|
Destroyer e Piratini - Um passado histórico
Apesar de pequena, a Suécia fez parte de nossa história no que diz
respeito ao estado brasileiro de Santa Catarina. Um fato marcou a história naval militar.
Um comandante suéco mostrou que um torpedeiro poderia tirar de ação, um cruzador blindado,
também conhecido como encouraçado. Tanto os encouraçados quanto os destróieres, tinham contribuição definitiva
do engenheiro John Ericsson.
A história começa na Guerra Civil dos Estados Unidos, onde em 8 de
março de 1862, o
encouraçado sulista Merrimac atacou a Frota do Norte, afundando com abalroamento e
tiros. No dia seguinte, quando o Merrimac atacou novamente, a Frota Nortista tinha seu próprio
encouraçado, o tão famoso Monitor.
Ao contrário do Merrimac, o Monitor era de menor porte e difícil de
acertar. Difícilmente operava com mar agitado e as grandes
travessias eram realizadas através de reboque por navios maiores. Navegava
semi-submerso, onde sua tática, era realizar uma aproximação do inimigo
e afundá-lo, mantendo-se acima apenas 45cm do nível do
mar suas obras mortas.
Ficava praticamente submergido e possuía uma torre giratória,
onde um canhão apontava com facilidade para o alvo, ao contrário dos canhões fixos do Merrimac.
Possuía também, um canhão subaquático, onde nada mais era do que um
tubo ( hoje usado em submarinos) para lançar um torpedo. Ericsson sabia que até então nenhum torpedo havia sido
eficiente, e por isso, adotou o sistema, onde o torpedo seria lançado contra um inimigo
à uma distância
de até 100 metros. Ninguém comprou o barco de Ericsson, mas a sua fama de construtor naval, fez com que muitos construíssem
novas embarcações com as características do Monitor, que por sua vez,
ficaram conhecidos pelo nome de caçadores ou "jagar" nas línguas do norte da
Europa.
No caso do Merriac, em poucas horas acabou sendo inutilizado e teve que fugir para não ser afundado. A história da guerra naval
mudou de rumo. O inventor do
Monitor, transformou-se em um dos heróis dos Estados Unidos.
As forças navais evoluíram, e para o alto mar, optou-se por cruzadores blindados
com grandes couraças. Uma corrida armamentista foi iniciada, e Ericsson, percebeu que a loucura da
corrida
poderia acabar com as economias de muitos paises.
O Monitor era fabricado totalmente em ferro, possuía 43 metros de comprimento
por 4 metros de largura. Tinha um potente motor que atingia 18 nós, sendo
três vezes mais rápido que um cruzador de época.
Em 8 de março de 1889, Ericsson faleceu, e em setembro de 1893, rebela-se a Marinha Brasileira contra a atitude ditatorial de Floriano Peixoto. Os almirantes Custódio de Mello e Saldanha da Gama dominam as águas do Rio de
Janeiro, e entre suas grandes armas, estava o potente
encouraçado Aquidabã.
Sem muitas alternativas, o Presidente Peixoto decidiu comprar uma frota
nova e as representações consulares do Brasil, receberam ordem para
adquirir o que fosse viável em termos de embarcações militares, novas e velhas. Inclusive armaram-se barcos de carga como o El Cid, que se transformou no cruzador Nichteroy. As tripulações eram uma combinação de aventureiros, mercenários e fugitivos. Entre
as embarcações compradas, estava o Destroyer, uma embarcação com as
características do Monitor de Ericsson.
Nesta época, o Destroyer já não estava em condições de navegar muito. Teve que ser rebocado para o Brasil com uma tripulação que incluía, entre outros, um
sueco brigão, um norte americano bêbado, um inglês com uma espada que dizia ter ganho da
rainha Vitória, um cozinheiro que sabia como acertar os inimigos com as panelas, o capitão Joshua Slocum que mais tarde ficou conhecido por ter sido o primeiro a circunavegar solo o planeta, e o capitão de armas sueco Nils Fock. Todos iam pela aventura, pela fama
e pelo dinheiro (que a maior parte não recebeu pois Floriano não os pagou). Na viagem para o Brasil, o Destroyer teve que ser socorrido várias vezes, inclusive de um naufrágio.
Com a chegada do Destroyer, acabou sendo armado com dois canhões Hochkiss de 37 milímetros, acompanhado de outros torpedeiros, como o Moxotó, no Rio de Janeiro. Na madrugada do dia 9 de
fevereiro de 1884, Fock, agora comandando o Destroyer, apoiou a tentativa do Moxotó de afundar o
Aquidabã. Alcançados pelos holofotes e canhões, tiveram que se retirar. No dia seguinte escapa o
Aquidabã do Rio de Janeiro e ruma para o sul. De acordo com os relatórios da época, a fama do Destroyer e seu terrível canhão subaquático haviam afugentado o
encouraçado.
O Destroyer parece ter cumprido sua missão e tornou-se alvo da atenção popular, instigada pela propaganda de Peixoto. Foi ancorado no Arsenal da
Marinha e alguns dias depois, quando falhou o sistema de bombear águas, o
Destroyer acabou naufragando. Com isso, Nils Fock acreditou que sua missão estava cumprida e pediu audiência com Peixoto para despedir-se. Fock, que havia acompanhado Peixoto quando o presidente, havia inspecionado as posições inimigas,
e não se sentiu à vontade. Fock deixou relatos dos constantes fuzilamentos da oposição, assim como, da visível satisfação de Peixoto ao observar destruição e inimigos abatidos em combate.
Segundo Fock, Peixoto ofereceu um cargo e o ameaçou se não aceitasse. Sem alternativa, Fock assumiu como capitão de armas do torpedeiro Gustavo Sampaio. O comandante do Gustavo Sampaio era o
Tenente José de Barros, um dos poucos brasileiros com quem Fock não se deu bem. A frota rumou para o sul para dar combate aos rebeldes em Santa Catarina.
Na madrugada de 16 de abril de 1894, navegando pelo estreito vindo do norte, prepararam-se para dar combate ao
Aquidabã. Enquanto a frota bombardeava os fortes, os torpedeiros Gustavo Sampaio e Moxotó,
além dos destróiers Pedro Afonso, Silvado e Pedro Ivo atacaram. Sem força nas máquinas, o
Aquidabã era ajudado por outras embarcações. Barros mandou que se abalroasse uma
das embarcações auxiliares, mas Fock disse que não e seguiu o ataque contra o
Aquidabã. Os holofotes do Aquidabã iluminaram os inimigos. O Moxotó
afundou. O Silvado recebeu uma carga direta.
A 400 metros de distância, o Pedro Ivo lançou um torpedo com resultado trágico. Explodiu ao sair do tubo arrebentando o Pedro Ivo que ficou em chamas. A 300 metros, o Gustavo Sampaio e o Pedro Afonso, lançam dois torpedos cada um com
um ridículo resultado, pois três afundam e o quarto, apesar de atingir o alvo, não detona.
Os observadores internacionais não se surpreenderam. Até então torpedos não tinham mesmo funcionado em situações verdadeiras de combate. Mas então os comandantes do Charleston (USA), Arcona (Alemanha), Arethuse (França), Beagle (Inglaterra) e Pedro III (Portugal), viram algo que iria mudar a história da guerra naval. O Gustavo Sampaio acelerou em direção ao
Aquidabã, indo à uma velocidade de quase 20 nós. Na proa ainda havia um torpedo. O tenente Barros gritava desesperadas ordens de retirada. Enquanto isso, Fock virou-se para ele e o nocauteou com um golpe. As idéias de Ericsson e seu Destroyer iam ser colocadas em prática.
A quase 100 metros reduziu o Gustavo Sampaio sua velocidade para 5 nós e Fock pode armar o torpedo. Atingiu o
Aquidabã abaixo da linha d’água, a esquerda, na proa. O Aquidabã não chegou a afundar de todo, apenas devido a perícia dos seus marinheiros que conseguiram
aterrá-lo entre a Ponta do Rapa e a Fortaleza do Anhatomirim. Mais tarde iria ser rebocado para o Rio de Janeiro. Pela primeira vez na história um torpedo havia tirado de ação um encouraçado. Este evento histórico foi mérito da marinha
brasileira, tanto de um lado quanto de outro. Os observadores internacionais perceberam que a estratégia e tática naval
teria que mudar. Nenhum
encouraçado sozinho teria condições de sobreviver muito tempo.
Niels Fock foi por algumas semanas, o herói da República e acabou
voltando para a Suécia, onde faleceu em 1925.
E o que aconteceu com o Destroyer ? Acabou afundado no cais do Arsenal,
sendo posteriormente coberto com terra, pedras e depois, concreto, em um dos vários aterros feitos no Rio de Janeiro.
Outra embarcação naufragada em águas brasileiras, foi o Piratini,
sendo o primeiro navio da Marinha do Brasil a
ostentar o nome Piratini, que homenageia a cidade do Rio Grande do Sul. Fez parte da
2ª Divisão da Esquadra Legal, sob o
comando do 1º Tenente Alexandre Batista Franco. Acabou não entrando em combate e seu precário
estado, não o deixou passar de Salvador, onde naufragou em janeiro de
1894 no interior da Baía de Todos os Santos. Em julho de 1898
o Cruzador-Torpedeiro Timbira foi mandado destruir seu casco.
Esta história e muitas outras estão contidas no livro (em sueco) de Christer Hääg, Till Rio med John Ericssons Fruktade Destroyer (Stockholm, Marin Art, 2004).
Fonte:
- Christer Hääg
- Serviço de Documentação da Marinha
-
Site Navios de Guerra Brasileiros
|

Destroyer de Ericsson
John Ericsson - Engenheiro - Inventor

Canhão submerso do destroyer
|