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Phuket - 100 dias após o tsumani
Essa viagem deveria ter sido realizada em dezembro, pouco antes da
tragédia que abalou o mundo, arrasando regiões costeiras do sul e
sudeste asiático. Alguns problemas me impediram de realizá-la na época
programada, acarretando no cancelamento e remarcação posteriormente.
Ainda me convalescendo da cirurgia a qual fui submetido, no mês de
janeiro, aceitei ao convite do Gabriel
Ganme (Diving
College), para uma segunda expedição a África do Sul e Moçambique
respectivamente, para mergulhar com os tubarões
Cabeças Chatas e Tigres, e como faria conexão no primeiro país,
seria fácil remarcar os bilhetes, onde viajei com o pessoal, e de lá,
pegando um vôo para Hong Kong, e depois para Bangkok.
Logo no desembarque, me impressionou o tamanho do aeroporto, a
quantidade de companhias aéreas, e principalmente a infra-estrutura
voltada para o atendimento ao turista, algo muito raro de se ver no
terceiro mundo, o que me fez refletir sobre o potencial turístico do
Brasil, nas mãos de arrogantes burocratas e políticos espertos. A
Embratur poderia enviar uma comissão de técnicos para lá, não para
fazer turismo, mas para um estágio de no mínimo um ano, vindo a
aprender muito sobre turismo receptivo, e aplicar os conhecimentos aqui
no Brasil.
Bem, no aeroporto, ao escolher e reservar o hotel, perguntei sobre
Phuket, e indicaram tomar informações junto ao TTI Thai Tourist
Information, me deram o número do telefone. No mesmo dia, ao chegar na
suite do hotel, liguei e fui informado que estava tudo normal por lá no
que diz respeito aos mergulhos, e sem acreditar muito, pedi para falar
com a supervisora e expliquei que havia enviado do Brasil, alguns
e-mail’s a diversas operadoras e sem obter respostas. Mencionei também
que estava indo para Phuket, única e exclusivamente para mergulhos e não
poderia perder a viagem. A resposta que tive foi positiva, e que poderia
ir sem preocupações, e foi o que fiz.
A Ilha de Phuket dispõe de um moderno aeroporto internacional onde
pousam inclusive Boeings 747, e está a cerca uma hora de vôo a partir da
capital, havendo linhas regulares ligando Phuket à Europa,
principalmente aos países nórdicos, cujos visitantes praticamente
dominam a região, e até restaurantes servem a culinária de lá, e
casas comerciais com os mais variados segmentos com nomes que sugerem a
cultura escandinava.
Em Phuket há praticamente duas praias com seus respectivos centros
comerciais e complexos turísticos, o de Patong e Karon, distantes uma
hora de carro de Phuket Town, e a distância entre uma e outra, pode ser
percorrida por tuk-tuk em 5 minutos. Para quem não sabe, tuk-tuk é
aquele veículo estranho, misto de moto e carro, com carroçeria aberta
que chega a levar até quatro passageiros. Para quem for, é bom lembrar
que o aeroporto é longe das praias, é mais econômico tomar uma van
compartilhada com outros passageiros que os deixam no hotel, com um preço
bem cômodo.
A operação de mergulho
Tive muita sorte, pois escolhi uma operadora que é a maior da região
e passou intacta pelo tsunami, a
South Siam Divers.
Ao chegar para agendar meus mergulhos, percebi que o staff me estava
sonegando informações sobre as operações após a onda grande, sempre
respondiam minhas indagações com evasivas ou respostas positivas, eu
queria estatísticas e estava curioso em saber o porque as saídas para
Phi Phi Island, estavam canceladas por tempo indeterminado, e fui saber
de mais detalhes alguns dias depois através do Abel, um divemaster
mexicano e casado com uma simpática e bonita instrutora canadense de
fala francesa. Acertei um live a board de dois dias em Similan Islands e
mais três saídas do píer de Patong.
Para se chegar a Similan, a operadora recolhe os mergulhadores antes
das 8hs no hotel, e a viagem de van até uma pequena cidade localizada
literalmente em frente ao arquipélago, dura aproximadamente em média
três horas. Depois se toma um speed boat, que praticamente voa na água,
percorrendo uma hora. Ao avistar o barco principal que fica no arquipélago
tive uma agradável surpresa: o tamanho e a imponência do Samboon 3.
A operadora dispõe de dois deles somente para o live aboard em
Similan. Em suma, o barco é um verdadeiro hotel flutuante, com doze
cabines duplas com ar condicionado e todo o conforto. De tão grande,
ele praticamente não oscila ao sabor das ondas, e se têm a impressão
de não estar embarcado. São servidas cinco refeições ao dia,
contando o café da manhã, e realizadas seis imersões por dia, sendo
uma noturna (não é permitido mais que cinco mergulhos por dia).
O barco que faz a ligação entre o hotel flutuante e o continente,
também traz víveres e combustível diariamente, não vi água potável
sendo descarregada, suponho que haja um sistema de dessanilização.
O movimento de mergulhadores é grande, mesmo após o tsunami, haviam
vinte e dois mergulhadores à bordo, mais a equipe de marinheiros,
instrutores, divemasters, cozinheiros e ajudantes gerais chefiados pelo
Tony, um inglês muito gente boa.
As ilhas Similan, são ilhas rochosas semelhantes a Laje de Santos,
só que cobertas por vegetação e com rochas que se prolongam ao fundo,
só que as mesmas são incrustadas por corais de todos os tipos, e
muitos peixes de todos os tamanhos e cores. Ao navegar um pouco para
fora a paisagem submarina muda, há grandes for mações de pináculos
verdadeiros berçários dada a quantidade de pequenos peixes. Essa
riqueza de vida, se deve a localização. Esta parte da Tailândia é
voltada para o mar de Andaman, que é um prolongamento do Oceano Índico.
Os mergulhos
Em dois dias e uma noite, fiz um total de oito mergulhos e avistei um
tubarão leopardo logo no primeiro. Na faixa dos 40m, também avistei
uma grande raia manta, fiquei sabendo que a aparição de tubarões
baleias é muito comum por lá.
Os mergulhos são todos drift, e há dois infláveis que seguem para
todos os lados, provendo suporte aos mergulhadores que retornam. A
visibilidade gira em torno dos 40m.
O tempo passou sem que percebesse e já era hora de voltar, e
mergulhar nos points de Phuket, se arrependimento matasse... As saídas
diárias para Shark Point, Anemone Reef e King Cruiser, um ferry boat
naufragado, ficam muito longe de comparações com Similan. A
visibilidade é muito prejudicada e impede que se aprecie a grande
quantidade de vida na região. O que me despertou a curiosidade foi. uma
moréia bem agressiva, só que do diâmetro de um dedo da mão, que
insistia em defender sua toca. Um detalhe interessante, é que são
feitos três mergulhos por saída.
O outro lado de Phuket
O meu tempo de sete noites em Phuket se aproximava do fim, e preciso
voltar ao local dos estragos causados pelo tsumani, e ouvir mais dos
profissionais do mergulho. Fui até a operadora onde o Abel trabalhava
na ocasião, a Adaman Divers, um luxuoso dive center localizado em Karon
Beach, o que vi e ouvi me deixou estarrecido. Logo de cara, ao fazer
baldeação para outra van que pegara no aeroporto, conheci a Amy, que
ao lhe falar que estava lá para mergulhar e registrar os efeitos da catástrofe
na área do mergulho, me disse que era dona de um hotel em Phi Phi
Island e que o tsunami levou tudo e que agora estava pobre e gerenciava
uma agência de turismo. O próprio gerente do restaurante (agora sem
clientes) do hotel onde me hospedei, também foi uma vítima, e me
contou que três meses antes havia arrendado sua pousada em Phi Phi
Island, e também havia perdido tudo. O homem parecia fora de si, se
emocionava ao tocar no assunto.
Também conheci um ambulante com uma pequena e pobre barraca em
Patong, onde o estrago foi grande, fazia ponto em frente a um mini
shopping, que pela sua característica de construção subterrânea
matou, mais de duzentas pessoas. Ele se salvou ao subir em uma árvore,
seu nome é Arum. Lá todos têm uma história triste para contar.
Voltando ao tema de minhas visitas a Adaman, o proprietário da
operadora, me disse que para essa temporada, cerca de 80% das reservas
haviam sido canceladas, parecia meio transtornado e um pouco fora da
realidade, e muito triste me apontou o Hotel Islândia, ao lado, e falou
que teve noventa porcento de cancelamento nas reservas e seu staff já
havia deixado a Tailândia.
A mulher do Abel no dia anterior conseguiu o visto de saída e rumava
para o México, o Abel estava com problemas junto as autoridades de
imigração para conseguir o visto, não acreditavam ser ele uma vítima
do tsumani, não tinham documentos exceto o passaporte emitido pela
embaixada de seus respectivos países, também tinham perdido tudo, ele
inclusive, o dinheiro que havia amealhado trabalhando como divemaster, e
ela mais esperta, não perdeu dinheiro pois o mantinha em conta
corrente.
Passei praticamente o dia nas luxuosas instalações da Adaman, soube
através desses profissionais que 50% das operadoras estavam destruídas,
fora do mercado, haviam perdido barcos ou equipamentos, ou ambos, as
sobreviventes estavam se arrastando, e compartilhando saídas com as
poucas que ainda dispunham de barcos, por exemplo, uma saída de três
mergulhos custa U$ 60 sendo que para uma operadora sobrevivente faziam
por U$ 25 por mergulhador acompanhado de instrutor ou divemaster.
A situação de muitas operadoras era realmente sem muito
futuro, não creio que ainda estejam operando, pois estavam sem
equipamentos e principalmente sem staff. Os horizontes não eram muito
promissores. É triste mas acredito que hoje devem estar fechadas, ou
repassando consumidores dos serviços a troco de comissões.
Durante as minhas andanças pelo local, acabei sabendo o porque dos
mergulhos em Phi Phi estarem suspensos. Na verdade, existe um recife
onde eram realizados os mergulhos, e o tsunami destruiu metade dele.
Anteriormente haviam me dito que era algo em torno de 10%, e a metade
restante estava encoberta por destroços oriundos dos estragos causados
pela onda grande. Confirmei a veracidade da informação sem querer,
pois ao deixar a Tailândia, um jornal tailandês que me forneceram à
bordo, mencionava sobre operações de limpeza sendo efetuadas neste
recife por operadoras e voluntários.
Ainda não havia feito uma visita minuciosa a região mais atingida
de Patong, e combinei com o Abel, para que no dia seguinte me guiasse até
lá. Essa área por ser o coração do turismo em Phuket, estava sendo
reconstruída a toque de caixa, operários trabalhavam dia e noite, o
que me impressionou o rítmo dos trabalhos. O próprio governo destinou
verbas as pessoas que possuíam grandes negócios na área, e para os
pequenos, não havia sobrado nada.
observando a paisagem em reconstrução, vi que realmente os grandes
hotéis estavam praticamente prontos, enquanto os menores, estavam com
as obras bem atrasadas em relação os primeiros. A situação das regiões
pobres também atingidas pelo fenômeno, eram críticas, pois nada havia
sido feito em pró da recuperação da região, por ser habitada por
gente de baixa renda, e Abel me perguntou se queria ir até lá,
respondi que por hoje chega de desgraça. Ele retrucou: Asi és Mário !
Asi és el mundo, asi és la vida.
Apesar de sabermos quase tudo a respeito da catástrofe, é sempre
diferente quando nosso entrevistado viveu esses momentos e se dispõe a
falar sobre o assunto de forma voluntária. Na hora do fato ele se
encontrava em sua casa, distante aproximadamente dois quilômetros do
mar, conforme havia dito, só ficou com a roupa do corpo (um calção),
e agora tinha algumas mudas de roupa que foram doadas por representações
estrangeiras. Ele riu ao comentar que sua companheira colecionava maiôs
e tinha inclusive alguns fabricados no Brasil, e se orgulhava deles,
agora só tinha um manufaturado lá, e bem esquisito. Foram tantas as
passagens trágicas que ouvi, que prefiro omitir, já que aqui o assunto
é mergulho.
Uma delas me chamou á atenção, horas após o desastre natural,
helicópteros militares começaram a sobrevoar a área, e os
sobreviventes se encheram de esperanças com que pensavam ser ajuda, na
realidade os militares desembarcaram a procura do neto do rei... o
socorro só chegou no dia seguinte, coisas que a mídia não noticiou, e
antes que eu esqueça, o pobrezinho morrera...
Ainda não contatei o pessoal de lá, devem estar bem longe, e para
finalizar, vou dizer o que ouvi do instrutor alemão que estava partindo
para a Espanha:
O mergulho na Tailândia ainda vai legar alguns anos para se
recuperar.
Quantos ? Perguntei.
No mínimo três.
E se fez um silêncio no local.
Na hora não entendi direito o porque de tanto tempo, depois sim, é
que os staff das operadoras na Tailândia, é composto por estrangeiros
em sua grande maioria, e eles estavam indo embora, afinal precisam comer
e trabalhar para ganhar o sustento, e lá já não havia mais mercado.
O que acabou com a grande maioria das operadoras de Phuket, não foi
apenas a perda dos equipamentos, foi a perda de um bem mais valioso, o
material humano, e muito bem treinado.
Serviços
| Visto: |
Não é necessário |
| Padrão Monetário: |
Bath Tailandês |
| Paridade: |
1 USD = 40 Bath |
| Fuso horário: |
Fuso horário: 10 horas a mais que o
horário de Brasília |
Hotel em Bangkok: Eu escolhi o Royal Princess
Hotel, bem localizado, um serviço nota 10, e muito barato para um 5
estrelas. Cerca de U$ 59. O interessante é que lá se pode fazer
uma base para outros lugares da Tailândia, não cobram pela bagagem
guardada por até 30 dias. O gerente geral, Sr. Pornthep, muito gentil,
me fez upgrade em todas as vezes em que me hospedei. Esse hotel dispõe
de piscina, quatro restaurantes, doceria etc. Há Uma infinidade de hotéis
para todos os bolsos, logo no desembarque, no saguão do aeroporto
funciona uma loja de atendimento ao turista e se pode escolher e
reservar hotéis.
Hotel em Phuket: Escolhi o Karon Princess
Hotel, na praia de Karon, todos com vista para o mar, pelo módico
preço de U$ 20, e está localizado em frente ao mar.
Companhias aéreas: Fui pela South
African via África do Sul e Hong Kong, pois desejava passar por
esses dois países, mas há vôos direto de Los Angeles e é mais perto.
Sempre uso os serviços da Sakura Holiday Travel quando meu destino é o
Oriente, pois são especialistas para essa parte do mundo e tem os
melhores preços.
Agência de turismo em Bangkok: Para reservas e bilhetes aéreos
dentro do país e para os vizinhos, encontrei a Tong Shai Tour 2 - Tel: 0-2235-8481, e-mail wutthijaruphathr@hotmail.com,
uma das maiores e com melhores tarifas.
Vacinas: Para aqueles lados do planeta é bom se vacinar
contra a febre amarela.
Operadoras: A South Siam
Divers, está operando normalmente. Há outras, porém, essa passou
incólume pelo tsunami.
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Embarcação da South Siam Divers






Phuket
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