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Jornal O Globo - 21/01/1952
Estava visível, com todas as luzes acesas, o "Rio
Anil" !
O comandante Aloysio de Avelar têm uma experiência de 20 anos
de navegação. Paraibano de nascimento, comandava o Rio Anil
afundado à 12 milhas distante da Praia da Passagem, para onde
dirigiu o barco, depois da Colisão com o "Santarém".
Falando, na manhã de hoje, com a reportagem de O Globo, não
vacilou em apontar como culpado do sinistro que destruiu seu navio
o Santarém.
Meia hora antes da colisão, já víamos na linha do horizonte
o Santarém, que vinha em nossa direção. O Rio Anil viajava para
o sul, com todas as luzes de navegação acesas e em perfeitas
condições técnicas. Ao aproximar-se o Santarém, repentinamente
deu uma guinada, alcançando-nos à meia nau. A bordo não houve
pânico. Toda a tripulação do Rio Anil comportou-se
magnificamente. Imediatamente aproei para terra usando as
maquinas, por saber que não flutuaria muito tempo. Enquanto isso,
sem que recebesse nenhum auxílio, o Santarém parava para
assistir ao espetáculo. Com suas próprias forças, 45 minutos
depois, o Rio Anil afundava. Dei ordem para que ele fosse
abandonado. Ao chegarmos à Praia da Passagem. Ainda se avistava o
seu costado fora d'água. Sua localização, assim, não é muito
difícil.
Explicou ainda o comandante Avelar não ter havido nenhum
desvio de rota.
- A noite estava clara, com boa visibilidade.
Da mesma maneira que avistamos o Santarém meia hora antes o
sinistro, eles deviam nos ter avistado. Quando chegar ao Rio, não
vacilarei em apontar seu comandante como culpado pelo acidente de
que foi vítima o meu barco.
Interpelado sobre se os ordenados da sua tripulação estavam
atrasados, como se noticiou, respondeu:
- Não, apenas o mês de dezembro ainda não foi pago. Seria
saldado quando chegássemos ao Rio.
Não sabendo calcular os prejuízos causados por desconhecer o
valo exato da carga que transportava o Rio Anil, disse o
comandante Avelar não ter conhecimento de que a bordo do
Santarém realizava-se um baile e que não foi interrompido com o
sinistro de que foi vítima seu barco.
Do local onde afundou o Rio Anil, sua tripulação, em dois
escaleres, remaram doze milhas até alcançar a praia, onde
ninguém os aguardava. Só algum tempo depois lhes foi prestado
socorro. Desse ponto foram à pé para Cabo Frio.
Sem dinheiro e sem roupa
No afan de se salvarem, os tripulantes o Rio Anil não tiveram
tempo de salvar seus pertences. Em Cabo Frio, onde se encontram,
não tem mais do que a roupa do corpo. A companhia Guaracy de
Almeida Costa Navegação e Comércio, segundo declarações dos
marinheiros, ainda não lhes prestou nenhuma assistência. O
comandante Avelar e o Imediato Moyses Marques Valentim, este
morador em Cabo Frio, conseguiram alojamentos para a tripulação
em algumas hospedarias. Alguns deles estão dormindo no chão.
Da Marinha de Guerra
Durante a guerra, o Rio Anil serviu como navio auxiliar da
Marinha, para desembarque de tropas. Só depois é que foi
adquirido pela companhia à que pertence e empregado no comércio
de cabotagem.
A Tripulação
A tripulação do Rio Anil, além do comandante Avelar e do
Imediato Moyses Marques Valentim, era composta dos seguintes
homens: João Canfim, 27 anos, carvoeiro, residente na Bahia;
Érico Pereira de Aguiar, 22 anos, solteiro, moço de convés,
residente em Barra dos Coqueiros, Sergipe; José Ferreira da
Silva, 17 anos, solteiro, taifeiro, residente em Conselheiro
Junqueira, Salvador; Waldemar Oliveira dos Santos, 23 anos,
solteiro, marinheiro, residente em Barra dos Coqueiros, Sergipe;
Francisco Corrêa Fagundes, 40 anos, solteiro, marinheiro,
residente em Barra dos Coqueiros, Sergipe; Júlio Paulinino de
Souza, 38 anos, casado, marinheiro, residente na praia o Canto,
nº 32, Maceió; José Araújo Arcanjo, 36 anos, casado,
marinheiro, residente em Jequiá da Praia, Maceió; Léo Fernandes
da Silva, 21 anos, solteiro, taifeiro, residente em Senador
Pompeu, Ceará; Clauiomiro José do Sacramento, 42 anos, casado,
marinheiro, residente na Vila do Conde, Salvador; João Gualberto
da Costa, 25 anos, solteiro, cozinheiro, residente m Santo Amaro,
Salvador; Aires Martins, 22 anos, solteiro, carvoeiro, residente
em Laguna, Santa Catarina; José Alves de Aquino, 25 anos,
solteiro, carvoeiro, residente em Aracajú; José Evangelista da
Silva, 29 anos, casado, marinheiro de convés, residente em
Aracaju.
Veterano em naufrágios
Claudiomiro José do Sacramento, é um velho "lobo do
mar", com 26 anos de vida no mar, Esse é o seu segundo
naufrágio. Durante a guerra, na costa do Ceará, salvou-se
milagrosamente, quando socorrido por uma jangada, de outro
naufrágio.
Preciosa carga no fundo do mar
A carga do Rio Anil constava de dois automóveis novos,
destinados à Santos, uma usina de açúcar, embarcada em Salvador
e destinada à Itajaí, Santa Catarina; 5.000 caixas de farinha de
cacau; grande quantidade de açúcar; 3 mil butijões de gás
Esso; 5.000 fardos de madeira compensada; 3.000 ranchos de cedro;
3.000 postes de madeira (massaranduba), para Niterói; 2.500
fardos de fibras para Jaffet & Cia, em São Paulo; 3.000
caixas de leite condensado; frios e salgados para a Embaixada dos
Estados Unidos. A bordo vinham galinhas, perus e papagaios em
grande quantidade.
Contesta o comando do Santarém
No gabinete do diretor geral do Lloyd Brasileiro, Almirante
Lemos Basto, informaram-nos:
A mensagem envida do Santarém pelo comandante Raul Diegoli,
descreve-se o albaroamento como um acidente inevitável. O choque
foi previsto à uma distâcia muito curta e as manobras
suficientes apenas para atenuar os efeitos do encontro entre as
duas embarcações. Acrescenta a notícia de que o vapor o Lloyd
parou suas máquinas e ficou aguardando qualquer pedido de
socorro. Do passadiço, os oficiais e tripulantes viram o Rio Anil
manobrar em direção da terra, sem dar o menor sinal de perigo,
retomando-se a viagem para o norte depois de quase sessenta
minutos. Termina o informe telegráfico dizendo que o afundamento
do madeireiro deve ter ocorrido muito mais tarde, pois, de longe,
ainda o avistaram diversas vezes.
Havia sido reaparelhado em setembro – Seguros na
importância de CR$ 4.000.000
O comandante Luiz de Britto Albernas, presidente da companhia
proprietária do navio, Mag Comércio e Navegação, ouviu, hoje,
pelo O Globo. Informou que o seu navio tinha capacidade de 600
tolenadas e estava segurado em CR$ 4.000.000. Em setembro, suas
máquinas foram recondicionadas, importando a operação em CR$
700.000 . Aguarda o comandante Albernas, o resultado do inquérito
contra o Lloyd Brasileiro.
O Achado
Em 18/06/2005, através das informações passadas por Elísio
Gomes Filho ao Ênio Couteiro, proprietário da operadora Over
Sea Dive Center de Cabo
Frio, que posteriormente cedeu toda a sua estrutura para as
buscas do naufrágio, os mergulhadores Clécio
Mayrink, João
Tavares, Lélis
J e Rodrigo Thomé, buscaram e encontraram o naufrágio.
Colaborações especiais de Rodrigo
Coluccini e Eduardo Davidovich, quanto às pesquisas
para a identificação deste naufrágio.
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