holandês
respondeu: "Chegareis muito tarde". Às 18 horas e 20 os
navios Empire Star e Alhena continuavam o salvamento.
As mesmas horas, transmitimos ao paquete francês Mosela sinais de
SOS e detalhes colhidos. O Mosela seguiu em encontro ao Mafalda e nós
lhe pedimos se preparar para nos passar colchões e cobertas. Às 18
horas e 30, o Mafalda retomou a sua emissão com seu posto de socorro e
no disse: "Venha depressa, há ainda muitos passageiros a bordo e não
temos mais luz".
Às 20 horas, o Mafalda nos informou que não havia mais barcos
efetuando salvamento de cerca de 500 passageiros que ainda se
encontravam a bordo. Chegamos ao local do acidente às 21 horas, e
passamos a 50 metros mais ou menos do Mafalda, que apresentava um grande
rombo a bombordo; a sua popa estava quase submersa e não poderia
flutuar por muito tempo. Era imprudente encostarmos demasiadamente.
Dois grupos de barcos salva-vidas foram descidos ao mar, sob o
comando de Valtat René, primeiro oficial, e de Pallet Germain, segundo
oficial. As ondas eram grossas e a manobra das embarcações foi lenta e
difícil. Dois grupos de escaleres foram descidos, comandados por Lena
Dominique, mestre de equipagem, e por Rosseti Giovanni, capitão da
marinha mercante brasileira, passageiro do Formose, e que se apresentou
voluntariamente, a fim de participar do salvamento.
As embarcações comandadas por Valtat encostaram ao Mafalda e
recolheram apenas quatro passageiros; os outros todos se refugiram sobre
o último convés. As comandadas por Pallet, atracaram à escada de
bombordo, porém tiveram que se afastar logo, porque tudo anunciava o
fim imediato do navio. Recolheram os passageiros que tiveram a coragem
de se jogar ao mar, enquanto que os que as tripulavam viram o comandante
do Mafalda, sobre a ponte de comando, tirar o boné e arremessá-lo
fora, e, depois, apitar três vezes, sem dúvida para saudar o que
tentaram em vão, salvar os passageiros. Às 21 horas e 45, o Mafalda
afundou pelo lado da popa, num estrondo espantoso, dominado quase pelos
gritos dos desgraçados ficados em seu bojo. A partir das 22 horas as
embarcações raramente trouxeram outros náufragos, que foram
imediatamente hospitalizados.
O Mosela chegou ao local e suas embarcações participaram do
salvamento e, sucessivamente, se aproximaram os navios ingleses Rosseti,
Solen e o grego Chrytianni Patera, com seus botes salva-vidas
preparados. Às 20 horas e 30, o holandês Alhena assinalou que tomava o
rumo para o Rio de janeiro, tendo a seu bordo 450 sobreviventes.
Permanecemos toda a noite no local com as embarcações
pesquisando..."
Consta que no naufrágio do Principessa Mafalda, pereceram 107
tripulantes e 338 passageiros. E como pode-se observar através do diário
acima, a maioria das mortes foi ocasionada, porque as pessoas se
recusaram a deixar o navio italiano, mesmo que sabendo que estavam em
extremo perigo a bordo de um navio que estava para afundar a qualquer
momento. Mas o medo de deixar o grande transatlântico para aventurar-se
a se salvar nos pequenos barcos salva-vidas, determinou o destino trágico
de muitos.
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