|
Conservando Objetos Submersos
Uma escavação arqueológica em meio húmido implica sempre na
exposição dos artefatos recuperados em um ambiente para o qual não estão
preparados. Após algumas dezenas de anos imerso, este material terá atingido
uma situação de estabilidade no seu meio ambiente. Quando esta estabilidade é
alterada, inicia-se um novo ciclo de deterioração. Desta forma, quando o
objeto for recuperado, ele deverá ser fotografado e medido imediatamente para
que se não percam informações vitais durante os processos de conservação e
restauração.
A maior parte dos objetos recuperados possui uma película mineral dura,
também chamada de "concreção", que apesar de deformar o objeto e de
esconder o que verdadeiramente se encontra em seu interior, produz um ambiente
estável e impede a continuação do processo de corrosão iniciado pela ação
do oxigênio dissolvido na água. Geralmente o que chamamos de concreções
provenientes de naufrágios, são uma mistura de fragmentos de madeira, de
materiais metálicos, de vidro, cerâmica e outros materiais, tudo embebido numa
matriz de produtos de corrosão, sedimentos e alguns seres vivos marinhos.
O processo de concreção pode ser formado:
- Através do crescimento de organismos na superfície do objeto
- Físico-químicos - pela dissolução e re-precipitação de carbonatos
- Bioquímicos - Através da diminuição da acidez devido a variadas
ações microbiológicas
- Eletroquímicos – Onde a interação de metais de natureza diferente
leva à corrosão acelerada do metal
Todas as concreções deverão ser radiografadas de modo que se possa
identificar a natureza dos objetos presentes e o grau de conservação, para que
determine o processo adequado a ser tomado para a limpeza do objeto
encontrado.
Dessalinização
A remoção dos sais minerais provenientes da água salgada é uma das partes
mais importantes no processo de conservação dos objetos retirados do mar,
especialmente quando o seu material constituinte for o vidro, a cerâmica ou
pedra. O método mais utilizado consistem na imersão destes objetos em água
salgada, que progressivamente deverá ser a cada dia, mais diluída com água
destilada até que o nível de cloretos em meio aquoso seja considerado
desprezível. Este tratamento poderá ter duração superior a um ano, mas é
fundamental a sua realização para que o objeto perca todos os sais capazes de
acelerar o processo de corrosão.
A identificação da natureza dos objetos recuperados é o próximo passo. Entre
os materiais passíveis de serem encontrados em um naufrágio, encontram-se os
materiais de origem orgânica - madeira, couros, marfim, osso, dentre outros.
Materiais de origem não orgânica - metais, cerâmica, vidro, etc.
Materiais orgânicos
Os materiais de origem orgânica devem ser armazenados de maneira que
permaneçam sempre húmidos, sob pena de sofrerem contrações e trincas
permanentes e irreversíveis. Objetos de dimensões inferiores ou que se
encontrem fragmentados, deverão estar sempre suportados por estruturas de apoio
e o manuseio desses objetos deverá ser restringido ao mínimo. A inclusão de
uma substância química solúvel que impede o crescimento de microrganismos
decompositores, o armazenamento em condições de obscuridade e de baixa
temperatura, são condições fundamentais para o sucesso do tratamento de
conservação e restauração. Após a dessalinização dos objetos, estes
deverão sofrer um tratamento capaz de substituir a água contida em suas
células por um produto inerte e físico-químicamente estável. Para este
efeito utiliza-se geralmente um polímero de alta densidade denominado
polietileno-glicol (PEG).
Metais
O ferro fundido é o material constituinte da maior parte dos canhões e
âncoras retirados do fundo do mar. Após a sua retirada do ambiente marinho,
estas peças irão desintegrar-se rapidamente se não forem imediatamente
conservadas em água, pelo fato do processo típico de deterioração formar um
núcleo metálico fragilizado, que por sua vez, é apenas envolvido por uma
frágil cobertura de produtos de corrosão grafitizados. A exposição ao ar vai
acelerar brutalmente o processo corrosivo na zona de contato entre a camada
grafitizada e o núcleo metálico, conduzindo a um processo exotérmico de
libertação de energia que por vezes, fará com que as peças venham a se
desintegrar violentamente.
Por outro lado, o ferro forjado tem um teor de carbono muito mais baixo do que o
apresentado pelo ferro fundido, o que leva a característica de malha de
grafite, típica dos objetos deste tipo.
Se a peça não for dessalinizada, o processo corrosivo continuará na
superfície e o núcleo metálico acabará por desaparecer no interior de uma
camada rígida de concreção, o que dificilmente contribuirá na preservação
das formas ou inscrições originais da peça. Tanto para o ferro forjado como
para o ferro fundido, a presença de cloretos acelera o processo de corrosão, o
que obriga a sua remoção. Para isso, colocamos as peças imersas em uma
solução de água doce a 2% de soda cáustica. Após a remoção total dos
cloretos, a peça é tratada eletroliticamente.
As ligas de cobre - tais como o bronze e o latão, são menos afetadas pela
ação dos seres marinhos, visto que o cobre é tóxico para a maioria dos seres
vivos, fazendo com que fiquem mais preservados. O processo corrosivo destes
metais leva a uma mineralização da liga metálica o que origina camadas
frágeis de produtos de corrosão. Se a peça for retirada sem a conveniente
dessalinização, os cloretos irão ocasionar uma destruição do metal, no
processo conhecido pelo nome de Doença do Bronze. Para que isso não ocorra, o
objeto deverá ser imerso em uma solução de benzotriazol a 1%. O chumbo e o
estanho não necessitam de tantos cuidados na conservação visto que a mera
imersão em água doce da peça, já será o suficiente para que o objeto se
mantenha estável. O ouro e a prata são os metais menos passíveis de sofrerem
corrosão marinha, embora a prata, quando impura, possa vir a ocasionar ligeiras
concreções superficiais.
Cerâmica, Vidro e Pedra
Entende-se como cerâmica, o material que foi feito à base de barro e colocado
em altas temperaturas. Um dos problemas de conservação deste tipo de material
é a profusão de organismos vivos que cresce geralmente na sua superfície.
Outros problemas são os cristais de sais minerais que ao se desenvolver
abaixo da camada exterior da peça, fazem com que a cobertura se rompa e se
destaque da mesma. Não se deve permitir que as peças sequem de uma forma
descontrolada.
A idéia deste artigo, é trazer mais informações sobre o tema. Lembre-se
que a retirada de peças de naufrágio ou qualquer coisa esteja embaixo d'água,
fere leis federais.
|
|