| Naufrágio Santa
Cartharina e o carregamento de material bélico
No início do ano de 2007, o naufrágio Santa Catharina acabou sendo
descoberto por uma equipe de mergulhadores que operam no Arquipélago de Abrolhos,
no sul do estado da Bahia.
A busca ao naufrágio, teve como ponto de partida a indicação do
mesmo na carta náutica atualizada pela marinha brasileira.
O naufrágio é um cargueiro à vapor construído em 1907, onde na
época, a empresa proprietária era a Hamburg Sud, uma multinacional
alemã que atua com o transportes de cargas na marinha mercante em todo o
mundo, e que na ocasião, estava transportando uma carga proveniente da
cidade de Nova Iorque nos Estados Unidos, com destino à Santos, no estado
de São Paulo.
O navio naufragou no dia 12 de outubro de 1914, onde segundo a
história, teria sofrido um grande incêndio, e posteriormente, teria sido
atacado pelo navio Glasgow, que navegava nas proximidades.
Não se sabe ao certo o motivo real do afundamento do Santa Catharina.
Material bélico em sua carga
Com a descoberta do naufrágio, alguns mergulhadores prontamente
viajaram até o sul da Bahia para conhecer o Santa Catharina de perto e
apreciar as belezas naturais deste belo naufrágio.
Segundo a documentação da época, este navio levava consigo, tambores
de querosene, cimento, implementos agrícolas, dentre alguns outros itens
bem diferentes do que acabou sendo encontrado em sua carga.
Os primeiros mergulhadores que estiveram no naufrágio, encontraram
diversas caixas de munição, o que contradiz com as informações
presentes no livro de registros do porto. Diversas caixas de munição
podem ser observadas durante à incursão ao naufrágio, e com isso,
realizamos uma pesquisa na tentativa de identificar a origem deste
material.
Uma bala de revólver presente na carga do navio, facilitou a
identificação de sua origem onde foi possível ver o nome do fabricante
e suas características. O material foi fabricado pela Remigton – Union
Metallic Co., e foi fabricada entre 1911 e 1914, sendo um modelo REM-UMC
38 S&W. A linha de fabricação dete tipo de munição durou certa de
9 anos, e foi fabricada até o ano de 1920.
Uma grande dúvida, é porque o Santa Catharina estaria levando esta
grande quantidade de material bélico ao Brasil.
A primeira guerra já havia começado, entretanto, o Brasil e os
Estados Unidos oficialmente não estavam participando da guerra, e uma
pergunta surgiu: Haveria uma movimentação destes países para a entrar
na Primeira Guerra ?
Com essas dúvidas, tentamos obter algumas informações junto ao
fabricante Remigton para tentar esclarecer esse mistério, e como
prevíamos, eles informaram que não poderiam nos dar informações sobre
o carregamento desta munição no navio em questão.
Contatamos a Hamburd Sud na Alemanha, e infelizmente todos os registros
e fotos do Santa Catharina foram perdidos nas guerras. Segundo eles, só
existem documentações publicadas a partir de 1945 em diante. As fotos
aqui expostas, foram encontradas em um raro livro do centro de
documentação histórica da Hamburg Sud na Alemanha, e enviadas para
nossa equipe no Brasil.
O Brasil e a Guerra
Em 1914 a Primeira Guerra Mundial iniciou na Europa, o maior conflito
armado da História, até então. Durante os primeiros anos da guerra, o
Brasil manteve-se neutro, mas com o torpedeamento de cinco navios
brasileiros por embarcações da esquadra alemã, o presidente declarou
estado de guerra contra a Alemanha. A partir de outubro de 1917, pouco
mais de um ano antes do fim da guerra, o Brasil entrou no conflito ao lado
da França, Inglaterra, Estados Unidos e de outras nações aliadas.
Segundo algumas publicações, os americanos perceberam que a Tríplice
Entente estaria perdendo força na guerra, e como eles teriam vendido
grande quantidade de material bélico aos países da Tríplice Entende,
houve uma preocupação quanto ao pagamento das enormes dívidas criadas
pelos países já em guerra. A entrada dos Estados Unidos poderiam
garantir que estas dívidas fossem pagas posteriormente à guerra, e isso
iria garantir a vitória de seus compradores e seus interesses em
particular. Com o fim da guerra em 1918, os Estados Unidos acabaram se
tornando a maior potência mundial do século XX.
Sobre a Remigton, em 1912, a The Union Metallic Cartridge Company of
Bridgeport e a Remington Arms Company foram unificadas, e passaram a ser
chamada de Remington U.M.C. Em 1915 e 1916, a fabrica passou por um
processo de expansão na fabricação de armamento, para que pudesse
melhor atender a demanda que existiu durante a primeira guerra mundial.
Este fabricante é atualmente, um dos maiores fabricantes de armamentos
nos Estados Unidos.
Conclusões
Não podemos afirmar que o Santa Catharina estaria participando de uma
aliança para primeira guerra e daí o motivo para o afundamento deste
naufrágio, contudo, alguns indícios como o estranho incêndio pelo qual
passara, a falta de informações sobre a sua carga no livro de registros
e o interesse dos americanos em ajudar na guerra, podem indicar que haviam
grandes interesses na venda de material bélico à outros países aliados
e que não estavam em guerra. Muito provavelmente, uma estratégia para um
crescimento futuro e garantir o pagamento das dívidas obtidas pelos
países envolvidos na guerra.
Uma outra dúvida é... O Brasil entrou na guerra devido ao afundamento
de navios brasileiros. Poderiam os alemães estarem cientes da
possibilidade de envio de armamentos ao Brasil para uma futura entrada na
guerra, e daí a tática de afundar os navios cargueiros para tentar
dificultar as coisas ?
Esse é mais um mistério do passado hitórico brasileiro.
Agradecimentos Especiais
-
Daniel Faria (Danny Boy)
- Centro de Documentação Histórica da Hamburg
Sud
- Rodrigo Coluccini – Revista Deco Stop
- Rodrigo Thomé
|
Foto: Daniel Faria (Danny Boy)

Colaboração: Hamburg
Sud

Fotos do navio Santa Lucia, que era idêntico ao Santa Chatarina



Foto: Ary
Amarante
Colaboração: Rodrigo
Coluccini
Glasgow - Navio responsável pelo afundamento do Santa Catharina

|