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O Naufrágio Atlas
Aquela manhã de quinta-feira, 3 de outubro de 1974, amanhecera
nublada. Um típico dia de primavera quando os ventos de sudoeste entram
na Praia de Ipanema, anunciando a chegada de uma frente fria,
afugentando os poucos banhistas que insistiam em ficar na praia.
O rebocador Atlas, empregado no transporte da tubulação de concreto
usada na construção do atual emissário submarino de Ipanema, acabara
de completar mais uma viagem levando sua carga do canteiro de obras no
Flamengo, até a plataforma de construção submarina empregada nos
trabalhos de instalação das tubulações, seu destino final.
Terminada a operação, os sete homens que compunham a tripulação
decidiram descansar após o horário de almoço. O barco estava fundeado
junto à plataforma e todo o serviço havia transcorrido normalmente.
O vento sudoeste, porém não descansava. O temor dos nossos
navegantes agora soprava com uma velocidade de 45 Km/h. O mar agitado
atingia naquele momento o seu ponto mais crítico, com ondas que
chegavam a 2 metros de altura na área da plataforma. A tripulação
habituada aos movimentos do mar não percebeu que durante uma rajada de
vento mais forte o cabo da amarra que mantinha o barco junto à
plataforma havia se rompido.
O Atlas à deriva e empurrado pelo forte vento se aproximava rápida
e inexoravelmente das areias do Arpoador. A praia, que naquele dia havia
praticamente desaparecido, contava com a presença de alguns surfistas
que observavam as ondas, e junto com outros transeuntes no local
avistaram o barco se aproximando perigosamente das pedras. Todos
começaram a gritar para alertar a tripulação, pois o barco já se
encontrava a menos de 50 metros destas. Logo os tripulantes perceberam a
situação em que se encontravam. As máquinas foram acionadas numa
tentativa de tirar o rebocador da zona de arrebentação. Entretanto, o
esforço da tripulação foi em vão. Quando todos pensavam que o barco
iria se safar, uma onda mais forte explodiu sobre o casco vencendo a
força de sua máquina e jogando-o sobre a areia.
O barco, agora encalhado, com as ondas da ressaca quebrando sobre seu
costado estava totalmente à mercê do mar. A tripulação desesperada
ainda tentou retirar o barco utilizando a força de seus 500 HP, mas à
medida que o hélice girava, uma vala mais profunda se formava sob a
quilha, fazendo com que suas poucas toneladas afundassem ainda mais na
areia. Empurrado pelo vento, açoitado pelas ondas e traído pelo seu
próprio hélice, o Atlas jazia na praia, sem esperança. Aquele casco
negro a menos de 50 metros da terra modificava a paisagem do Arpoador,
atraindo centenas de curiosos.
O Resgate
Uma lancha do extinto Salvamar foi acionada junto com um helicóptero
da polícia para as operações de resgate. Passava do meio dia quando
solicitadas pelo helicóptero, duas traineiras de pesca que se dirigiam
para o Sul chegaram ao local para uma tentativa de desencalhe. Em uma
operação difícil e arriscada devido à força do vento, o
helicóptero desceu um gancho para içar um cabo e passá-lo para uma
das traineiras. Após várias tentativas o cabo foi amarrado em uma das
embarcações que iniciou o reboque. Mas não era o dia de sorte do
rebocador: Ao ser tracionado o cabo rompeu-se e a operação teve de ser
repetida. Mais duas tentativas foram efetuadas, porém sem sucesso.
Passava das 15 horas quando um outro rebocador, o Ajax, pertencente
à mesma empresa, chegou ao local para uma nova tentativa de desencalhe.
A operação aérea foi reiniciada, dessa vez com a passagem de um cabo
mais resistente, de duas polegadas de diâmetro.
No momento em que iria se iniciar a manobra de reboque, já se estava
na baixa-mar e mesmo a potência de 660 HP do Ajax foi inútil para
remover o Atlas. A essa altura, o Ajax recebera instruções de manter o
cabo tensionado para evitar que a força das ondas lançasse o Atlas
ainda mais na direção da praia, o que tornaria impossível qualquer
operação de reboque.
A noite caia lentamente e a situação do rebocador Atlas não se
modificava. Os técnicos da empresa proprietária dos rebocadores
acreditavam que durante a preamar na madrugada, com a potencia do Ajax e
de mais um rebocador que seria enviado, o resgate seria concluído.
Na madrugada de sexta-feira chegou ao local o rebocador Valsa com
1000 HP para auxiliar nas tentativas de reboque.
Passava das duas horas da manhã quando o rebocador Atlas finalmente
se moveu. Sua quilha lentamente se libertava do abraço da areia. O
pesadelo - acreditava-se - tinha chegado ao fim. Devido ao esforço na
operação de desencalhe e ao impacto das ondas no costado, as costuras
de solda do fundo do casco se romperam provocando um rápido alagamento.
A 200 metros da praia aproximadamente, após 14 horas de infrutíferos
esforços o Atlas naufragou deixando um forte sentimento de frustração
naqueles que lutaram pelo seu resgate.
O Mergulho
O barco atualmente se encontra repousando sobre um fundo de areia e
lama em frente à Praia do Arpoador. Sua posição está determinada em
carta náutica e esta indica uma profundidade de 10 metros, o que
posteriormente se verificou ser impreciso.
De posse dos pouquíssimos recursos materiais à disposição e de
muita vontade, decidi tentar um mergulho para a localização.
Com essa carta e utilizando uma referência em terra e uma bússola,
tentei chegar no naufrágio saindo da praia e usando somente equipamento
básico. Em duas ocasiões, a tentativa de localização foi frustrada
devido às condições de vento, correnteza e visibilidade da água. O
vento e a correnteza afastavam do rumo e dos alinhamentos de referência
e a visibilidade não permitia a visualização da superfície. Após
essas tentativas cheguei à conclusão que o método de busca teria de
ser mais preciso e deveria ser feito em um dia com boa visibilidade e
pouco vento.
Na época apareceram no mercado os primeiros aparelhos GPS
portáteis, e a empresa onde trabalho adquirira um desses.
Utilizando um dos primeiros equipamentos da fabricante Magellan,
caminhei pela orla até encontrar o meridiano que cruza a posição do
naufrágio. Escolhi dois pontos em terra por onde passasse esse
meridiano e o alinhamento desses dois pontos seria a linha de visada que
daria a rota até o naufrágio. A outra referência escolhida foi o
alinhamento de duas pedras na ponta do Arpoador, cujo alinhamento de
acordo com a carta náutica, também cruzaria o naufrágio.
Em uma manhã de sábado, 14 de Novembro de 1992, o dia estava
nublado com um vento de sudoeste soprando com pouca intensidade. O mar
estava ligeiramente encapelado, porém sem vagas o que permitiria uma
entrada segura pela praia. Esse vento normalmente clareia a água nessa
região, e de fato naquele momento a água estava com uns 10 metros de
visibilidade aproximadamente.
Combinei com um colega que seguiríamos na superfície o alinhamento
determinado, até uma posição próxima ao naufrágio e a partir dalí
mergulharíamos para a busca. O método seria o seguinte: enquanto um de
nós ficaria na superfície segurando uma bóia com um cabo de 20 metros
procurando manter a marcação determinada, o outro desceria com um
cilindro e, segurando a ponta deste cabo e mantendo-o esticado,
descreveria círculos numa espécie de busca circular até obter algum
resultado.
O método - apesar de precário, mas compatível com os recursos que
dispunha na época - funcionou muito bem. Enquanto o companheiro com
snorkel procurou manter a bóia no alinhamento, em um mergulho de 10
minutos encontrei o naufrágio repousando a 20 metros de profundidade.
Na época o barco se encontrava praticamente intacto, completamente
encoberto pela incrustação marinha, faltando somente a mastreação e
o casario de madeira que formava o passadiço. Está assentado na areia
como se ainda estivesse navegando. A proa apontando na direção do mar
indicando o rumo provável do rebocador no momento do naufrágio. Os
cabos de reboque ainda pendentes na posição. Uma rede de pesca se
encontrava presa na estrutura, indicando que o naufrágio era um
problema para os pescadores da área.
O Atlas é hoje um recife artificial servindo de abrigo para várias
espécies de peixe. Durante a busca, duas garoupas de aproximadamente 15
kg indicaram o caminho até o naufrágio. Cardumes de marimbás e sargos
e espécies de água salobra como o robalo e tainhas faziam uma apoteose
naquele oásis em que o Atlas havia se transformado.
Em um segundo mergulho efetuado no ano seguinte - dessa vez
acompanhado por um grupo de instrutores do antigo CIMA (Centro de
Instrutores de Mergulho Autônomo), a água estava bastante limpa e o
mar bem calmo, propiciando uns 15 metros de visibilidade.
Um grupo permaneceu do lado externo enquanto outro grupo efetuou uma
penetração no naufrágio. Na época, no interior deste foi possível
encontrar vários objetos de uso da tripulação como copos, pratos,
ferramentas etc. Até as vigias estavam intactas, algumas abertas como
se os tripulantes ainda estivessem lá, executando suas tarefas.
Infelizmente ao longo dos anos, esses objetos foram todos retirados.
O mergulho dentro do naufrágio deve ser feito apenas por pessoas
mais experientes e com certificação apropriada. Cabe ressaltar que
este é um naufrágio pequeno com espaços internos bem limitados.
Atualmente o naufrágio do Atlas pode ser acessado por barco ou pela
praia para quem tiver mais disposição. No caso da segunda alternativa,
o mergulho deve ser tentado somente com mar calmo e com ótima
visibilidade. Deve-se levar em consideração os horários de maré, a
intensidade do vento e da correnteza e obviamente, a distancia a ser
percorrida. Os ventos mais comuns são o leste e os de quadrante sul nos
meses mais frios. Existe uma correnteza paralela à praia na direção
do Arpoador. Por questões de segurança, é fundamental levar uma bóia
de sinalização devido ao trafego de embarcações na área,
principalmente nos finais de semana. Para quem preferir, um par de
nadadeiras longas pode ser de grande ajuda tanto nos deslocamentos
quanto em eventuais correntezas. É sempre bom lembrar que não haverá
barco de apoio e a distancia até a praia é relativamente longa,
portanto é fundamental estar com bom preparo físico e respeitar às
regras básicas de mergulho.
Agradecimentos
Guilherme Braccaioli, por ter sido louco o bastante para
participardas primeiras "expedições".
Sérgio Costa, Paulo Dias, André Valentim e Pedro Henrique, por
terem acreditado no projeto e assim permitido a realização deste
artigo na Revista SUB.
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