| Galeão Nossa Senhora do Rosário
Durante o curso das invasões holandesas ao nosso território, uma
batalha naval ocorreu em 1648 nas águas da Bahia, envolvendo três
embarcações, duas holandesas, os galeões Utrecht
e Huys Van Nassau; e uma portuguesa, o galeão Nossa
Senhora do Rosário.
A esquadra holandesa conseguiu flanquear o Nossa Senhora do Rosário em
ambos os bordos e vendo que iria sofrer uma abordagem, seu comandante
resolveu atear fogo em seu paiol, o que provocou uma grande explosão.
O resultado da manobra suicida foi o afundamento imediato do Utrecht e
do Nossa Senhora do Rosário, com grande perda de vidas em ambos os lados.
Consta que somente 26 marinheiros do Utrecht sobreviveram. Já o Huys Van
Nassau se viu extremamente danificado e acabou indo para em Itaparica-BA,
onde fora capturado pelos portugueses, sendo posteriormente, recuperado e
rebatizado como Fortuna.
Gravura representando a abordagem do Nossa Senhora do Rosário (ao
meio) pelas embarcações Utrecht e Huys Van Nassau.
Os destroços das embarcações Utrecht e Nossa Senhora do Rosário
foram descobertos pelo mergulhadores de compressor, e explorados na
década de 80, em operações autorizadas pela Marinha e em outras
operações clandestinas. O sítio de mergulho do Utrecht, localizado a 21
metros de profundidade, já foi visitado diversas vezes pelas operadoras
de mergulho de Salvador. A localização do Nossa Senhora do Rosário, no
entanto, se restringia somente a pessoas que exploraram por muitos anos o
Utrecht e que também fizeram suas incursões ao galeão português em
busca de artefatos.
As informações para a busca ao sítio do Nossa Senhora do Rosário
Com o objetivo de mergulharmos no Nossa Senhora do Rosário e
explorarmos a área para a realização de um croqui e divulgação do
ponto como destino de mergulho, nos munimos de algumas informações que
nos foram passadas por mergulhadores que exploraram o Utrecht e o Nossa
Senhora do Rosário na década de 80, assim como, de informações
constantes em livro sobre naufrágios na costa da Bahia.
As informações que nos foram passíveis de apuração foram:
- Marca de um canhão que estava perdido próximo ao Utrecht (27
metros de distância), nas coordenadas S 13º 07.843’ / W 38º
39.223’ (WGS 84) e que poderia indicar a proximidade do Nossa
Senhora do Rosário. Essa posição foi obtida pelo mergulhador
Eurípedes durante um mergulho anterior no Utrecht, e o rumo de busca
saindo desse naufrágio seria o norte (352º);
- Informação prestada pelo senhor Walter Andrade, um dos que
exploraram com autorização da Marinha os naufrágios do Utrecht e o
Nossa Senhora do Rosário na década de 80, ao mergulhador Eurípedes:
seguir rumo sul a partir do Utrecht. O Nossa Senhora do Rosário
estaria próximo ao galeão holandês.
- Coordenadas obtidas no livro "Naufrágios e Afundamentos"
da costa da Bahia, do professor José Góes de Araújo, que indicavam
estar o Utrecht na posição S 13º 07' 30" / W 038º 39'
13" e o Nossa Senhora do Rosário na marca S 13º 07' 30" /
W 38º 39' 10". Segundo essas coordenadas, ambos os naufrágios
estariam distantes cerca de 54 m, rumo 94 graus (Leste), partindo do
Utrecht. De logo descartamos parte dessas informações, já que de
antemão sabíamos que na verdade o Utrecht estava na posição S 13º
07,828’ / W 038º 39,223’. Assim, examinando a marca do Nossa
Senhora do Rosário constante do livro com a que tínhamos do Utrecht,
os navios estariam distantes cerca de 1040m e o rumo de busca deveria
ser 13º.
- Por último, havia o relato de um mergulhador que trabalhou muitos
anos na exploração do Utrecht e que relatou ter mergulhado nos
destroços do Nossa Senhora do Rosário. Segundo esse mergulhador, o
Nossa Senhora do Rosário estaria na direção da cidade de Salvador,
a uns 200 metros do Utrecht.
Essa última informação, que foi obtida pelo mergulhador László
Mocsári, se mostrou a mais factível, já que o explorador relatou
inclusive como seria o sítio do naufrágio, com pedras de lastro e outras
partes formando uma elevação que se projetava do leito submarino cerca
de 2 a 3 metros. Além disso, segundo esse informe, no meio do caminho
entre o Utrecht e o Nossa Senhora do Rosário encontraríamos um grande
canhão de 4 tons perdido no cascalho.
Com base nisso, László Mocsário, lançando mão das coordenadas já
conhecidas do Utrecht, esboçou qual seria a provável posição do Nossa
Senhora do Rosário e o rumo de busca que deveria ser feito para chegarmos
nele nadando a partir do outro naufrágio. Veja a figura ao lado
A preparação e execução do mergulho de busca
Planejamos nosso mergulho dividindo a equipe em duas, já que uma
estava equipada com rebreathers de circuito fechado Innerspace Systems
Megalodon e a outra com circuito aberto.
A equipe que iria mergulhar de rebreather, constituída pelos
mergulhadores Bruno Fagundes e László Mocsári, iria começar a busca
nadando do Utrecht com um azimute de 45º, que era o rumo calculado do
Utrecht para Salvador. Para cobrir uma área de busca mais extensa, os
dois mergulhadores ainda carregando scooters Divetrek
Polaris, que tinham uma autonomia estimada, com baterias de chumbo ácido
(Pb), de 3 km na velocidade máxima de 50 metros / minuto.
O planejamento previa um mergulho de 4 (quatro) horas de tempo de
fundo, com paradas descompressivas aos 9 e 6 metros, Set Point de 1.0
PpO2, Diluente o EAN 32, uso do algoritmo Bulhman ZHL 16B, Gradient Factor
15/85, conforme descrição abaixo.
- Bulhman ZHL 16B – GF 15/85
- 21 metros – 240 minutos - CCR
- 9 metros – 7 minutos – CCR
- 6 metros – 45 minutos – CCR
- Runtime: 292 minutos + parada de segurança
Também foram rodadas tabelas prevendo o procedimento de bail out com o
uso do EAN 32 em cilindros de 80 pés. Além disso, ambos os mergulhadores
estavam equipados com computadores de mergulho VR3 rodando algoritmo
Bulhman, que serviriam de back up.
Para a execução desse longo mergulho, recebi como apoio da empresa HB
Defense, fabricante da Cal Sodada Atrasorb, uma espécie cal de alta
capacidade absorção de CO2, destinada apenas ao mercado militar e antes
testada durante 8 horas no sistema de depuração de gases do submarino
S34 Tikuna. Essa Cal, que já está em vias de comercialização para as
Marinhas do Brasil e África do Sul, me foi cedida gentilmente pelo senhor
Harry Baukelmann para testes e se mostrou mais uma ferramenta para agregar
segurança a mergulhos de longa exposição com rebreathers.
A outra equipe, constituída pelos mergulhadores Eurípedes Vieira e
Ricardo Villegas, iriam usar equipamento de circuito aberto e fazer um
primeiro mergulho no Utrecht. Depois, aguardariam na superfície o
lançamento de um decomarker na cor amarela, caso fosse encontrado os
destroços do Nossa Senhora do Rosário, para só então caírem novamente
na água para mergulhar nesse naufrágio.
Caso houvesse alguma contingência de descompressão à deriva ou outra
emergência qualquer, a equipe dos rebreathers lançaria um decomarker
vermelho e então a embarcação de apoio, comandada pelo experiente
mestre Carlinhos, deveria suspender o seu fundeio no Utrecht e partir para
o resgate.
Combinamos nosso mergulho para o sábado, dia 06/12/2008, mas em razão
de fortes ventos que assolavam a costa de Salvador, foi necessário adiar
a expedição por um dia. No dia seguinte, com um ensolarado domingo de
dezembro, partimos em direção ao Utrecht, tendo a nossa embarcação
Marline levado cerca de 2 horas e 30 minutos para chegar ao ponto de
mergulho, já que o vento, apesar de ter diminuído bastante, ainda
atrapalhava a navegação.
Chegando no ponto de mergulho, fundeamos sem problemas a embarcação e
começamos a nos preparar para o mergulho, tomando o cuidado de conferir a
azimute de busca com relação ao ponto mais proeminente de Salvador, já
que o melhor informe que recebemos, dizia que nós deveríamos seguir em
direção à cidade para encontrar o naufrágio.
Desse modo, resolvemos mudar nosso plano original de começar a busca
no azimute 45º, seguindo então a azimute de 60º, já que essa direção
dava justamente no ponto da cidade de Salvador mais em evidência
olhando-se a olho nú do Utrecht, que era a região do Farol da Barra.
Ao cairmos na água, nadamos com o auxílio dos scooters até uma das
âncoras do Utrecht e nela amarramos uma de nossas carretilhas primárias
para servir de guia ao ponto de retorno de nossa busca. Checamos os
instrumentos dos rebreathers, ajustamos os tow rope dos scooters e
seguimos em direção à rumada 60º, sempre atento a alguma peça de
naufrágio ou presença de peixes que pudessem indicar a proximidade do
Nossa Senhora do Rosário.
Logo ao iniciarmos a busca, numa imagem meio que épica, como diria
László depois do mergulho, fomos brindados pela presença de uma grande
arraia chita, que nos fez desligar por alguns instantes os motores dos
scooters para não assustá-la, afim de que fosse possível bater algumas
fotos.
Após o encontro com a arraia, seguimos a nossa busca, tendo eu, que
estava com o scooter mais lento, seguido na frente com o objetivo de fazer
verificação na área, vindo László logo atrás, com a incumbência de
lançar o cabo da carretilha primária. Esse arranjo de busca se mostrou
eficiente, já que após uns 180 metros de cabo lançados, começamos a
perceber à nossa direita, a presença de muitos peixes, sendo uma
indicação de que havia algum acúmulo de pedras ou naufrágio nas
proximidades.
Logo após, avistamos algumas âncoras do tipo almirantado e demos com
a elevação de cerca de 2 metros de altura, formada de pedras de lastro e
outras peças em elevado estado de concreção, indicando que ali estava o
epicentro do naufrágio do Nossa Senhora do Rosário.
Começamos a providenciar o lançamento do decomarker amarelo para
indicar a posição do naufrágio e podermos iniciar a fase exploratória
do mergulho, a fim de conhecermos o sítio histórico.
Ao final, depois de muitos lançamentos e recolhimentos de cabo de
carretilha, foi possível ter uma idéia geral do sítio, onde se
encontram os canhões e outras peças bem espalhadas, para permitir a
elaboração de um croqui que poderá servir de guia para futuras
operações de mergulho no local.
Conclusão
Esperamos que agora muitos mergulhadores de Salvador e de outras partes
do Brasil, possam realizar o seu sonho de conhecerem o naufrágio do Nossa
Senhora do Rosário, o qual certamente sempre despertou grande curiosidade
pela história em que se deu o seu afundamento.
Ele está nas coordenadas Latitude sul 13° 07.783' / Longitude oeste
38° 39.143’ (WGS 84), que já foram divulgadas ao grande público pela
Internet. As operadoras de mergulho de Salvador certamente poderão levar
os turistas para conhecerem ambos os sítios de mergulho.
Essa posição inclusive já foi verificada em outro mergulho, durante
a primeira operação comercial para o Utrecht e Nossa Senhora do
Rosário, que ocorreu em 14/08/2008, uma semana após a realização de
nossa busca.
Gostaria de agradecer os participantes dessa expedição: László
Mocsári, Eurípides Vieira Lima e Ricardo Villegas, pela companhia nesse
excelente dia de mergulho. Além disso, gostaria também de agradecer ao
mestre Carlinhos, sempre atencioso e de bom astral, mesmo nas horas mais
difíceis; ao senhor Harry Baukelmann (HB
Defense), pela gentileza no fornecimento da Cal Sodada Atrasorb
de formulação especial. E por último ao amigo Mike Netto (Rebreather
Clube do Brasil) e também ao casal Rodney Nairne & Suzie Dudas, da
Silent Submerge: sem vocês o meu scooter não estaria funcionando.
|




Um dos canhões de ferro do Nossa Senhora do Rosário.

Os scooters Divetrek Polaris trouxeram conforto durante o longo mergulho.

Arraia Chita que nos recepcionou na área próxima ao naufrágio.

Algumas âncoras do tipo Almirantado podem ser encontradas na
área dos destroços.

Lançamento e amarração do decomarker para marcar a posição do naufrágio.

László Mocsári no epicentro do naufrágio.



|